7 de janeiro de 2011

O Velho que Lia Romances de Amor - Luis Sepúlveda


O Velho que Lia Romances de Amor
2006 (Data original de publicação: 1989)

Título Original: Un Viejo que Leía Novelas de Amor
Autor: Luis Sepúlveda
Editora: Asa
Tradução: Pedro Tamen
Páginas: 112
ISBN: 972-41-1336-1

 “- Olha, com toda a confusão do morto já quase me esquecia. Trouxe-te dois livros.
Os olhos do velho iluminaram-se.
- De amor?
O dentista fez que sim.
António José Bolívar Proaño lia romances de amor, e em cada uma das suas viagens o dentista abastecia-o de leitura.
- São tristes? – perguntava o velho.
- De chorar rios de lágrimas – garantia o dentista.
- Com pessoas que se amam mesmo?
- Como nunca ninguém amou.”
Romances de amor. Através deles António Proaño, tendo passado a maior parte da sua vida na Amazónia, consegue sonhar com realidades que lhe estão vedadas e reencontrar o amor que a selva lhe roubou na juventude. Vivendo na isolada aldeia de El Idilio, após uma convivência com os indígenas que o ensinaram a viver em harmonia com a natureza, António preenche os seus dias com a leitura.
  “Lia atentamente, juntando as sílabas, murmurando-as a meia voz como se as saboreasse, e, quando tinha a palavra inteira dominada, repetia-a de uma só vez. Depois fazia o mesmo com a frase completa, e dessa maneira se apropriava dos sentimentos e ideias plasmados nas páginas.”
Numa escrita que apela fortemente aos sentidos, Sepúlveda cria uma imagem vívida da Amazónia, envolvendo-nos num mundo que tomamos como nosso, dando connosco a saborear cada palavra, cada frase; traço característico de um grande contador de histórias.
A descoberta de um cadáver vem quebrar a tranquilidade de que o velho homem desfrutava. O prepotente administrador da aldeia, cego às evidências, procura responsabilizar os indígenas pelo sucedido, hipótese que António rapidamente descarta ao analisar o corpo, acabando por chegar à conclusão de que a morte foi provocada por um jaguar. Esta dedução, fruto da sua larga experiência de vida na selva, eventualmente conduzi-lo-á a um confronto com o predador.
 “Chegavam mais colonos, agora chamados com promessas de desenvolvimento no gado e nas madeiras. Com eles chegava também o álcool desprovido de ritual e, por conseguinte, a degeneração dos mais fracos. E, sobretudo, aumentava a peste dos pesquisadores de oiro, indivíduos sem escrúpulos vindos de toda a parte sem outro norte que não fosse uma riqueza rápida.
Os xuar moviam-se para Oriente buscando a intimidade das florestas impenetráveis.”
O choque entre o homem e o animal remete para o confronto entre a civilização e natureza. Ao longo do livro presenciamos a falta de respeito que os colonos demonstram pela Amazónia e todos os seres vivos que nela habitam, observamos a sua total incapacidade de se adaptar ao meio selvagem, meros bárbaros que “destroçavam a selva construindo a obra-mestra do homem civilizado: o deserto.”
Nesta homenagem a Chico Mendes, ambientalista assassinado devido à sua luta pela defesa da Amazónia, Luis Sepúlveda mostra-nos a extrema insensibilidade e violência que o homem é capaz de demonstrar para com o mundo que suporta a sua existência. Um apelo à preservação das riquezas naturais do planeta, um grito contra a nossa tendência destrutiva e, acima de tudo, uma história encantadora.
  “Tu não és um caçador. Muitas vezes os habitantes de El Idilio falam de ti chamando-te o Caçador, e respondes-lhes que isso não é verdade, porque os caçadores matam para vencer um medo que os enlouquece e os apodrece por dentro.”

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