1 de fevereiro de 2011

Sonho Febril - George R. R. Martin


Sonho Febril
2010 (Data original de publicação: 1982)

Título Original: Fevre Dream
Autor: George R. R. Martin
Editora: Saída de Emergência
Tradução: Ana Mendes Lopes
Páginas: 400
ISBN: 978-989-637-275-0


Publicado na década de 80, poucos anos após o sucesso de Anne Rice com Interview with the Vampire, este Sonho Febril destaca-se, à semelhança da obra de Rice, pela caracterização das suas personagens, cujos conflitos interiores são descritos de forma emocionante e detalhada. Trata-se de uma profundidade que títulos mais recentes, procurando aproveitar comercialmente a tendência em que os vampiros se tornaram, estão longe de atingir. É, também, uma prova da versatilidade de George R. R. Martin, reconhecido pelo seu trabalho dentro da ficção científica, do fantástico (principalmente pela saga A Song of Ice and Fire) e, como é o caso de Sonho Febril, do horror, muito embora não deixe de conjugar elementos característicos dos dois géneros acima referidos.
  “Abner Marsh recordou-se daquele preciso instante até ao fim dos seus dias, o momento em que viu pela primeira vez os olhos de Joshua York. Todos os pensamentos que tivera, todos os planos que fizera, foram sugados pelo turbilhão que eram os olhos de York. Novo ou velho, local ou forasteiro, todas as características desapareceram e ficou apenas York, o homem, o poder que dele emanava, o sonho, a intensidade.”
A braços com problemas financeiros, Abner Marsh, dono de uma companhia de barcos a vapor, recebe uma tentadora oferta do invulgar Joshua York, que está disposto a comprar metade da companhia e financiar a construção de um novo barco, exigindo apenas o posto de capitão e a plena aceitação dos seus excêntricos hábitos sem quaisquer perguntas. Inicialmente relutante, a paixão de Marsh por barcos a vapor acaba por falar mais alto, levando-o a aceitar a proposta de York e as condições por este impostas, decisão que irá marcar a vida de ambos.
Paralelamente a estes acontecimentos, é-nos dado a conhecer o misterioso Damon Julian, que se refugia numa plantação em Nova Orleães, e cuja natureza cedo se revela estar longe de ser humana.
  “À medida que o Sol se punha, a água lamacenta assumia um tom avermelhado, um tom que aumentou, se espalhou e escureceu até que parecia que o Fevre Dream estava a navegar por um imenso rio de sangue. Depois o Sol desapareceu por trás das árvores e das nuvens e, lentamente, o sangue escureceu, transformando-se em castanho, como acontece ao sangue quando seca, até que finalmente ficou preto, preto fúnebre, preto como a morte. Marsh ficou a ver os últimos remoinhos carmesim a desvanecer. Naquela noite não havia estrelas no céu.”
A par com os elementos fantásticos, o romance apresenta também uma vertente histórica, retratando a designada Época de Ouro dos barcos a vapor do Mississippi, através de ricas descrições que deixam transparecer a influência de Mark Twain. O autor, no entanto, não se limita à criação de uma imagem vívida da época, dado que o conflito entre humanos e vampiros acaba por reflectir o problema da escravidão, que só em 1865 viria a ser oficialmente abolida nos Estados Unidos.

Os dois fios narrativos acabam por se fundir num só, levando a um choque entre Joshua, que luta para libertar os vampiros da sede que os atormenta, e Damon, que, pelo contrário, encara com naturalidade a subjugação dos seres humanos, considerando a atitude de Joshua como uma fraqueza.
  “­- Por que motivo devo perseguir a beleza daqueles que passaram por nós e se afastaram se à minha volta há tantos outros, tantas possibilidades? Sabes responder-me?
- Bem, Senhor Julian, eu não...
- Não, Billy, não sabes, pois não? – Disse Julian com uma gargalhada. – Os meus caprichos representam a vida e a morte deste gado, Billy. Se alguma vez te tornares num de nós, deves entender isso. Eu sou o prazer, Billy. Eu sou o poder. E a essência daquilo que sou, o prazer e o poder, reside nas possibilidades. As minhas próprias possibilidades são vastas e não têm limite, à semelhança do que acontece com os nossos anos. Mas para esta gente, o limite sou eu, eu sou o fim das suas esperanças, das suas possibilidades.
(...) Não é o sangue que enobrece, que faz o mestre. É a vida, Billy. Ao beber a vida deles, a nossa torna-se mais longa. Ao comer a carne deles, a nossa torna-se mais forte. Ao deliciar-nos na beleza deles, também nós nos tornamos mais bonitos.”
Mas, por trás destes conflitos, vai-se insinuando uma melancolia que se intensifica à medida que o final do livro se aproxima, e nos deparamos com a beleza de um modo de vida que se perdeu no tempo. Uma realidade ressuscitada por George R. R. Martin, tanto na sua crueldade como no seu esplendor, de forma tão envolvente que provoca um sentimento de perda, como se o leitor tivesse presenciado o declínio dos barcos a vapor.
  “O mal, dizia você. Onde aprendeu esse conceito? Junto deles, claro, do gado. O bem e o mal são palavras do gado, são vazias e têm como única intenção preservar a inutilidade das suas vidas. Eles vivem e morrem com medo de nós, dos seus superiores naturais. Nós assombramos até os seus sonhos, por isso procuraram consolo nas suas mentiras e inventaram os deuses que têm poderes sobre nós, querendo acreditar que, sabe-se lá porquê, os crucifixos e a água benta nos podem domar. Tem de entender, caro Joshua, que o bem e o mal não existem; existem apenas forças e fraquezas, mestres e escravos.”

1 comentário:

  1. Este é o melhor livro de horror que já li. Seguindo o legado de "As Cronicas de Gelo e Fogo" este livro mantem um grande nível de qualidade, com um enredo complexo e recheado de personagens.
    Martin é um grande escritor de fantasia que criou um grandioso livro, recheado com as personagens mais horripilantes e incriveis, e com constantes acontecimentos sobrenaturais e terriveis.

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