31 de julho de 2010

Ler em Lisboa: Jardim Botânico Tropical



“O JBT é um Centro do IICT que alia a preservação de colecções de plantas vivas, de uma xiloteca, de um herbário e de colecções zoológicas a projectos de investigação realizados com o Departamento de Ciências Naturais.
O Jardim Botânico é especializado na flora tropical e subtropical, incluindo mais de 500 espécies originárias de diversos continentes.
Ao património natural acresce o património edificado que abrange diferentes estéticas (desde o séc. XVI ao séc. XX), valor arquitectónico e histórico diferenciado, sendo de destacar o Palácio dos Condes da Calheta, a Casa da Direcção e a Casa do Veado, para além da Estufa Grande, em arquitectura de ferro do início do século XX. A par deste património salienta-se, ainda, a estatuária presente no Jardim.”
                                                                                 Fonte


Situado em Belém, a escassos metros do Mosteiro dos Jerónimos e da Confeitaria de Belém e os seus pastéis, o Jardim Botânico Tropical carece da atenção devida, fruto, talvez, da sua localização, zona em que se encontram diversos pontos de atracção turística, alguns dos quais entre os mais carismáticos de toda a cidade.

tendo em conta a sua dimensão, e a diversidade que nos proporciona, torna-se relativamente fácil encontrar um local agradável para ler, escrever, ou simplesmente apreciar o seu património natural ou visitar uma das várias exposições realizadas no JBT ao longo do ano.

Para mais informações, incluindo preços, horários e transportes para o jardim, podem consultar a seguinte página.

Citações


“Sentimos que, por fim, essa inesgotável fantasia se fatiga, se esgota numa perpétua tensão, porque amadurecemos e superamos os nossos ideais antigos, os quais se desfazem em pó e se desmoronam, e, se não existe outra vida, é preciso construí-la mesmo com essas ruínas. E, no entanto, é algo de diferente aquilo que a alma solicita e quer! É, pois, em vão que o sonhador procura entre as cinzas dos seus velhos devaneios pelo menos qualquer cintilação para lhe soprar em cima e aquecer com um fogo novo o seu coração arrefecido e nele ressuscitar tudo o que outrora era tão agradável, tudo o que lhe sensibilizava a alma, tudo o que lhe fazia palpitar o sangue, tudo o que lhe inundava de lágrimas os olhos e iludia de maneira tão magnífica!”

“Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! Afinal, não basta isso para encher a vida inteira de um homem?...”

          Fiódor Dostoiévski, Noites Brancas

29 de julho de 2010

Jerusalém, Gonçalo M. Tavares


Jerusalém
2005

Autor: Gonçalo M. Tavares
Editora: Caminho
Páginas: 256
ISBN: 972-21-1704-1

Parte integrante de uma tetralogia denominada O Reino, este Jerusalém é mais um passo essencial no objectivo de Gonçalo Tavares em “perceber o mal, como é que ele surge, em que situações se desenvolve e manifesta”. Assim, a sua capa preta não se trata de uma mera opção estética, mas sim de um primeiro sinal transmitido aos leitores sobre o seu conteúdo, antes mesmo de o desfolharem.

Jerusalém destaca-se pela ausência de linearidade narrativa, entrecortando os acontecimentos decorrentes na madrugada de 29 de Maio, com o passado e o futuro das personagens neles envolvidas. Neste aspecto Tavares é exemplar, unindo todos os fragmentos de forma coerente, o que simplifica a tarefa de acompanhar a complexidade cronológica, de modo a que o leitor dedique a sua atenção à análise subjacente à história, sem nunca perder o seu sentido de orientação.

“Apesar do medo da própria cabeça e do que ela poderia empurrar para dentro dos seus actos, Theodor era absolutamente saudável, em qualquer parâmetro que fosse considerado. Fisicamente, mentalmente e espiritualmente. Estas três categorias eram, aliás, para Theodor uma espécie de pontos cardeais indispensáveis à existência, e, em particular, à existência com saúde.”

Os limites da sanidade são explorados através das personagens que, com a possível excepção do médico Theodor, apresentam falhas a nível físico ou psicológico, algo que conjugado com um discurso despido de eufemismos, nos rodeia de uma perturbadora atmosfera que põe a nu características da natureza humana que nem sempre nos apraz verificar. O próprio Theodor orienta os seus esforços para estudar a História do horror da humanidade, procurando identificar uma tendência que lhe permita representar graficamente a sua evolução e, acima de tudo, prever o seu comportamento futuro.

