29 de maio de 2010

Ler em Lisboa: Anfiteatro de Pedra, ISA



A Tapada da Ajuda é um Parque Botânico com cerca de 100 ha, no interior da cidade de Lisboa, de reconhecido interesse internacional, no qual se destacam uma Reserva Botânica única (a Reserva Botânica Natural D. António Xavier Pereira Coutinho), onde estão representadas as espécies características do clímax da zona, jardins, arboretos diversos, viveiros florestais, terrenos de cultura (pomares, vinhas, prados, culturas arvenses e hortícolas) e diversas espécies domésticas e silvestres características.
Para além do património botânico e vegetal, pode encontrar na Tapada diverso património histórico e arquitectónico, algum do qual remontando ao tempo em que foi Tapada Real.
                                                                                               Fonte


Na proximidade do edifício principal do Instituto Superior de Agronomia, podem encontrar este aprazível anfiteatro. Trata-se de um local pouco conhecido, frequentado ocasionalmente por alunos do ISA, capaz de proporcionar um calmo ambiente de leitura e um contacto a natureza que nos faz esquecer que nos encontramos no coração de Lisboa.


Estando inserido no Parque Botânico da Tapada da Ajuda, podem também aproveitar para visitar outros locais de interesse, como o miradouro situado na parte norte, de onde é possível usufruir de uma privilegiada vista sobre a cidade e o rio, ou simplesmente apreciar  a vegetação que reveste o parque.



25 de maio de 2010

Revista Bang! n.º 7 já disponível para download



A revista Bang! n.º 7 já se encontra disponível gratuitamente para download em versão pdf, na página da Saída de Emergência. A crítica relativa a este número pode ser encontrada aqui.

24 de maio de 2010

A Quinta dos Animais





A Quinta dos Animais
2008

Título Original: Animal Farm (1945)
Autor: George Orwell
Editora: Antígona
Tradução: Paulo Faria
Páginas: 156
ISBN: 978-972-608-197-5




Contracapa:  
Esta nova tradução de Animal Farm recupera o título original contrariamente às edições anteriores que adoptaram os títulos panfletários O Porco Triunfante e – o mais conhecido –O Triunfo dos Porcos. À primeira vista este livro situa-se na linhagem dos contos de Esopo de La Fontaine e de outros que nos encantaram a infância. Tal como os seus predecessores Orwell escreveu uma fábula uma história personificada por animais. Mas há nesta fábula algo de inquietante. Classicamente atribuir aos animais os defeitos e os ridículos dos humanos se servia para censurar a sociedade servia igualmente para nos tranquilizar pois ficavam colocados à distância «no tempo em que os animais falavam» os vícios de todos nós e as suas funestas consequências. Em A Quinta dos Animais o enredo inverte-se. É a fábula merecida por uma época − a nossa época − em que são os homens e as mulheres a comportar-se como animais.


“(...) pensei em denunciar o mito soviético através de uma história que pudesse ser facilmente compreendida por quase toda a gente e de fácil tradução para outras línguas.”

De modo a atingir este objectivo, Orwell escreveu A Quinta dos Animais, uma alegoria da Revolução Russa e do totalitarismo de Estaline em termos específicos, mas que acaba por englobar temas mais abrangentes, como a luta de poder em sociedades que se baseiam na igualdade de direitos ou os perigos do idealismo utópico que pode ser manipulado e transformado numa ferramenta de opressão.
Como seria de esperar, tendo em conta o tema abordado, a leitura de A Quinta dos Animais torna-se bastante mais interessante para quem estiver minimamente familiarizado com a história da União Soviética da primeira metade do séc. XX, assim como o panorama político na Europa e nos Estados Unidos durante o mesmo período. Tal permite interpretar a simbologia presente na obra, dado que muitos dos animais (e os poucos seres humanos presentes) representam figuras históricas ou organizações, assim como os espaços descritos retratam países ou regiões.

A fábula descreve, essencialmente, a revolução dos animais de uma quinta, expulsando os seres humanos e, consequentemente, ganhando o controlo sobre a mesma. Finalmente livres, os animais organizam-se e estabelecem sete mandamentos, princípios essenciais baseados na igualdade, pelos quais se devem reger:

Os Sete Mandamentos

1.      Todas as criaturas que caminham sobre duas pernas são nossas inimigas.
2.      Todas as criaturas que caminham sobre quatro patas ou que têm asas são nossas aliadas.
3.      Nenhum animal usará roupas.
4.      Nenhum animal dormirá numa cama.
5.      Nenhum animal beberá álcool.
6.      Nenhum animal matará outro animal.
7.      Os animais são todos iguais.

Apesar da melhoria inicial, os porcos, de forma lenta mas gradual, começam a ganhar controlo, organizando as actividades da quinta, algo que não é alvo de contestação pelos outros animais dado que os consideravam superiores a nível intelectual.

