12 de dezembro de 2012

Necrópole, de Santiago Gamboa


Necrópole
2012 (Data original de publicação: 2009)

Título Original: Necrópolis
Autor: Santiago Gamboa
Editora: Eucleia Editora
Tradução: Natália Reis
Páginas: 424
ISBN: 978-989-8443-16-8

“As vidas são como as cidades: se são limpas e ordenadas, não têm história. É na desgraça e na destruição que surgem as melhores.”
E é na desgraça e destruição que têm origem as diferentes histórias que constituem Necrópole. Histórias de desgraça e destruição, mas também histórias de resistência e perseverança, de vícios irrefreáveis e paixões reprimidas, que nos enriquecem como só as histórias da vida o podem fazer.
O romance tem início em Roma, onde um escritor Colombiano recupera de um período de doença prolongada, quando é surpreendido por um convite para um congresso dedicado à biografia, em Jerusalém. Tendo abandonado a escrita durante o seu período de convalescença (“é mais fácil prescindir do que ainda não existe nem tem forma”) e sendo a sua obra constituída essencialmente por ficção, o escritor encara o convite como um engano mas, após confirmação por parte dos organizadores do congresso, acaba por aceitar a proposta, entusiasmado pela oportunidade de se libertar do marasmo que o rodeia desde que adoeceu.
“A grandeza, em termos clássicos, pareceu-lhe uma prisão. Então, dedicou-se às coisas simples, que era um modo de dizer: à vida feliz.”
Jerusalém, devastada pela guerra, revela-se um palco bastante apropriado para o congresso, alimentando um confronto constante entre a realidade e a ficção, que incita os participantes do congresso (e o leitor) a questionarem-se acerca do poder efectivo das palavras, cuja importância parece desvanecer-se perante a proximidade de tamanho sofrimento.
A partir do início do congresso a narrativa principal é interrompida pelas diversas histórias relatadas pelos oradores convidados: o primeiro é José Maturana, ex-toxicodependente, que conta como conheceu o reverendo Walter de la Salle e o acompanhou durante o crescimento da sua influência, assim como na queda do seu império; segue-se o biógrafo francês Supervielle Miret, que apresenta a história de dois xadrezistas unidos pela amizade e pelo gosto das coisas simples; o empresário colombiano Moisés Kaplan opta por uma versão moderna de O Conde de Monte Cristo, protagonizada por um compatriota; finalmente, Sabina Vedovelli, actriz porno, expõe a sua vida, explicando o sucesso da sua carreira e a sua ambição em mudar o mundo através da arte.
É nestas histórias que a qualidade da escrita de Gamboa se evidencia. A linguagem e a estratégia que cada um dos oradores emprega para prender a atenção da assistência são perfeitamente adequadas; vozes bastante distintas mas, apesar disso, igualmente cativantes. Esta variedade resulta num arriscado mas bem-sucedido equilíbrio, que acaba por compensar a inevitável fragmentação de um romance que é composto por narrativas vagamente ligadas por algumas ideias comuns.
“Tudo isto, disse Momo, não é mais que a entrada nesse lugar que desde aqui não se pode ver, mas está lá em baixo, o vale de Josefat, de onde soaram as Trompetas do Juízo Final, pois esta cidade, no fundo, está feita para a morte. De todos por igual. Por isso é a grande necrópole do Oriente e do Ocidente.”
Gamboa não se coíbe de descrever a desolação causada pela guerra, cenas de sexo, violência ou consumo de drogas, em parte para chocar o leitor, mas acima de tudo para apresentar uma realidade que é fácil esquecer tal o distanciamento entre os países mais desenvolvidos e o resto do mundo, ou até mesmo entre diferentes classes sociais. Uma realidade que, mesmo quando não é esquecida, é muitas vezes deturpada de modo a servir interesses políticos. Assim, Necrópole é um exemplo de como a literatura pode ser preponderante contra a desinformação, abrindo os olhos dos leitores para a miséria humana que permeia a nossa sociedade como só um bom livro pode fazer.
“Vir a um lugar como este é um modo de despertar por completo, abrir os olhos e, uma vez bem abertos, não se pode permitir que se fechem; na periferia dos nossos belos países há um aterrador mundo exterior repleto de vida, um sol negro que se estende por vários continentes e que, após o primeiro impacto, revela a sua beleza. O que se vê na superfície é horrível e cruel, mas lentamente emerge a beleza; no nosso mundo, pelo contrário, a superfície é bela e tudo esplende, mas com o tempo o que se manifesta é o horror.”

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