6 de janeiro de 2013

Trëma n.º 1


O panorama nacional da ficção especulativa, tantas vezes atribulado por disputas que em nada contribuem para o seu desenvolvimento, aproximou-se em 2012 de um ponto de viragem; graças ao esforço e à dedicação de várias pessoas que vieram agitar as águas de uma forma saudável, a continuação das publicações já existentes ficou assegurada e tornou-se possível a origem de novos projectos. Assim, ao longo do ano passado, os leitores tiveram acesso a edições da Bang!, da Nanozine, da Fénix, da Dagon, do Conto Fantástico, da Lusitânia, da International Speculative Fiction e da Trëma. Com excepção da primeira, a cargo da editora Saída de Emergência, tratam-se de publicações de carácter amador.
É certo que quantidade não é sinónimo de qualidade, e é neste último aspecto que pecam a maioria destas publicações. O referido carácter amador justifica esta situação, mas não deveria ser motivo para a sistemática falta de exigência, nem para o desleixo na revisão. Felizmente, a Trëma procura afastar-se dessa tendência que não beneficia nem os leitores (que não têm acesso a um produto final com a qualidade que merecem), nem os autores (cujo espirito crítico precisa de ser cultivado de modo a poderem desenvolver a sua escrita).
A Trëma assume-se com um campo de treino para quem pretende desenvolver a sua capacidade no campo da escrita fantástica.
A importância dada ao conteúdo é evidente, tanto nos contos como nos artigos presentes neste primeiro número, denotando um processo cuidado de edição/revisão.
No que diz respeito à ficção, surpreendeu-me em especial O Cais do Poeta da Carina Portugal, pela junção da fantasia com o ambiente urbano da Baixa de Lisboa, ressuscitando temporariamente algumas das mais importantes figuras portuguesas.
A ficção é intercalada por artigos bastante interessantes (opção que me parece acertada porque contribui para tornar uma leitura contínua mais agradável). Entre eles, o do João Campos, em torno do eterno duelo entre ficção literária e ficção de género, é bastante pertinente para a linha de raciocínio que tenho aqui vindo a seguir, porque recorda o preconceito de que a ficção especulativa sofre. Apesar de se tratar de uma falsa questão (a boa literatura encontra-se tanto na ficção de género como na ficção literária, tal como é referido no artigo), esse preconceito existe e não deve ser ignorado, dado que em nada contribui para os principais objectivos das publicações amadoras. Estas precisam, necessariamente, de atrair submissões de qualidade, e o preconceito para com a ficção especulativa limita logo à partida o volume dessas submissões. Se, por sua vez, o grau de exigência é baixo, esse volume torna-se ainda mais reduzido, porque um autor ciente das suas capacidades dificilmente quererá lançar-se no mercado associando o seu nome a uma dessas publicações.
O design gráfico é simples mas suficiente para o que se pretende. Existem, no entanto, alguns aspectos que podem ser melhorados: o tamanho de letra demasiado pequeno, que obriga a um esforço de vista desnecessário; os parágrafos que, não sendo separados por uma linha em branco, deveriam apresentar um avanço na primeira linha; a resolução das imagens, que em vários casos deixa bastante a desejar, inclusivamente na secção dedicada ao artista de capa que, na minha opinião, não deveria estar limitada a apenas uma página dadas as dimensões da revista.
Este primeiro número é, pois, um início promissor para um projecto que pode tornar-se numa plataforma importante não só de divulgação, mas também de comunicação entre autores (através de uma oficina de escrita criativa e respectivo fórum de discussão). Resta agora, em futuras edições, diversificar o conteúdo, talvez através do alargamento da secção destinada a críticas e entrevistas, ou da inclusão de notícias e reportagens de eventos relacionados com a literatura fantástica, mantendo, claro está, os pontos fortes que aqui apontei.
Além de tudo isso, e apesar da conjuntura actual não ser favorável, gostaria também de pensar que estamos mais próximos de reavivar outro antigo debate: o da remuneração dos autores. Ainda há um longo caminho a percorrer para atingir esse patamar mas, a julgar pela quantidade de revistas e antologias publicadas no ano anterior, assim como pelos vários eventos que foram organizados, não falta interesse na ficção especulativa, nem força de vontade para a estimular a produção literária dentro dos géneros que esta engloba.
Trëma #1

Artista da Capa – Luís Melo
O Vigésimo Oitavo Dia – Maria Amaral Ribeiro
Sobre a Trëma, e sobre escritores e edição – Rogério Ribeiro
Como caçar uma vanity press? – Ana Ferreira
O Cais do Poeta – Carina R. Portugal
Espaços virtuais, espaços pictóricos, espaços ficcionais – Artur Coelho
A bela adormecida do Mosela – Rui Ângelo Araújo
O Sofisma da “Ficção de Género” – João Campos
Na Crista da Onda – Luís Filipe Silva
Entrevista a Ivor Hartmann
Crítica – Andreia Torres

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