21 de fevereiro de 2011

O Coração das Trevas - Joseph Conrad


O Coração das Trevas
2004 (Data original de publicação:1902)

Título Original: Heart of Darkness
Autor: Joseph Conrad
Editora: Público, Colecção Mil Folhas
Tradução: Teresa Amaro
Páginas: 126
ISBN: 84-9789-469-3

  "Heart of Darkness is experience...but it is experience pushed a little (and only a very little) beyond the actual facts of the case for the perfectly legitimate, I believe, purpose of bringing it home to the minds and bosoms of the readers."

                                                             Joseph Conrad
Transmitir a essência de uma época, preservar uma realidade que deixou de existir, é uma tarefa ingrata dada a sua impossibilidade. Não se trata, no entanto, de um exercício inútil, porque apesar de sermos incapazes de ressuscitar o passado, podemos recuperar os seus contornos essenciais, imortalizando-os através das palavras.
Baseado na experiência do autor, O Coração das Trevas transporta-nos até ao coração de África nos finais do séc. XIX, mais precisamente ao Estado Livre do Congo, reino privado de Leopoldo II da Bélgica, tirano que foi responsável pela brutal exploração dos nativos e por milhões de mortes (embora a inexistência de números exactos torne difícil apurar as mortes provocadas, estima-se que a população do Congo tenha sido reduzida a metade durante o jugo de Leopoldo).
  “Na imutabilidade que os rodeia, as costas estrangeiras, os rostos estrangeiros, a imensidade mutável da vida, deslizam rápidas, veladas não por um sentido de mistério mas por uma ignorância levemente desdenhosa; pois não há nada de misterioso para um marinheiro a não ser o próprio mar, que é a amante da sua existência e tão inescrutável como o Destino.”
A história é relatada por Marlow aos seus colegas marinheiros, descrevendo a sua viagem a África e as fortes sensações que o invadiram durante o tempo que passou na selva. Contratado por uma companhia de comércio como capitão de um barco a vapor, Marlow fica encarregue de subir o rio Congo à procura de um agente da companhia, de nome Kurtz. Ao longo dos meses que a operação durou, Marlow presencia a insensibilidade com que os nativos são tratados, que para além dos maus-tratos, têm ainda de suportar a fome e as doenças que assolam a região. Por outro lado, os elogiosos comentários tecidos acerca de Kurtz, realçando a sua eficiência e os seus princípios morais, levam Marlow a criar grandes expectativas relativamente ao seu encontro, um interesse que se torna praticamente obsessivo.
A subida do rio revela-se difícil e perigosa, e a tripulação vê-se mergulhada num clima de tensão que, gradualmente, induz Marlow a um estado apreensivo, estado esse que se vê justificado quando encontra um Kurtz bastante diferente do homem inteligente e virtuoso que tinha em mente...
  “Para lá da cerca, a floresta erguia-se espectral sob a luz do luar, e acima da surda agitação, acima dos sons desmaiados daquele lamentoso pátio, o silêncio da terra – o seu mistério, a sua grandiosidade, a surpreendente realidade da sua vida oculta – aninhava-se no nosso coração.”
A degeneração do sofisticado e culto Kurtz mostra-nos a fragilidade do homem civilizado, cuja racionalidade é incapaz de conter os instintos primitivos que o ambiente selvagem desperta; uma escuridão que se encontra no âmago de todos nós que nem a luz do progresso e do conhecimento consegue extinguir.
A par da forte componente psicológica, O Coração das Trevas oferece também uma valiosa componente histórica, expondo atrocidades cometidas nos impérios coloniais que, apesar de verem o seu impacto atenuado pelo tempo, não devem nunca ser esquecidas. Uma leitura inquietante em que nos defrontamos com o lado mais negro da humanidade.
  “O destino. O meu destino! Coisa estranha, a vida – essa misteriosa congeminação de impiedosa lógica para um propósito fútil. O mais que se pode esperar dela é algum conhecimento de nós próprios – que peca por tardio – um nunca acabar de mágoas. Lutei contra a morte. É a competição menos excitante que se pode imaginar.”

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