29 de agosto de 2010

Leituras Digitais (22-28 de Agosto)

Rubrica semanal de notícias e artigos relacionados com a edição de livros digitais.


The Changing Face of Publishing – Joe Konrath alertando para as alterações no mercado editorial, e para a falta de capacidade de resposta que as partes envolvidas  nesse mercado parecem demonstrar. Chega, também, a revelar o número de ebooks que vende diariamente para o Kindle em comparação com o iPad.

Before the Kindle, Another Reading Revolution – Entrevista a Andrew Pettegree, autor do recentemente editado The Book in the Renaissance, que nos traz uma perspectiva interessante sobre a transição do livro manuscrito para o livro impresso.

The Kindle Store still has the best prices in the post agency market – Análise de preços para títulos disponíveis simultaneamente nas cinco maiores lojas de livros digitais (Kindle, B&N, Kobo, Borders, Sony).

Postmortem Post – A autora de uma série inserida no género fantástico (disponibilizada gratuitamente online),  relata a sua experiência comparando o lucro obtido através das doações de leitores neste seu recente projecto, com aquele que obteve com anteriores volumes publicados através de uma editora.

The ABCs of E-Reading – Apresentando o resultado de um recente estudo acerca do impacto que os eReaders têm na quantidade de livros lidos, para além de outras estatísticas relevantes para o estudo da evolução do mercado digital.

10 Reading Revolutions Before E-Books – Acontecimentos que afectaram substancialmente o modo de leitura, desde a invenção do alfabeto grego até às mais recentes inovações tecnológicas.

How to build an ebook store – Embora de especial interesse para editores que estejam a ponderar uma entrada no mercado de livros digitais, não deixa de nos permitir compreender a complexidade por detrás do processo.

DRM: Not All It’s Cracked Up To Be – Um olhar sobre a pirataria de livros digitais, tendo em vista avaliar a eficiência da utilização de DRM como forma de a combater.

The royalty math: print, wholesale model, agency model – Confrontando as margens que um escritor pode obter através de diversos formatos (eBook, trade paperback, mass paperback), e diferentes modelos de edição (wholesale e agency model, explicados neste artigo no mesmo blog).

eTextbooks Are Only Part of the eLearning – Sobre a utilização de textos em formato digital no âmbito da educação.

Digital Devices Deprive Brain of Needed Downtime – Acerca das possíveis consequências, que a utilização praticamente contínua das novas tecnologias, tem na nossa capacidade de concentração e aprendizagem, assim como na nossa memória.

Na semana em que a Amazon começa a enviar o novo Kindle 3, encontram-se já disponível uma quantidade considerável de reviews, em geral bastante favoráveis:


22 de agosto de 2010

Leituras Digitais (15-21 de Agosto)

Rubrica semanal de notícias e artigos relacionados com a edição de livros digitais.

Will the book enter the digital age? Entrevista com Pascal Fouché, autor de Dictionnaire encyclopédique du livre, discutindo a preparação das editoras para a crescente desmaterialização do livro e a sua capacidade para acompanhar o ritmo das inovações.

The printed book’s path to oblivion – Considerações acerca do futuro do livro impresso, tendo em conta os melhoramentos que continuamente se verificam ao nível da edição digital.

The meaning of social reading and where it’s headed – Explorando o impacto da Internet e das redes sociais, a sua repercussão ao nível da discussão sobre livros, assim como em termos de marketing, finalizando com uma perspectiva futura tendo em conta a tendência para a interactividade.

An independent publisher speaks out about eBooks – Sobre as dificuldades que uma editora tem que enfrentar ao entrar no processo de digitalização do seu catálogo, desde os diferentes formatos disponíveis ao acréscimo de impostos.

On words & ebook: Give me a brake! – Apesar de não ter sido publicado nesta semana, trata-se de um artigo extremamente interessante, apresentando reflexões acerca da importância que uma revisão profissional tem na publicação de um livro.

9 must-have clauses for digital rights contracts – Procurando alertar para o oportunismo que inevitavelmente surge num mercado com grande potencial de crescimento. Linhas gerais que qualquer autor deve ter em conta ao vender os direitos de edição digital da sua obra.