“Os porcos não trabalhavam efectivamente, antes dirigiam e supervisionavam os outros. Tendo em conta os seus conhecimentos superiores, era natural que assumissem a liderança.”

Essa inteligência foi, durante algum tempo, utilizada como motor para o desenvolvimento da quinta, mas cedo se tornou num dissimulado método para ganhar autoridade e conquistar benefícios. De facto, graças à sua educação e capacidade persuasiva, os porcos conseguem fazer os restantes animais acreditar em praticamente tudo o que eles dizem, algo que se manifesta, pela primeira vez, quando se apropriam do leite e das maçãs.

“O leite e as maçãs (a Ciência demonstra-o, camaradas) contêm substâncias absolutamente indispensáveis ao bem-estar de um porco. O trabalho que nós, os porcos, levamos a cabo é intelectual. Toda a administração e organização desta quinta repousam sobre os nossos ombros. Dia e noite velamos pelo vosso bem-estar. É para vosso bem que bebemos aquele leite e comemos aquelas maçãs.”

Assim se manifesta o totalitarismo, embora mascarado de forma a iludir os animais que acreditam plenamente na boa vontade dos porcos. Cada suspeita é contrariada com  semelhantes deturpações e, caso não sejam suficientes, a ameaça do regresso dos humanos rapidamente convence qualquer um a aceitar os argumentos apresentados, quaisquer que sejam. Porque, apesar de tudo, a liberdade concedera uma forte motivação aos animais da quinta, que passaram olhar o trabalho como algo que beneficia toda a comunidade, ao invés de alimentar humanos insensíveis e exploradores, não se apercebendo que, na verdade, a única mudança que a sua revolução trouxe, foi a troca de exploradores.

“(...) os animais trabalharam que nem escravos, mas, apesar disso, sentiam-se felizes; não se poupavam a esforços nem sacrifícios, bem cientes de que tudo o que faziam era para benefício próprio e das futuras gerações de animais, e não para um bando de seres humanos preguiçosos e ladrões.”

Com o passar dos anos, o domínio dos porcos acentua-se, o que lhes permite modificar os mandamentos à medida dos seus interesses e submeter os animais através da violência, instalando um clima de terror constante.
Mas, o aspecto mais inquietante, é a total apatia por parte dos animais, que se deixam subjugar, mesmo quando defrontados com descaradas mentiras, com dados falseados relativamente às suas condições de vida após  a revolução.

“Não pensem, camaradas, que a liderança é um prazer! Pelo contrário, é uma enorme responsabilidade, bem pesada. Ninguém acredita mais convictamente do que o Camarada Napoleão na igualdade entre todos os animais. Ele teria todo o gosto em deixar-vos tomar as vossas decisões sozinhos. Mas correríamos o risco de vocês tomarem as decisões erradas, camaradas, e depois, o que seria de nós?”

Tal inércia contribui para o inevitável desfecho, em que a tirania dos porcos em nada se diferencia daquela praticada pelo homem, resultando na corrupção total dos mandamentos inicialmente acordados, substituídos por  um único preceito que reflecte perfeitamente a total degeneração dos valores em que a revolução dos animais assentou:

“Todos os animais são iguais
Mas alguns são mais iguais
Do que outros”

Através desta circularidade, Orwell não só conseguiu atingir o objectivo a que se tinha proposto, como criou uma intemporal fábula que luta contra a crónica tendência que o ser humano tem para esquecer o seu passado, cometendo recorrentemente os mesmos erros.


Esta edição da Antígona inclui também, em apêndice, o prefácio que não chegou a ser publicado na primeira edição de Animal Farm, denominado A Liberdade de Imprensa (descrevendo as dificuldades de publicação de um texto anti-estalinista na época) assim como o prefácio escrito exclusivamente para a edição ucraniana do livro (em que George Orwell apresenta sucintamente o percurso da sua vida e a sua perspectiva política).

20 de maio de 2010

Curtas II

Father and Daughter (2000)

 

Da autoria de Michaël Dudok De Wit, ilustrador holandês, Father and Daughter apresenta-nos uma comovente perspectiva da morte, e do sentimento de perda que esta planta no coração daqueles que perderam alguém querido.
Foi agraciado com diversos prémios, de entre os quais se destaca o Óscar de melhor curta-metragem animada atribuído em 2000, sendo o trabalho mais conhecido de Michaël.
Podem visualizar alguns excertos de outras animações da sua autoria nesta página.