“A História do horror é a substância determinante da História; e qualquer História tem uma normalidade, nada existe sem normalidade. E tal como se vê nas folhas quadriculadas de um electrocardiograma a saúde ou a doença de um homem, eu verei no gráfico, resultado dos meus estudos, a saúde e a doença, não de um único homem, não de um único indivíduo, mas dos homens no seu conjunto; do colectivo, da totalidade do mais relevante e abjecto comportamento humano.”

Com esta racionalidade científica contrasta a aleatoriedade presente ao longo do romance, a transcendência “como um imperativo de sanidade e de racionalidade absoluta” em oposição à ausência de transcendência na trágica representação da realidade. Poucos são os momentos que quebram o ambiente sombrio, esperanças que rapidamente se desvanecem, frágeis ilusões de felicidade que cedo se estilhaçam.

“O ovo, qualquer ovo, era para Mylia um material perturbante. O que mais rapidamente muda, o que é composto de maior desassossego, o que existe já para ser outra coisa. Havia em qualquer ovo uma espécie de altruísmo material, concreto, que ela não via em mais nenhuma coisa do mundo. Aparecer porque se quer fazer aparecer outra coisa. O altruísmo material era o altruísmo moral e não havia outro. O espírito não é generoso, o imaterial não é generoso: que pode perder o que não existe?”

Perturbante é muito provavelmente a melhor palavra para descrever Jerusalém. É certo que presentemente a violência começa a atingir o nível de banalidade, levando a uma onda de indiferença perante a reincidente crueldade que nos assola, mas Gonçalo Tavares consegue neste romance fazer-nos repensar não só a nossa ideia do mundo, mas também, e como qualquer bom livro, a nossa ideia sobre nós próprios.

“O sobrevivente de um campo de concentração disse:
«Os homens normais não sabem que tudo é possível.» Theodor sublinhou a frase.”

27 de julho de 2010

Citações



“(...) porque será que as palavras se servem tantas vezes de nós, vemo-las a aproximarem-se, a ameaçarem, e não somos capazes de afastá-las, de calá-las, e assim acabamos por dizer o que não queríamos, é como o abismo irresistível, vamos cair e avançamos.”
                                 
                                  José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis

24 de julho de 2010

O Homem que Morreu, D.H. Lawrence


O Homem que Morreu
2004 (Edição Original: 1929)

Título Original: The Escaped Cock / The Man Who Died
Autor: D.H. Lawrence
Editora: Assírio e Alvim
Tradução: Aníbal Fernandes
Páginas: 96
ISBN: 972-37-0910-4



“Escrevi uma história da Ressurreição onde Jesus se levanta a braços com uma grande náusea perante tudo, deixa de suportar a velha multidão, e mais – corta com ela – e enquanto se vai restabelecendo começa a perceber quão espantoso e prodigioso o mundo é, bem mais maravilhoso do que qualquer salvação ou céu – e agradece às suas estrelas por não ter, nunca mais, necessidade de cumprir uma “missão”.”

                                                D.H. Lawrence, em carta a Achsah Brewster

Publicado no ano anterior à sua morte, em O Homem que Morreu, Lawrence apresenta-nos uma diferente perspectiva da Ressurreição, em que, contrariamente à ascensão aos céus apontada pela religião, Jesus abraça uma nova vida, após emergir dolorosamente da morte. Este esforço para ultrapassar a dor é, de resto, um tema recorrente na sua obra.

A novela divide-se em duas partes. A primeira descreve-nos o regresso de Jesus (embora nunca identificado como tal) à vida, e a extrema solidão que este sentiu ao acordar.

“Estava sozinho; e, por ter morrido, muito para lá da solidão.”

Claramente desorientado, sai do seu túmulo e, enquanto caminhava, encontra um galo em fuga. Acaba por o apanhar e devolvê-lo ao dono, que assente em permitir que ele fique em sua casa por uns tempos. É durante esse período que, progressivamente, começa a compreender a sua experiência passada, assim como a sua vida presente, demonstrando uma maior abertura ao mundo que o rodeia.

“Ressuscitado de entre os mortos, acabava de compreender que também havia no corpo a maior vida, para além da pequena vida. Era virgem para evitar a vida pequena. A vida cúpida do corpo. Mas ficava agora a saber que a virgindade é uma forma de cupidez; e quando o corpo volta a levantar-se, fá-lo para dar e obter, obter e dar sem cupidez.”