How the internet is altering your mind – Embora não esteja directamente relacionado com livros digitais, este artigo de John Harris para o Guardian, foca-se nas potenciais consequências da utilização regular da Internet.


Finalmente, deixo-vos com um vídeo em que Len Edgerly (The Kindle Chronicles Podcast) analisa comparativamente quatro eReaders (Sony Reader, Kobo, Nook e Kindle).


21 de agosto de 2010

Curtas: The Mysterious Explorations of Jasper Morello (2005)


The First Voyage - Jasper Morello and the Lost Airship

 
"Set in a world of iron airships, this silhouette animation tells the story of Jasper Morello, a disgraced aerial navigator who flees his plague-ridden home hoping to redeem himself. His expedition leads him to an island which is home to a monster that may hold the cure for the Plague. The journey back is filled with dangers but, Jasper soon discovers that the greatest horror of all lies within man himself."
The Mysterious Explorations of Jasper Morello é uma brilhante série, constituída por quatro curtas-metragens, encontrando-se o primeiro episódio disponível gratuitamente no Youtube. Através do seu original estilo, esta animação de ficção científica descreve as aventuras de Jasper, um navegador aéreo, misturando  steampunk com influências de géneros como o horror e o fantástico (nomeadamente da obra de Júlio Verne e H.P. Lovecraft).


A simplicidade das personagens retratadas através de silhuetas, em contraste com o complexo ambiente industrial em 3D, permite recriar o misterioso universo de Gothia, que decerto irá agradar aos apreciadores dos géneros acima referidos.
Para mais informações podem consultar o blog oficial, ou a página no Internet Movie Database.

18 de agosto de 2010

Os Nomes, Don DeLillo


Os Nomes
2003 (Data original de publicação: 1982)


Título Original: The Names
Autor: Don DeLillo
Colecção: Mil Folhas – Jornal Público
Tradução: Maria Manuela Ribeiro
Páginas: 350
ISBN: 84-9789-216-X

Sinopse

“Situada na Grécia, onde o autor residiu temporariamente, no Médio Oriente e na Índia, Os Nomes é uma obra que nos apresenta um analista de risco norte-americano que se irá progressivamente tornando obcecado com o aparecimento de notícias de crimes ritualistas. Assim, entra em contacto com um estranho culto, responsável por uma série de assassinatos ocorridos na zona. O executivo, James Axton, é um profissional brilhante, pai de um filho e separado da mulher, mas não sabe realmente para quem trabalha e vive desligado do mundo, da sua família e amigos, e do seu país. A sua indolência terminará com graves consequências. Os diálogos engenhosos e profundos, são já característicos em DeLillo, ainda que desta vez a sua profusão seja maior. Consagrado como um dos mais lúcidos e incisivos autores contemporâneos e como um astuto comentarista social, este romance constituiu a antecâmara do êxito internacional que chegaria com os excelentes Ruído Branco e Libra. “

