11 de janeiro de 2011

A Máquina do Tempo - H.G. Wells


A Máquina do Tempo
(Data original de publicação: 1895)

Título Original: The Time Machine
Autor: H.G. Wells
Editora: Publicações Europa- América
Tradução: Maria Georgina Segurado
Páginas: 98
ISBN: 972-1-03434-7

Disponível integralmente no Project Gutenberg.
  “- Manifestamente – prosseguiu o Viajante do Tempo –, qualquer corpo real se pode estender em quatro direcções: precisa de ter comprimento, largura, espessura e... duração. Mas, durante uma enfermidade natural da carne, que já de seguida vos explicarei, tendemos a descurar este facto. Existem, realmente, quatro dimensões a que chamaremos os três planos do Espaço, e uma quarta, o Tempo. Verifica-se, porém, uma tendência para fazer uma distinção imaginária entre as três primeiras dimensões e a última, porque, o que acontece é que a nossa consciência se desloca intermitentemente numa direcção, ao longo da última, desde o princípio até ao fim das nossas vidas.”
Figura proeminente na Ficção Científica, H.G. Wells é responsável por algumas das obras que mais influenciaram o género, sendo A Máquina do Tempo um exemplo perfeito disso mesmo. A inclusão do tempo, num sistema até então reservado às três dimensões espaciais, e a criação de uma máquina que permite ao ser humano viajar através deste, são temas que vieram a ser recorrentemente utilizados por escritores de ficção. De facto, a proliferação destes temas leva a que A Máquina do Tempo, em comparação com obras posteriores, denote uma abordagem rudimentar, afectada também por algumas incongruências que, neste, como em outros clássicos do género, se tornam evidentes devido ao avanço científico que se verificou desde a sua publicação.
  “Sofri só de pensar como fora fugaz o sonho do intelecto humano. Suicidara-se. Estabelecera firmemente como mote o conforto e o bem-estar, uma sociedade equilibrada para, no fim, ter aquele desfecho. Em tempos, a vida e a propriedade devem ter alcançado a segurança quase absoluta. Os ricos viram garantida a sua riqueza e o seu conforto, o trabalhador garantida a sua vida e o seu trabalho. Sem dúvida, nesse mundo perfeito, não existira o problema do desemprego, nenhuma questão social ficara por resolver. E uma grande acalmia se seguira.”
A possibilidade de viajar no tempo permitiu a Wells desenvolver a sua perspectiva da evolução humana, tendo em conta as (à data) recentes teorias de Darwin assim como algumas considerações de ordem sociologia, tomando como base a sociedade inglesa da segunda metade do séc. XIX.
O Viajante do Tempo, transportado pela sua máquina até ao ano 802701, depara-se com a degeneração do ser humano em duas raças distintas: os frágeis Eloi, com aparência de criança e uma capacidade intelectual bastante limitada, vivendo despreocupadamente à superfície; os Morlocks, feias criaturas que habitam túneis subterrâneos e que mantêm os Eloi como se de gado se tratassem, alimentando-se destes durante a noite, dada a sua sensibilidade à luz. Uma extrapolação extrema que se fundamenta nas diferenças entre a classe capitalista e o proletariado, através da qual o autor chama à atenção para as consequências das injustiças sociais quando não corrigidas, muito embora o tenha feito através de um retrato pouco verosímil, especialmente se tivermos em conta o espaço de tempo em questão.
  “If we fasten, then, one label on all these books, on which is one word materialists, we mean by it that they write of unimportant things: that they spend immense skill and immense industry making the trivial and the transitory appear the true and the enduring.”
                Virginia Woolf, Modern Fiction
Apesar das falhas apontadas, algumas evidenciadas pelo passar dos anos, Wells consegue cativar o leitor pelas suas ricas descrições e pela exposição de alguns temas que se mantêm actuais mesmo nos dias de hoje. Um desses temas é o que eu chamaria de falhanço da utopia: a prossecução de uma realidade utópica impulsiona a humanidade a evoluir, resultando numa melhoria do nível de vida, processo que, no entanto, só funciona devido à impossibilidade de se atingir essa realidade ideal, isto é, a utopia como um meio e não como um fim. Atingida uma realidade perfeita, que seria de nós sem a pressão da mudança? Ou, nas palavras de Pessoa: “Se tivesse as paisagens impossíveis, que me restaria de impossível?”
  “Existe uma lei da Natureza que ignoramos, que a versatilidade intelectual é a compensação pela mudança, o perigo, os problemas. Um animal em perfeita harmonia com o seu meio envolvente é um mecanismo perfeito. A Natureza nunca apela à inteligência senão quando o hábito e o instinto se tornam irrelevantes. Não existe inteligência onde não existir mudança nem necessidade de mudança. Só os animais dotados de inteligência se vêem confrontados com uma enorme variedade de necessidades e perigos.”

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