Esse caminho de ressurreição corporal, ao invés de espiritual, encontra-o quando repara na incessante luta do galo com a corda que o separa da liberdade – um símbolo de vitalidade, em oposição à inércia que o preenchia. As suas feridas começam a sarar, e este novo caminho, acaba por o levar a sair da casa dos camponeses que o acolheram.

“Tinha curado as feridas, e desfrutava da imortalidade de estar vivo sem impaciência.”

Na segunda parte, Jesus encontra um templo de uma religião pagã, ao cuidado de uma sacerdotisa virgem, figura que acaba por ter um papel preponderante na história, dado que será ela a acordar Jesus para a sexualidade. Lawrence considerava a civilização ocidental demasiado fechada, em que cada pessoa se isolava no seu próprio mundo, sendo bastante aversas ao risco de se revelarem aos outros. Assim, a sexualidade, como algo íntimo, é um dos caminhos para essa abertura, uma manifestação de que o medo da intimidade foi superado. No fundo, uma forma de afirmação do desejo de viver, aspecto da experiência humana que o Cristianismo procurara suprimir.
Esta experiência leva a uma total renúncia do papel de salvador por parte de Jesus, que aspira apenas a viver para si mesmo, evitando assim a traição de que tinha já sido vítima.

“De repente caiu em si. «A todos pedi que me servissem com o cadáver do meu amor. E acabei por oferecer-lhes só o cadáver do meu amor. Isso é o meu corpo... tomai e comei... o meu cadáver...»”

O Homem que Morreu trata-se, apesar de tudo, de um exemplo em que a escrita não está totalmente à altura das ideias que o texto comporta, mas que não deixa de suscitar uma reflexão sobre o Cristianismo.

 “Aquilo que o homem mais apaixonadamente quer é a sua totalidade viva e a sua harmonia viva, não a isolada salvação da “alma”. Acima de tudo, o homem quer a sua consumação física porque agora está, por uma vez, por uma única vez, em estado de carne e de força.”

                                                                                                         em Apocalipse

Fórum Fantástico de regresso


(Ilustração da autoria de Pedro Marques)

Acaba de ser anunciado o regresso do Fórum Fantástico, a realizar-se entre 12 e 14 de Novembro:

“Esta nova edição, a realizar na Biblioteca Municipal de Telheiras, em Lisboa, marca o retorno de um conceito já estabelecido, continuando a evolução no sentido de uma maior abrangência. Tendo sido iniciado como um evento eminentemente literário, o FF tem-se alargado progressivamente também a outros media (ilustração, cinema, banda desenhada, etc.), sempre que isso faça sentido na sua intenção de se focar no género Fantástico.

As linhas mestras são mantidas, nomeadamente o incentivo à produção e estudo do género Fantástico e o contacto entre criadores, editores, críticos, académicos e público em geral. Além disso, o FF2010 será o mais eclético, um verdadeiro albergue geek!”

Serão publicadas mais informações nos próximos dias, que poderão ser encontradas no blog do Rogério Ribeiro, ou no blog do próprio evento.

20 de julho de 2010

Off-side, Gonzalo Torrente Ballester



Off-side
2001 (Edição original: 1969)

Autor: Gonzalo Torrente Ballester
Editora: Caminho
Tradução: António Gonçalves
Páginas: 601
ISBN: 972-21-1371-2


Sinopse:
Partindo do aparecimento de um suposto quadro de Goya — será autêntico? será falso? — num antiquário do Rastro, Torrente Ballester propõe-nos em Off-side um amplo fresco da sociedade madrilena dos anos 60, em cuja densa trama se vão cruzar e entrecruzar, em longas sequências construídas em contraponto, banqueiros cínicos, editores tecnocratas, curas ímpios, financeiros exímios, escritores malditos à beira da desintegração total, negros das letras e das artes com a polícia às canelas, negros americanos apaixonados por prostitutas lumpen, prostitutas de alto coturno formadas em Letras, maoístas de passos clandestinos com a vida por um fio, frágeis condessas polacas à beira do suicídio, férreas marquesas italianas peritas em bacanais, falsários geniais, efebos torturados, ninfetas expeditas, toureiros incrédulos, viúvas louçãs, secretárias pudibundas, núncios papais, marqueses pontifícios, académicos de esquerda, críticos de direita...
No seu habitual estilo vivíssimo e irrequieto, Torrente semeia esta narrativa realista — como se não bastassem as surpresas e as ironias do «real» — de interpolações oníricas ou fantásticas, compondo um quadro empolgante em que o peso do passado, a sombra da guerra civil, pairam impiedosamente sobre a vida dos personagens, condicionando-a e hipotecando-a.