Sétimo romance de DeLillo, precedendo a publicação de Ruído Branco, que impulsionou a sua ascensão no panorama literário internacional, Os Nomes, apesar das críticas favoráveis, continua a ser um título imerecidamente menosprezado dada a sua qualidade, mas também por se desprender da crítica à sociedade americana pela qual o autor é reconhecido, para nos apresentar uma meditação política e espiritual do início da década de 80.
"When I work," he goes on, "I'm just translating the world around me in what seems to be straightforward terms. For my readers, this is sometimes a vision that's not familiar. But I'm not trying to manipulate reality. This is just what I see and hear."  
                                                 in Guardian.uk
Superficialidade é algo que não encontrarão neste romance. Embora apresente um estilo analítico, algo que se deve ao carácter do narrador, o executivo James Axton (simultaneamente o principal protagonista), as descrições de DeLillo são detalhadas, procurando sempre atingir um significado mais profundo, revelar uma ideia que não é aparente. Esse nível de detalhe é transportado para os inteligentes diálogos, cuidadosamente construídos e muitas das vezes entrecortados pelas divagações de James.
“Começava a considerar-me um eterno turista. Havia nisto qualquer coisa de agradável. Ser turista é fugir da responsabilidade. Os erros e os defeitos não se colam a nós como em casa. Somos capazes de vaguear por continentes e línguas, suspendendo a actividade do pensamento lógico. O turismo é a marcha da imbecilidade. Contam que sejamos imbecis. Todo o mecanismo do país hospedeiro está adaptado aos viajantes que se comportam de um modo imbecil. Andamos às voltas, aturdidos, olhando de esguelha para mapas desdobrados. Não sabemos falar com as pessoas, ir a lado nenhum, quanto vale o dinheiro, que horas são, o que comer ou como o comer. Ser-se imbecil é o padrão, o nível e a norma. Podemos continuar a viver nestas condições durante semanas e meses, sem censuras nem consequências terríveis. Tal como a outros milhares, são-nos concedidas imunidades e amplas liberdades. Somos um exército de loucos, usando roupas de poliéster de cores vivas, montando camelos, tirando fotografias uns aos outros, fatigados, disentéricos, sedentos. Não temos mais nada em que pensar senão no próximo acontecimento informe.”
Os Nomes foca-se, sobretudo, na importância da linguagem para a humanidade e no distanciamento da realidade, na ausência de paixão que afecta James. Separado da sua família, e sem um rumo definido para a sua vida, James acaba por se interessar pelo mistério que envolve os assassinatos ritualistas, sendo esse o principal motor da narrativa, que quebra a rotina do analista americano impelindo-o a compreender esse seu interesse e, através do conhecimento das razões por detrás dos seus intentos, perceber-se melhor a ele próprio.
“Sabemos que havemos de morrer. Isto é, em certo sentido, a nossa virtude redentora. Nenhum animal sabe isso excepto nós. É uma das coisas que nos distingue. É a nossa tristeza particular, este conhecimento, e, por conseguinte, uma riqueza, uma santificação.” 
Não deixa de ser impressionante verificar como, através da complexidade inerente às questões existenciais com que personagens se confrontam, entre as profundas reflexões políticas, sociais, religiosas e linguísticas, Don DeLillo consegue dar liberdade ao leitor no que a conclusões diz respeito, como que entreabrindo a porta que permite alcançar as respostas, enquanto diminui as distorções que afectam o nosso raciocínio, submergindo as vozes enganadoras que nos tentam desencaminhar constantemente.
“- Neste século, o escritor tem mantido uma conversa com a loucura. Podemos quase dizer que o escritor do século vinte aspira à loucura. Alguns conseguiram-no, evidentemente, e ocupam lugares especiais na sua consideração. Para um escritor, a loucura é uma destilação decisiva do eu, uma edição decisiva. É o submergir das vozes enganadoras.” 

16 de agosto de 2010

Arquivo de entrevistas da BBC



   No seu website, a BBC disponibiliza em versão aúdio diversas entrevistas a escritores, tais como Virginia Woolf, J.R.R. Tolkien e Ian McEwan. Um precioso arquivo, que merece ser consultado e divulgado.

14 de agosto de 2010

Ler em Lisboa: Parque Florestal do Monsanto


"Espaço com cerca de 900ha de vastas áreas de mata diversificada, o Parque Florestal de Monsanto oferece grandes potencialidades para o recreio passivo. A mata fechada nem sempre é um local acolhedor para o homem, no entanto, o seu contraste com a clareira e a abertura pontual de amplas vistas sobre a cidade e o rio, fazem do Parque Florestal de Monsanto um local muito atractivo do ponto de vista paisagístico."

As alterações efectuadas em 1999 e 2000 vieram revitalizar o Parque Florestal do Monsanto, proporcionando novas instalações, entre as quais um circuito de manutenção, um parque aventura e um anfiteatro (representada na foto acima), tendo-se também procedido ao encerramento ao trânsito da Alameda Keil do Amaral. Estes factores tornam o parque florestal como um local de eleição para a prática de actividades ao ar livre, seja a nível recreativo ou de mero lazer.


No que à leitura diz respeito, existe uma infinidade de locais apropriados para quem visitar o parque com essa intenção, destacando-se os vários miradouros (um dos quais representado nas fotos abaixo), e o já referido anfiteatro.

