29 de fevereiro de 2012

Conversas em torno dos livros: Eucleia Editora


Apesar do destaque dado aos autores nórdicos, a Eucleia apresenta um catálogo variado. Quais os critérios que orientam a vossa escolha?

São, essencialmente, critérios de qualidade. Não fazemos restrições geográficas, temporais ou estilísticas – tentamos, sobretudo, que todos os nossos autores sejam inegavelmente bons, que se lhes posso atribuir talento e mestria literária. Acontece, no geral e muito por causa dos nossos próprios gostos, que todos eles acabam por partilhar caraterísticas em comum, como o humor negro, o sarcasmo, o pendor melancólico, a agudeza na crítica social, entre outras coisas que não permitem ao leitor a indiferença.

Iniciaram a vossa actividade num período conturbado, tanto pelo panorama económico, como pelas mudanças drásticas de que o sector editorial tem sido alvo. A recente proliferação dos eBooks é, na vossa opinião, uma ameaça, uma oportunidade, ou um misto de ambas?

Neste momento, em Portugal, não são, nem por sombras qualquer tipo de “ameaça” ao livro impresso. De qualquer modo, acreditamos que são apenas dois meios que servem para fazer circular um conteúdo que, independentemente do veículo, não deixa de ser o que é – uma arte. São, ou podem ser, perfeitamente complementares. A nosso ver, nada iguala o livro impresso enquanto objeto físico, portanto, se ele acabar, não será certamente por única e exclusiva culpa dos ebooks. Aliás, se isso vier a acontecer, estaremos talvez perto da rutura total, ou até do fim do mundo.

Têm ao vosso encargo a escolha, tradução, revisão e distribuição dos títulos que editam. Qual a principal recompensa que obtém do vosso esforço, o motivo que vos leva a enfrentar um trabalho tão exigente a nível de trabalho, e tão pouco gratificante em termos financeiros?

Temos um grave problema: tendências obssessivo-compulsivas :)

As dificuldades que enfrentam devem-se, em parte, aos hábitos de leitura dos portugueses. Que medidas apontariam para a melhoria desses hábitos, contribuindo assim para a viabilidade das editoras que não estão dispostas a sacrificar a qualidade em prol de aspectos comerciais?

É uma questão de fundo. Seria bom não se tratar as criancinhas como se fossem atrasadas mentais. Dever-se-ia promover, efetivamente, a leitura nas escolas e lutar contra a perseguição e a chacota às pessoas que lêem. Neste país, infelizmente, tem-se em muito má conta o trabalho intelectual e cultural – julga-se que se escreve e que se edita porque apetece e não porque também por aí se possa, e se deva, ganhar dinheiro. Não se valoriza a excelência. Aplaude-se a mediocridade. A principal medida que sugerimos é o abate total dos cartéis da edição em Portugal (mafiosos que impingem tremendas porcarias às pessoas, quando elas próprias, muitas vezes, não as conseguem ler de tão más que são!). O resto passa por uma mudança de mentalidade tão profunda e gigantesca, a que nós já não assistiremos, visto que estamos com um atraso superior a cem anos, em relação à restante Europa.

Finalmente, que novidades podemos esperar da Eucleia num futuro próximo?

Se ainda estivermos vivos, teremos uma Eucleia a um ritmo muitíssimo mais brando, mas sempre muito rigorosa. Só deveremos publicar três livros este ano, dois deles extremamente volumosos. Vamos sobrevivendo.


O catálogo da editora pode ser consultado no seu website oficial, incluindo excertos das obras publicadas e recensões das mesmas. Podem também acompanhar a Eucleia através da sua página no Facebook. Os meus agradecimentos ao João e à Natália Reis pela sua simpatia e disponibilidade.

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