Descrito pelo próprio autor como “(...) una série de problemas individuales sobre um fondo histórico determinado, en un momento concreto de la vida española”, Off-side é muitas vezes encarado como um passo na direcção da sua mais aclamada obra, La saga/fuga de J.B., algo que acabou por condenar este romance a uma relativa (e imerecida) falta de atenção ao nível da crítica literária.

Com base na sua experiência de vida em Madrid, especialmente nos anos 50, Ballester procura conjugar o realismo, a objectividade e o espírito crítico, pintando um cenário dramático e pessimista da sociedade madrilena.

“A mim parece-me um esforço para alcançar uma visão da realidade diferente da habitual, e para recriar literariamente com meios expressivos excepcionais.”

O primeiro aspecto a salientar na escrita de G.T.B. é, sem dúvida, a mestria com que cria as personagens, pertencentes a diferentes esferas sociais, com as suas ideologias próprias e apresentando diversas orientações sexuais, cada uma é minuciosamente analisada, processo que permite dotá-las de uma verosimilhança incrível. Assim, poder-se-ia dizer, que a alma deste romance se encontra nas suas personagens, sendo de salientar esta pluralidade, dada a ausência de um protagonista principal.

“(...) conseguiu apresentar ao mesmo tempo a multidão e os indivíduos que a constituem.”

Apesar do nível de detalhe acima referido, é interessante verificar como, independentemente da quantidade de personagens e de cenários em que estas se movem, o autor consegue conjugar harmoniosamente aspectos específicos, com pormenores gerais, dedicando a usa atenção não só à acção principal, mas também preocupando-se com o ambiente que a envolve.

“(...) passa com toda a naturalidade do realismo à mais desenfreada fantasia, volta à realidade, brinca com ela...”

Muito embora o realismo predomine ao longo de todo o livro, Ballester integra em Off-side elementos fantásticos, predominantemente surrealistas, que alguns críticos consideram como uma forma de caricaturar a sociedade madrilena, e que se veio a reflectir na sua obra posterior. Um exemplo dessa integração, é o contraste entre aspectos que pretendem meramente espelhar a realidade com outros puramente imaginários, como um cosmos electrónico presente na biblioteca de Fernando Anglada, algo que se veio também a repercutir na sua obra: a inclusão de um objecto imaginário e inútil nos seus romances.

“Acontece que o cosmos electrónico da biblioteca, além de tema de meditação abissal - «Perante tal imensidão não somos nada» -, é um candeeiro que difunde em redor e em forma aproximadamente esferoidal, gradualmente esbatida, uma luz opalescente suficientemente ténue para que Anglada, imerso nela, pareça um fantasma móvel, e Landrove uma sombra inquieta, vulto informe aninhado e trémulo na poltrona de couro. Aproximando-nos da esfera, parece dotada de luz própria, uma luz imanente (ou talvez emanante) em que flutuam e se movem, vertiginosos, milhares de mundos, nuvens de estrelas. A ordem pressentida dos astros está realizada, ali, a uma escala micrométrica. Mas o bonito é que nenhum é que nenhum daqueles corpos celestes tem suporte algum, seja arame ou titã, pois flutuam na luz e movem-se segundo a mecânica do Universo, embora em ponto pequeno, e nota-se com toda a clareza a sua fuga unânime para um lugar ignoto do nada. Anglada tem delimitado, para os seus passeios, o espaço compreendido entre o prolongamento ideal do eixo Norte-Sul do instrumento e as janelas. Landrove apenas se concede o que os seus braços e pernas, ao moverem-se, podem abarcar.”

Apesar de ser considerado inferior ao já referido La saga/fuga de J.B., é curioso constatar que, é em Off-side que podemos encontrar a personagem que, porventura, melhor representa os ideais do próprio autor. Trata-se do escritor Leopoldo Allones (cujo nome é, possivelmente, baseado no escritor argentino Leopoldo Lugones, que se suicidou em 1938), autor de um livro denominado Três, que é bastante elogiado e descrito, por diversas vezes, como uma obra-prima, sendo as citações que tenho vindo a apresentar ao longo desta crítica exemplos disso mesmo, incluídas aqui pela adequação dos comentários nelas contidos (maioritariamente efectuados pelo intelectual Leonardo Landrove) ao próprio Off-side.