Para mais informações podem consultar o site oficial do Parque Florestal do Monsanto.


Ver Lisboa cidade num mapa maior

12 de agosto de 2010

Open Yale Courses

Open Yale Courses provides free and open access to a selection of introductory courses taught by distinguished teachers and scholars at Yale University. The aim of the project is to expand access to educational materials for all who wish to learn.
O Open Yale Courses permite o acesso a diversas cadeiras introdutórias leccionadas na universidade de Yale. A título de exemplo, podem encontrar-se cadeiras de Psicologia, História, Economia e (de especial interesse para os leitores deste blog) Literatura. No website estão disponibilizadas gravações em vídeo e aúdio das aulas, sendo também possível consultar as respectivas transcrições.
Relativamente a material relacionado com a área da Literatura, uma das cadeiras integradas neste projecto é a de Teoria da Literatura, cuja planificação podem consultar abaixo:


Teoria da Literatura,  por Paul H. Fry
1. Introduction
2. Introduction (cont.)
3. Ways In and Out of the Hermeneutic Circle
4. Configurative Reading
5. The Idea of the Autonomous Artwork
6. The New Criticism and Other Western Formalisms
7. Russian Formalism
8. Semiotics and Structuralism
9. Linguistics and Literature
10. Deconstruction I
11. Deconstruction II
12. Freud and Fiction
13. Jacques Lacan in Theory
14. Influence
15. The Postmodern Psyche
16. The Social Permeability of Reader and Text
17. The Frankfurt School of Critical Theory
18. The Political Unconscious
19. The New Historicism
20. The Classical Feminist Tradition
21. African-American Criticism
22. Post-Colonial Criticism
23. Queer Theory and Gender Performativity
24. The Institutional Construction of Literary Study
25. The End of Theory?; Neo-Pragmatism
26. Reflections; Who Doesn't Hate Theory Now?

10 de agosto de 2010

o apocalipse dos trabalhadores, Valter Hugo Mãe


o apocalipse dos trabalhadores
2008

Autor: Valter Hugo Mãe
Editora: Quidnovi
Páginas: 182
ISBN: 978-989-628-065-9

Sinopse
“A maria da graça – mulher-a-dias em Bragança esquecida do mundo – tem a ambição, não tão secreta como isso, de morrer de amor; e por essa razão sonha recorrentemente com a entrada no paraíso, aonde vai à procura do senhor ferreira, seu antigo patrão, que, apesar de sovina e abusador, lhe falou de Goya, Rilke, Bergman ou Mozart como homens que impressionaram o próprio Deus. Mas às portas do céu acotovelam-se mercadores de souvenirs em brigas constantes e são pedro não faz mais do que a enxotar dali a cada visita.
Tal como a maria da graça, todas as personagens deste livro buscam o seu paraíso; e, aflitas com a esperança, ou esperança nenhuma, de um dia serem felizes, acham que a felicidade vale qualquer risco, nem que seja para as lançar alegremente no abismo.
o apocalipse dos trabalhadores é um retrato do nosso tempo, feito da precariedade e dessa esperança difícil. Um retrato desenhado através de duas mulheres-a-dias, um reformado e um jovem ucraniano que reflectem sobre os caminhos sinuosos do engenho e da vontade humana num Portugal com cada vez mais imigrantes e sobre a forma como isso parece perturbar a sociedade.”
“Interessa-me que seja a força da frase, a capacidade expressiva do texto a seduzir o leitor para as palavras mais importantes, como se as palavras, sozinhas, se constituíssem como heroínas de um jogo exclusivamente delas, vencendo umas sobre as outras pela sua natureza significativa - inclusive no encontro das convicções de cada leitor - ou simplesmente harmonizando-se e defendendo-se em conjunto, como apaixonadas umas pelas outras.”

