23 de fevereiro de 2011

Do Advento dos eBooks

Ao longo da sua evolução, o homem desenvolveu diversos suportes para sustentar um acto que eu diria essencial para o seu progresso: a leitura. O livro impresso dos nossos dias resulta de diversas revoluções, a nível do material de suporte (como as placas de barro, o papiro, o pergaminho e eventualmente o papel), de formato (destacando-se a mudança de manuscrito enrolado para o códice), da linguagem e da escrita (a invenção do alfabeto, a mudança de orientação vertical para a horizontal). Estes aperfeiçoamentos culminaram no livro tal como o conhecemos hoje, época em que nos defrontamos com uma nova revolução, desta feita, a proliferação de conteúdo em formato digital.
Esta mudança de paradigma é alimentada pelo progresso tecnológico das últimas décadas. Muito embora o crescimento do mercado digital venha, só agora, tornar essa mudança evidente, os primeiros livros electrónicos remontam aos anos 70, com a inauguração do Project Gutenberg em 1971, limitados, no entanto, a um público bastante restrito. Em 1991 a Sony lança o precursor dos eReaders modernos, o Sony Data Discman, um primeiro passo no desenvolvimento de um aparelho portátil de leitura.

Sony Data Discman

Entretanto surgem novos eReaders, como o Rocket ebook e o SoftBook, mas a inexistência de um mercado capaz de suportar estes dispositivos leva a que a sua produção seja descontinuada. Assim, só em 2006, com o lançamento da primeira versão do Sony Reader, é que a comercialização de eReaders e eBooks progride de forma significativa, tendência reforçada pela entrada da Amazon no mercado digital com o Kindle (2007), da Barnes & Noble com o Nook (2009), da Borders com o Kobo (2010) e, embora não com um dispositivo dedicado apenas à leitura, da Apple com o iPad (também em 2010).
Este crescimento é acompanhado de alguma apreensão por parte dos leitores, que se questionam acerca das potenciais vantagens do formato digital relativamente ao formato impresso, e se tais vantagens justificam o preço de um eReader. Essas duas barreiras (preço e hábito de leitura) começam rapidamente a cair por terra, dado que os eReaders se têm vindo a tornar mais acessíveis, aproximando-se da marca dos $100, e, por outro lado, reproduzem cada vez melhor as características de um livro impresso.
Os mais cépticos certamente se estarão a questionar acerca da necessidade de um dispositivo para emular a experiência de leitura que obtemos de um livro impresso, quando podemos recorrer a este último. A utilização dos eReaders justifica-se pelo facto de estes não serem uma simples imitação do livro, dado que procuram responder às desvantagens inerentes ao suporte físico e proporcionar novas funcionalidades, podendo-se enumerar, a título de exemplo:

·         Livros pertencentes ao domínio público – Estão disponíveis na Internet milhões de livros que podem ser descarregados de forma gratuita. A oferta tem vindo a melhorar não só em termos quantitativos mas também qualitativos, embora a disponibilidade de títulos em português seja ainda muito limitada.
·         Acessibilidade – O processo de compra e download de eBooks tem vindo a ser extremamente simplificado, proporcionando um acesso praticamente imediato aos eBooks comprados, não sendo necessário que o leitor se desloque a um ponto de venda graças à conexão com lojas online
·         Portabilidade – Aspecto especialmente relevante em termos profissionais ou académicos, dado que os eReaders nos permitem transportar uma grande quantidade de livros electrónicos.
·         Pesquisa – Possibilidade de pesquisar por palavras. A integração de dicionários nos eReaders permite também uma fácil consulta do significado de qualquer expressão.
·         Adaptabilidade – O leitor pode alterar várias definições de acordo com a sua preferência, entre as quais se destaca a possibilidade de modificar o tamanho e tipo de letra, ou a activação do modo text to speech que, tal como o nome indica, se trata de uma versão áudio (não só dos eBooks, mas dos próprios menus do eReader) que permite aos invisuais desfrutar do conteúdo que de outra forma lhes seria inacessível.
·         Preço – Em geral, o preço de um eBook é inferior ao da sua versão impressa, diferença que em alguns casos é bastante significativa.

Estas vantagens são uma amostra do que um eReader pode oferecer. Mas, no fundo, o aspecto que leva a que o formato digital tenha vindo a crescer, podendo, eventualmente, ultrapassar o formato tradicional, é o avanço constante da tecnologia, os novos melhoramentos que surgem a cada mês, um ritmo de evolução que não pode ser acompanhado por um suporte cujos aperfeiçoamentos essenciais já se deram nos últimos séculos. Certamente, nem todas as capacidades dos eReaders demonstram uma vantagem clara quando comparados com o livro impresso, pelo que a opção entre um ou outro formato, depende das necessidades específicas do leitor, que deve avaliar a utilidade de cada um dos formatos, lembrando-se sempre que a utilização de um, não exclui o uso do outro. Assim, estes recentes progressos devem ser encarados como uma nova ferramenta ao dispor dos leitores, e não como uma ameaça aos hábitos que estabeleceram até agora.

Kindle, Sony Reader e Nook Color

O futuro

As rápidas e vastas mudanças no mercado editorial tornam difícil vislumbrar com alguma certeza as consequências que terão a médio/longo prazo. É, no entanto, bastante claro que as editoras e as livrarias terão forçosamente de se adaptar a esta nova realidade, de modo a garantir a sua subsistência, algo que muito possivelmente resultará num crescimento do modelo print on demand, de modo a reduzir custos adaptando a oferta à procura. Por outro lado, a tendência para a eliminação de intermediários assim como o aumento de serviços de auto-publicação (como a Lulu ou, no caso de Portugal, a Bubok e o Sítio do Livro) resultará em mais oportunidades (mas também desafios) para novos autores que procuram disseminar o seu trabalho. O papel das novas tecnologias poderá revelar-se um importante factor para melhorar o nível de literacia nos países em desenvolvimento, contribuindo assim para o seu crescimento económico. Será também interessante verificar se dispositivos dedicados exclusivamente à leitura (como o Kindle) conseguirão competir com dispositivos multifuncionais (como o iPad), ou se se vão aproximar progressivamente destes últimos.
Finalizando, gostaria apenas de reforçar a ideia de que ambos os formatos podem coexistir, pelo que o advento dos eBooks vem alargar o leque de opções do leitor e, à semelhança da invenção da prensa móvel por Gutenberg, contribuir para a difusão da literatura, tornando-a mais acessível.

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Este texto foi originalmente publicado na rubrica Leitor Convidado do blogue Estante de Livros. Dentro em breve será aberta uma nova secção aqui no Falling into Infinity dedicada exclusivamente aos eBooks, secção essa que será desenvolvida ao longo das próximas semanas com alguns posts de referência como, por exemplo, uma lista de websites para download gratuito de eBooks. Assim que for inaugurada, podem aceder à nova secção através do respectivo atalho na barra de topo do blogue.

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