Como síntese da vida espanhola dos anos 50, Off-side acaba por ficar aquém das expectativas, em parte devido à representação de aspectos demasiado díspares, carecendo o livro de algo que proporcione uma necessária coesão ao conjunto. É possível que o período em que foi escrito (numa altura em que Ballester esteve prestes a abandonar a literatura) tenha influenciado o resultado final, mas não deixa de ser um admirável retrato social, com uma qualidade que deveria garantir a sua saída da sombra de obras posteriores. E sendo as personagens que dão vida a Off-side, que melhor forma de terminar, do que com as palavras de uma dessas personagens, que transpostas para o contexto desta crítica, definem na perfeição o que podem encontrar neste romance:

“(...) é capaz de descobrir a contradição interna da linha recta e de a expressar numa frase que é a um tempo chiste, música, criação verbal e reprodução exacta da realidade. Quando aplica o seu método ao comportamento humano, os seus personagens mais vulgares convertem-se em entidades surpreendentes, mas lógicas. (...) conseguiu expressar como ninguém o paralelismo entre o pensamento e a conduta, as suas coincidências, as suas divergências, as suas contradições. O que há de específico em cada homem surge perfeitamente homogeneizado com o individual, e, no entanto, o leitor percebe quando é a espécie que actua, e quando a pessoa.”

19 de julho de 2010

Manuscritos de Franz Kafka

São hoje abertos quatro cofres no banco de Zurique, na sequência do processo legal respeitante à disputa dos direitos sobre os manuscritos de Kafka, conservados pelo seu amigo Max Brod e, após a morte deste, pela sua secretária Esther Hoffe, cujo falecimento em 2007 veio despoletar a presente disputa, entre o Estado de Israel e as irmãs Hoffe.
Presume-se que nos cofres se encontrem milhares de manuscritos, alguns nunca publicados, sendo a sua abertura realizada na presença de advogados e peritos alemães que irão realizar um inventário rigoroso a ser entregue em tribunal.
A publicação desse material está dependente da decisão tomada pelo juiz, podendo esta passar pela sua transferência para um arquivo público.


Podem ler mais sobre o assunto no jornal Guardian, e no jornal i.


14 de julho de 2010

Ler em Lisboa: Castelo de S. Jorge


“Na colina mais alta de Lisboa, onde proliferam testemunhos de fenícios, romanos e muçulmanos, ergue-se, no topo, o Castelo de São Jorge. Os vestígios mais antigos aqui encontrados remontam ao séc. VI a. C. Porém, a existência de um castelo propriamente dito, data do séc. X - XI, altura, em que Lisboa, era uma importante cidade portuária muçulmana. Em 1147, D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, conquista o Castelo e a cidade aos mouros. De meados do séc. XIII até ao início do séc. XVI, o Castelo conhece o seu período áureo. É aqui que Vasco da Gama é recebido por D. Manuel depois de regressar da Índia e que é representada a primeira peça de teatro português, o Auto do Vaqueiro, de Gil Vicente, por ocasião do nascimento do futuro rei D. João III. Com a transferência da residência real e da corte para a baixa da cidade, os terramotos de 1531 e 1755 e o retomar da função militar no século XVIII, a descaracterização do Castelo vai-se acentuando. Declarado Monumento Nacional em 1910, é no decorrer do século XX que recebe importantes intervenções de restauro que lhe conferiram a imponência actual.”

                                                                     Fonte: Folheto Informativo da EGEAC


(Clique na imagem para ampliar)


Tratando-se de um dos principais pontos de interesse turístico da cidade, o Castelo de São Jorge destaca-se como local de leitura não só devido ao ambiente que a sua antiguidade proporciona, mas especialmente graças à sua privilegiada localização. Assim sendo, a vista que o miradouro do castelo oferece é, provavelmente, uma das mais impressionantes de Lisboa, sendo as fotografias apresentadas abaixo uma pequena amostra disso mesmo.




A entrada é grátis para residentes no concelho de Lisboa. Para mais informações sobre o Castelo e os eventos nele realizados, podem consultar o seu site oficial, ou a página da EGEAC.