                VHM, em entrevista para a Os Meus Livros
O aspecto mais característico na escrita de Valter é, definitivamente, a ausência de maiúsculas aliada à redução do uso de pontuação ao mínimo, procurando, segundo o autor, criar uma aceleração na leitura. A repercussão ao nível da velocidade de leitura é discutível, mas o choque inicial ultrapassa-se após um breve período de habituação que, consequentemente, nos permite desfrutar da sua fluidez.
“para um homem, achava, as coisas estavam feitas de modo diferente. os empregos são melhores, as liberdades melhores, e até a consciência distinguia uns de outras. para as mulheres, uma devassidão era já um perigo de grande luxo. se alguém o descobrisse, não arranjaria a maria da graça mais chão para esfregar.”
Depois de o remorso de baltazar serapião, pelo qual recebeu o Prémio Literário José Saramago da Fundação Círculo de Leitores, Valter apresenta-nos uma história que se foca em temas tão actuais como a precariedade do trabalho, o preconceito para com os imigrantes em Portugal e as desigualdades entre homens e mulheres, que apesar de se terem vindo a atenuar, continuam ainda a assolar a nossa sociedade. Dentro desta realidade, as suas personagens debatem-se entre a subsistência e a busca da felicidade, que no contexto do romance, é alcançada através das relações afectuosas que estas estabelecem.
“olha, sabes que hoje em dia se armazena informação que nunca, em toda a eternidade, vai voltar a ser consultada. quê. ando com isso na cabeça. tu andas é com o maldito na cabeça, não pensas noutra coisa. é que com isto da informática tudo se regista, do mais importante ao mais insignificante. desde as coisas do estado até à rotina dos adolescentes. e muito do que se regista não será mais consultado, porque não haverá ninguém com interesse ou sequer com tempo para o fazer. que angústia. é como haver muita gente a querer deixar uma marca para o futuro e o futuro estar sobrelotado.”
Entre o humor inteligente e a criatividade presentes ao longo do texto, torna-se interessante verificar como as ideias mais profundas nascem das trivialidades do quotidiano, que povoam os diálogos entre Maria da Graça e Quitéria. É na simplicidade e despudor dessas conversas que nos vamos familiarizando com os seus amores controversos, assim como se torna visível o quanto a sua vida é condicionada pelas dificuldades financeiras, uma vida em que o seu bem-estar não aumenta proporcionalmente à sua carga laboral.
“era, na realidade, como um leão de fantasia que, subitamente, podia ganhar a vida e, obviamente, trazer no estômago toda a grande fome ucraniana. o medo, permanentemente, era quase palpável. um amor cheio de medo e palpável. a cada segundo passível de acabar, o amor, o medo seria para sempre.”
Paralelamente à história das duas mulheres-a-dias, acompanha-mos a vida de Andriy, um jovem imigrante ucraniano, tal como o enfraquecimento físico e psicológico que afecta o seu povo desde a Grande Fome da Ucrânia, numa evidente denúncia à xenofobia em Portugal. Trata-se, portanto, de uma manifestação do espírito igualitário de Valter Hugo Mãe, que desta forma explora uma temática bastante menosprezada no panorama literário português.

Em suma, o apocalipse dos trabalhadores, como retrato da situação de algumas das classes sociais mais desfavorecidas, desperta-nos do egoísmo inerente ao ser humano, colocando nas nossas mãos a responsabilidade por criar uma sociedade onde impere o respeito mútuo e não a indiferença.
“o mealheiro ficou sobre o frigorífico da casa dos pais e, mesmo na ausência do andriy, a ekaterina punha-lhe umas moedas pequenas, muito esporadicamente, porque lhe fazia crer que assim tomava conta do filho. quando ela não o fazia, fazia-o sasha, também um pouco às escondidas, a pensar na moeda que ali caía como algo que caísse no colo de andriy, um abraço, um beijo, uma saudade forte que não os poderia abandonar. olhavam um para o outro, quando se deflagravam naquele gesto tolo, e sentavam-se juntos nos bancos mais ao pé da janela. podia chorar brevemente, umas lágrimas de tristeza que quase seriam impossíveis de conter, e depois sonhavam acordados com portugal.”

