4 de janeiro de 2011

Crónica do Rei Pasmado - Gonzallo Torrente Ballester

Crónica do Rei Pasmado
2003 (Data Original de publicação: 1989)

Título Original: Crónica del Rey Pasmado
Autor: Gonzalo Torrente Ballester
Editora: Caminho
Tradução: António Gonçalves
Páginas: 181
ISBN: 972-21-0708-9



A Crónica do Rei Pasmado transporta-nos para a Espanha do séc. XVII, época dominada fortemente pela Inquisição e que serve de palco para esta brilhante sátira em que Ballester, de forma bem humorada, expõe a hipocrisia que germina nas classes detentoras de poder.
  “Foram encontrar o Rei à porta dos aposentos secretos, a que muita gente chamava também proibidos. A grande chave de ferro continuava na fechadura, e o Rei, encostado à ombreira, parecia em êxtase, o que quer dizer que tinha cara de tolo. Não respondeu aos primeiros chamamentos do seu moço de câmara, e só quando foi sacudido com certa força é que no seu rosto aconteceu algo de semelhante ao despertar de um sonho.”
Após ter passado a noite com um bela cortesã, ocasião em que pela primeira vez Filipe IV vê uma mulher nua, o jovem rei, francamente encantado pela experiência, decide que quer ver a sua esposa despida, disposto, portanto, a quebrar as regras protocolares que até então o condenaram a uma quase total passividade. Tal desejo desencadeia um intenso debate acerca da sua legitimidade e potenciais consequências.
  “Se o Rei consegue ver a Rainha nua, todos teremos pretexto para despir as nossas fêmeas, sejam esposas ou queridas, e despir-se-ão todas as destes reinos, e as mulheres das Índias, e acabarão nuas as mulheres do mundo inteiro, se pega a moda, o que vai sendo hora de que aconteça, porque de camisas de noite compridas e de disputas para que as levantem um pouco mais, estamos nós tão cansados como elas. O único perigo, e este meramente imaginário, reside em que se disponham a sair nuas para a rua, ou com trajos tão transparentes que deixem ver tudo, pois são bem conhecidos os desejos que têm as mulheres de publicarem os seus segredos.”
As opiniões dividem-se entre aqueles que se opõem à vontade do rei, acreditando que os pecados do seu monarca se repercutem a nível militar e económico, e os que consideram natural a ambição de Filipe IV e assunto que diz respeito ao casal, independentemente da sua posição social.
Os principais opositores pretendem apenas mascarar os seus verdadeiros interesses, como é o caso do Valido, para o qual é bastante conveniente a possibilidade de responsabilizar o rei pelos fracassos da nação, e o do padre Villaescusa, fanático religioso que procura subir na hierarquia a todo o custo, figuras que procuram manipular a opinião pública através do seu poder e de pressupostos religiosos.
Apesar dos esforços para reprimir o desejo do rei, este conta também com diversos apoiantes, personagens cuja educação e experiência lhes proporcionou um pensamento mais liberal, como o Inquisidor-mor que não deixa o puritanismo contaminar as suas decisões, o conde Peña Andrada que auxilia o rei nos seus encontros clandestinos, e principalmente o Padre Almeida, jesuíta português que com a sua inteligente argumentação consegue distorcer os princípios teológicos utilizados para reprimir e controlar a vida de Filipe IV, semeando a dúvida entre os mais fervorosos membros da igreja.
Através destas fascinantes personagens e dos seus engenhosos (e muitas vezes hilariantes) diálogos, Ballester mostra-nos, com uma simplicidade que só está ao alcance de grandes escritores, até que ponto a ambição e falta de senso comum podem levar o ser humano.
 “- E como foi o senhor padre meter-se neste assunto? Quero dizer nos seus termos reais, não nos meramente académicos da tarde de ontem.
- Cheguei a pensar, Excelência, que Deus me trouxe aqui apenas para isso.
- E o senhor acredita que Deus se preocupa se o Rei e a Rainha fornicam nus ou em camisa?
O jesuíta fitou-o, perplexo; a seguir perguntou-lhe, ousadamente:
- Excelência, o senhor acredita em Deus?
O Inquisidor-mor sorriu ternamente, mas o seu sorriso transformou-se num esgar triste.
- Há muitos livros escritos sobre Deus, mas cabem todos numa palavra: ou sim, ou não.”

1 comentário:

  1. Gostei do artigo.

    http://numadeletra.com/cronica-do-rei-pasmado-de-gonzalo-65578

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