12 de julho de 2010

Conferências e debates, Julho de 2010



Ciclo de conferências, "Memórias de Saramago"

Realiza-se esta quarta-feira, 14 de Julho, pelas 17H30 a primeira sessão do ciclo de conferências respeitantes à produção literária de José Saramago, no Auditório da Biblioteca Nacional de Portugal. Tais conferências inserem-se no conjunto de iniciativas denominadas Memórias de Saramago, cujo objectivo é homenagear o autor, destacando-se, para além destas, a exposição na Área de Referência da BNP.
As datas de realização das subsequentes conferências estão ainda por anunciar.


Ciclo de debates “Alexandre Herculano 200 Anos Depois”

Iniciou-se dia 6 do presente mês o ciclo de debates promovidos pela APEL, a propósito do bicentenário de Alexandre Herculano. As datas dos próximos debates, assim como os respectivos locais em que serão realizados, foram já divulgados:

“As próximas sessões estão marcadas para 13 deste mês (Faculdade de Belas Artes - Chiado) e, a partir de Outubro, nos dias 4 (Auditório do Montepio - Rua do Ouro), 12 (Grémio Lusitano - Bairro Alto) e 19 (Centro Nacional de Cultura), sempre pelas 18.30. O encerramento do programa está marcado para o dia 26 de Outubro no Martinho da Arcada, pelas 19.30 com as presenças de Diogo Freitas do Amaral, Eduardo Lourenço e Guilherme de Oliveira Martins. A moderação será de António Valdemar, José Manuel Mendes e Luís Machado. Todas as sessões têm entrada livre, excepto esta última, sujeita a marcação prévia devido à lotação do espaço.”

                                                                                             In Diário de Notícias

6 de julho de 2010

Ficções, Jorge Luis Borges



Ficções
2009 (Edição original: 1944)

Título Original: Ficciones
Autor: Jorge Luis Borges
Editora: Teorema
Tradução: José Colaço Barreiros
Páginas: 171
ISBN: 978-972-695-861-1


Ficções é uma compilação de contos que engloba dois livros diferentes, tendo sido uma das publicações que mais contribuiu para o impacto a nível internacional de Jorge Luis Borges. Os temas centrais da sua obra, tais como a distinção da realidade da percepção da realidade, a infinidade, o tempo e a memória, são perfeitamente identificáveis nas peças aqui incluídas.

O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam

Tlön, Uqbar, Orbis Tertius

Este primeiro conto descreve o conteúdo de um livro imaginário, conteúdo esse fruto também da imaginação, em que uma sociedade secreta trabalhou ao longo de séculos, para criar uma enciclopédia que retrata um mundo único e verosímil. A teia aqui entretecida é uma das características comuns em diversos contos de Borges, mas neste caso, espelhando em demasia a sua erudição, acaba por tornar o seu conteúdo excessivamente confuso.

Pierre Menard, autor do Quixote

Uma inteligente paródia, em que são enumeradas as absurdas publicações de um autor (ficcional), entre as quais uma nova versão de Dom Quixote. Facto interessante é essa versão ser uma transcrição à letra, da obra original:

“O texto de Cervantes e o de Menard são verdadeiramente idênticos, mas o segundo é quase infinitamente mais rico.”

Tal pode ser lido como uma crítica à ambiguidade da análise literária, demonstrando que as especificidades de cada indivíduo têm impacto ao nível do significado atribuído a um texto ou, por outro lado, como uma ridicularização do acto de plágio, que progressivamente se veio a tornar mais comum.

As ruínas circulares

Aqui, Borges joga com a dualidade sonho-realidade (temas recorrentes na sua obra), algo que serve apenas de véu para a total irrealidade contida no conto. Um clássico que demonstra a capacidade do autor em condensar uma ideia em poucas páginas.

A lotaria em Babilónia

Ilustrando uma sociedade baseada na aleatoriedade, em que cada decisão é tomada recorrendo a uma lotaria, uma sociedade de inteira desresponsabilização. Carece, talvez, de uma simbologia tão profunda, mas demonstra os extremos que Borges consegue atingir com as suas ideias.

Análise da obra de Herbert Quain

À semelhança de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, o conto trata de obras ficcionais, denotando-se influências de Freud. Infelizmente os excessos que apontei no primeiro conto, são também aqui visíveis, tornando o conteúdo mais denso do que seria necessário.

A biblioteca de Babel

“O universo (a que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poções de ventilação no meio, cercados por parapeitos baixíssimos.”