8 de agosto de 2010

Curtas IV


The Tell-Tale Heart (1953)




Um clássico da animação, produzido pela UPA (o extinto estúdio de animação United Productions of América), adaptando o famoso conto de Edgar Allan Poe com o mesmo título. Nomeado para o Óscar de melhor curta-metragem animada, The Tell Tale-Heart veio contrariar a preponderância do estilo estabelecido pelos estúdios Disney. Tal inovação, aliada à qualidade que apresenta, mereceu destaque pela imprensa, considerada pelos críticos como uma revolução artística. Em 2001, a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, seleccionou esta curta-metragem para preservação no Registo Nacional de Cinema dada a sua relevância cultural.

6 de agosto de 2010

Os Melhores Contos de H.P. Lovecraft


Os Melhores Contos de Howard Phillips Lovecraft
2005

Autor: H.P. Lovecraft, introduções de Fernando Ribeiro
Editora: Saída de Emergência
Organização: José Manuel Lopes
Páginas: 320
ISBN: 972-8839-00-0


Tendo iniciado a sua colecção Bang! com Lovecraft (O Intruso), a Saída de Emergência confirma, com esta colectânea, a sua aposta na divulgação de um vulto incontornável do horror, que deve, apesar do título, ser encarada mais como o primeiro livro de uma antologia (que actualmente inclui já 5 volumes), do que uma selecção dos melhores contos do autor. É de salientar o trabalho a nível gráfico, extremamente apropriado, reminiscente das pulp magazines que foram a principal plataforma de publicação e divulgação do trabalho de Lovecraft em vida.
Este volume inclui:
  • O Despertar de Cthulhu – The Call of Cthulhu (1928)
  • A Criatura na Soleira da Porta – The Thing on the Doorstep (1937)
  • O Que Sussurra nas Trevas – The Whisperer in Darkness (1931)
  • A Aventesma do Escuro – The Haunter of the Dark (1936)
  • A Sombra Sobre Innsmouth – The Shadow Over Innsmouth (1936)
  • Com a Lua – What the Moon Brings (1923)
  • A Sombra Vinda do Tempo – The Shadow out of Time (1936)
  • A Celebração – The Festival (1925)

Cada conto é acompanhado por uma introdução de Fernando Ribeiro, que apesar do seu interessante estilo, e de subtilmente submeter para alguns aspectos importantes na obra de Lovecraft, acaba por contrastar em demasia com a escrita deste. A sua relação com os contos que antecedem é também, muitas das vezes, bastante ténue, facilmente confundindo o leitor, e desviando desnecessariamente a sua atenção.

 “The oldest and strongest emotion of mankind is fear, and the oldest and strongest kind of fear is fear of the unknown.”

                                                  H.P. Lovecraft, Supernatural Horror in Literature

Citação desgastada pelas inúmeras referências que lhe foram feitas, mas extremamente pertinente no contexto desta crítica, dado que a ficção de Lovecraft assenta, maioritariamente, nesse medo do desconhecido, enquanto que permite antever um terror incomparavelmente superior caso o nosso véu de ignorância venha, algum dia, a ser levantado.

“Penso que a coisa que mais alívio nos traz, neste mundo, seja a incapacidade da mente humana em correlacionar todos os seus conhecimentos. Vivemos numa plácida ilha de ignorância, no meio de mares negros de infinito, e não nos foram destinadas longínquas viagens. As ciências, cada uma tentando defender a sua posição, prejudicaram-nos pouco até agora; mas um dia, a união de conhecimentos dissociados irá revelar-nos perspectivas tão terríveis da realidade, e da nossa assustadora posição nela, que enlouqueceremos devido a essa revelação, ou fugiremos dessa luz fatal para a paz e segurança de uma nova idade das trevas.”

No entanto, ao contrário do que seria de esperar, as suas histórias não são assustadoras, especialmente considerando que o progresso da ciência veio desmistificar muitos dos mistérios que alimentavam a imaginação humana. A sensação que nunca nos abandona ao ler Lovecraft é sim, a de estranheza, a percepção de um universo inóspito em que se oculta algo inquietante que (apesar do referido progresso científico) ultrapassa o nosso conhecimento. Um universo que a humanidade é frágil, rodeada de malévolos seres que precedem a nossa existência, algo que nos transmite uma diferente perspectiva da nossa importância na infinidade do tempo e do espaço.