É com esta introdução que somos transportados para um labirinto temporal e espacial, em que testemunhamos a busca de conhecimento por parte dos bibliotecários, e o seu desespero, inerente ao facto de saberem que esse conhecimento é praticamente inalcançável. Mas mesmo essa esmagadora realidade demove o homem na sua vontade em atingir o conhecimento perfeito, no seu desejo de tocar Deus.

O jardim dos caminhos que se bifurcam

Este policial que dá o título ao primeiro livro, gira em torno da tentativa do seu protagonista em fazer chegar uma importante informação aos seus superiores. Indiferente ao país que serve (Alemanha), e às consequências da divulgação de tal informação, o espião de origem chinesa pretende apenas demonstrar que, apesar da sua origem, é capaz de influenciar o destino dos exércitos. A execução do seu plano sem escrúpulos dá-se em paralelo com a explicação da obra de um dos seus antepassados, conjugando os aspectos já referidos, com a temática do tempo (e da sua unicidade ou multiplicidade).

Artifícios

Funes ou a memória

Segundo o próprio autor, este conto funciona como uma metáfora da insónia. Nele se retrata a prodigiosa memória que Ireneo Funes adquire, após um acidente a cavalo que acaba por o deixar paralisado.

“Dormir é distrair-se do mundo.”

Invadido por uma imensidão de minuciosas recordações, a abstracção dessas recordações e do mundo é-lhe bastante difícil, pelo que o acto de dormir se torna uma árdua tarefa.

A forma da espada

Centra-se na história de uma cicatriz, passada em tempos de guerra, em que contrastam a coragem e a honra, com a cobardia da traição. O final não é de todo imprevisível, mas vem solidificar o tema desenvolvido ao longo do conto.

Tema do traidor e do herói

Apresenta-nos um paralelo entre a literatura e a realidade, relembrando-nos que a História é uma peça escrita pelos seus próprios actores, e em que a influência do seu desempenho se estende para o futuro. Um conceito que poderia ter sido mais desenvolvido, apresentando um fim demasiado abrupto, pelo que o resumo da ideia principal não está à altura do que acontece noutros dos contos presentes no livro.

A morte e a bússola

Um conto policial, relatando a investigação de um série de crimes aparentemente relacionados com uma seita, cujo propósito é a busca do verdadeiro Nome de Deus. Proporciona-nos um ponto de vista menos comum entre o género, em que o investigador desvenda o mistério que envolve as mortes, apenas para descobrir foi manipulado para o fazer.

O milagre secreto

Jaromir Hladik é preso pela Gestapo e posteriormente condenado à morte. Enquanto aguarda o cumprimento da sentença, na escuridão da noite que precede a sua execução, Hladik pede a Deus que lhe conceda um ano, de modo a poder concluir um drama em verso, com o qual se pretendia redimir da sua restante obra, da qual se arrependia. O seu desejo é concretizado, embora num momento e de uma forma inesperada e, de facto, secreta.

Três versões de Judas

Classificado por Borges como uma fantasia cristológica, este conto apresenta uma curiosa perspectiva de Judas, interpretando a sua traição de um forma que quebra os raciocínios geralmente aceites.

O fim

Um curto relato de uma luta com facas, cuja simplicidade, apesar de refrescante, não deixa de contrastar com o restante conteúdo de Ficções.

A seita de Fénix

Trata de um culto que se baseia num segredo (que não é esclarecido no conto), que se mantém vivo apesar do desgaste provocado pela passagem do tempo, uma sobrevivência baseada no instinto, quando as suas bases originais se apagaram da memória. Creio poder estabelecer uma relação com as religiões actuais, em que muitas pessoas sacrificam o seu espírito crítico, permitindo que a sua crença se transforme num mero hábito.

O Sul

Encerrando o livro, O Sul narra os vertiginosos pensamentos e os surreais sonhos de Juan Dahlmann, em parte amplificados por uma doença. Após ter recuperado, viaja para a sua quinta no sul, indo ao encontro de um destino fatal.


Apesar de existirem compilações mais abrangentes (como os volumes de Obras Completas de Jorge Luis Borges também editados pela Teorema, ou o Collected Fictions da Penguin), Ficções não deixa de incluir alguns dos melhores contos de Borges, funcionando como uma óptima introdução para quem nunca teve oportunidade de conhecer a obra de um dos autores mais influentes do século XX. 
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