 “Pude apenas distinguir alguns dos hieróglifos que se encontravam inscritos na sua superfície, mas aqueles que consegui ver foram suficientes para me deixar em estado de choque. Claro que podiam ser falsos, pois eu não teria, com certeza, sido o único que lera o atroz e monstruoso Necronomicon do árabe louco Abdul Alhazred. Mesmo assim provocou-me arrepios reconhecer certos ideogramas que, sabia-o através dos meus estudos, se encontravam relacionados com os mais lúgubres e blasfemos mistérios de seres, que tinham tido uma espécie de louca semi-existência antes do planeta Terra e dos outros planetas do sistema solar terem sido criados.”

Apesar de os oito contos presentes no livro representarem apenas uma amostra da obra de Lovecraft, denota-se um escolha ponderada, dado que neles podemos identificar os seus temas centrais, assim como as suas criações mais conhecidas, tais como a cidade de Arkham, a universidade de Miskatonic e o proibido Necronomicon, livro ficcional escrito pelo louco Abdul Alhazred. Por outro lado, são também suficientes para chegar a uma conclusão simples: a de que Lovecraft era um escritor mediano. A sua mais evidente falha é, porventura, o excesso descritivo, que acaba por tornar penosa uma leitura contínua. Destaca-se também a repetição quase obsessiva de certas palavras, assim com uma previsibilidade associada ao uso recorrente do discurso na primeira pessoa, em que o protagonista relata por escrito os acontecimentos (numa visível influência de Dracula), que culminam na aproximação de um dos inúmeros horrores criados pelo autor.

Tendo tudo isto conta, o mais natural é nos questionarmos sobre o que levou H.P. Lovecraft a ser considerado uma figura importante dentro do género, qual a razão para o seu (embora póstumo) sucesso? A resposta reside essencialmente nas suas ideias, na originalidade que a sua imaginação lhe permitiu atingir, legando-nos uma mitologia que ainda hoje inspira não só a ficção moderna, mas também diferentes artes como o cinema e a música. Em Lovecraft o apelo do desconhecido é arrebatador, testando a nossa sanidade a cada momento, em que a única coisa que podemos fazer, é viver na esperança de que as estrelas nunca se venham a alinhar, porque...

“”Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn..

Jazendo na sua casa em R’lyeh, Cthulhu aguarda e sonha.”

3 de agosto de 2010

Artes Visuais: Abigail Larson



Apesar do ênfase dado à literatura neste blog, com o trabalho desta surpreendente ilustradora espero vir a iniciar uma série de artigos que se foca nas artes visuais, campo que muitas vezes se inspira nos livros e permite o enriquecimento da nossa experiência de leitura.
Como referido, Abigail é uma ilustradora, americana de origem, apresentando um considerável talento. A arte de desenhar, que era inicialmente o seu refúgio, tornou-se numa paixão que cresceu ao longo dos anos, impulsionando-a para uma carreira artística.


Edgar Allan Poe é uma das suas principais fontes de inspiração. Segundo Abigail os seus desenhos começaram por ser uma resposta às imagens que as histórias lhe evocavam, a sua forma de expressão. Escritores como Lewis Carroll, Neil Gaiman, Mary Shelley e H.P. Lovecraft são também referências facilmente identificáveis nos seus desenhos. Em termos de estilo, Abigail aponta Arthur Rackham como o artista mais influente, que lhe permitiu manter um pouco da tradição presente na obra desse autor e complementá-la com características modernas, pelo que as suas ilustrações se destacam pelos contrastes nelas representados, em que a beleza se mistura com o macabro.




O estilo original combinado com ambiente gótico que Abigail retrata, torna os seus trabalhos bastante apropriados a títulos que se inserem no género fantástico e no horror, de certa forma amplificando sensações que são comumente transmitidas nesse tipo de textos.
A sua arte foi publicada em diversas revistas, livros, e apresentada em várias galerias (incluindo The Poe Museum e The Museum of American Illustration - Society of Illustrators), estando disponível na Lulu.com um pequeno livro em que estão incluídos alguns dos desenhos relacionados com os seus mais recentes projectos.


Para conhecer melhor Abigail Larson e a sua arte podem consultar as seguintes ligações:

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