18 de maio de 2010

O Evangelho do Enforcado


O Evangelho do Enforcado
2010

Autor: David Soares
Editora: Saída de Emergência
Páginas: 368
ISBN: 978-989-637-188-3

Sinopse:
Nuno Gonçalves, nascido com um dom quase sobrenatural para a pintura, desvia-se dos ensinamentos do mestre flamengo Jan Van Eyck quando perigosas obsessões tomam conta de si. Ao mesmo tempo, na sequência de uma cruzada falhada contra a cidade de Tânger, o Infante D. Henrique deixa para trás o seu irmão D. Fernando, um acto polémico que dividirá a nobreza e inspirará o regente D. Pedro a conceber uma obra única. E que melhor artista para a pintar que Nuno Gonçalves, estrela emergente no círculo artístico da corte? Mas o pintor louco tem outras intenções, e o quadro que sairá das suas mãos manchadas de sangue irá mudar o futuro de Portugal. Entretecendo História e fantasia, O Evangelho do Enforcado é um romance fantástico sobre a mais enigmática obra de arte portuguesa: os Painéis de São Vicente. É, também, um retrato pungente da cobiça pelo poder e da vida em Lisboa no final da Idade Média. Pleno de descrições vívidas como pinturas, torna-se numa viagem poderosa ao luminoso mundo da arte e aos tenebrosos abismos da alienação, servida por uma riquíssima galeria de personagens.



Representando um mundo medieval português do séc. XV, O Evangelho do Enforcado aborda de forma indirecta os enigmáticos painéis ditos de São Vicente. Indirectamente porque, ao invés de identificar cada uma das figuras representadas nos painéis, David Soares procura, por um lado, ilustrar com autenticidade o panorama político, económico e social da época, e por outro, desmistificar a desfasada imagem que temos de algumas das personagens históricas que figuram no romance. O desenvolvimento destes elementos, não só proporciona um sólido suporte para as teorias desenvolvidas posteriormente (no respeitante à simbologia por detrás dos painéis), como torna possível a coesão narrativa apresentada pelo autor.
Este compromisso com a verdade já tinha sido assumido nos anteriores romances de David Soares, algo que o próprio destacou em diversas entrevistas:

 “A minha preocupação principal é com a história com h pequeno. A ficção vem sempre em primeiro lugar. Mas quando estou a trabalhar com informações históricas baseadas em factos reais, tenho a preocupação de ser o mais verdadeiro possível, no que concerne à originalidade, e às intenções do texto ficcional. E a vontade de procurar a verdade, muitas vezes entra em conflito com aquela imagem estereotipada e mitificada de certas personagens da nossa História.” in Livraria Ideal

Assim, a discrepância entre o retrato de certas personagens e a ideia generalizada que temos destas resulta, não de um intenção em chocar o leitor, mas sim da consulta de registos e análises históricas em que Soares se baseia, que muitas vezes estilhaçam a aura de virtude que rodeia essas mesmas figuras.

“(...) os anjos de alguns são os diabos de outros.”

A extensiva investigação e a imaginação do autor combinam-se, alimentando uma construção de personagens impressionante, quer ao nível da caracterização da sua personalidade, quer ao nível da estratificação social(1). De entre estas personagens, destaca-se Nuno Gonçalves (pintor dos painéis), apresentado como um psicopata que nutre um intenso fascínio por cadáveres.

“O coração dele era um cemitério: só os mortos conseguiam entrar.”

À necrofilia juntam-se também as tendências assassinas, algo que, no entanto, Nuno consegue conjugar com a sua ascensão como pintor, desde um mero aprendiz até ao posto de pintor régio, através do seu estilo pessoal e da diferente perspectiva com que encara a pintura.

Gosto de sombras, pensou ele. Parecem almas que os mortos deixaram cair ao chão.”

O romance prima também pela vívida imagem que nos transmite da sociedade do séc. XV, tanto na descrição dos seus costumes e crenças, como na linguagem utilizada. Dentro dessa imagem geral, encaixa-se Lisboa, palco principal da história, uma cidade em crescimento, mas também uma cidade de contrastes, não existindo qualquer pudor em mergulhar no seu lado mais obscuro, revelando a pobreza, a sujidade e a fome que nele se ocultam. Um ambiente em que a miséria impera, e a esperança se esbate.

Esta cidade é uma ferida, pensou. Somos o sangue dela e estamos todos doentes. As muralhas vão fechar-se sobre as nossas cabeças... Vamos secar e morrer. Todos, todos.
(...)
A não ser que a ferida se mantenha sempre a sangrar, pensou. Assim nunca irá fechar. É por isso que sofremos. O mundo precisas de sangrar para não morrer. Riu. Devíamos sangrar a rir e rir a sangrar. Devíamos comer carne nos dias de peixe e peixe nos outros.
Esta cidade é o crucifixo onde estamos todos pregados.”

É de louvar todo o trabalho efectuado por David Soares, que com as suas palavras consegue fundir o fantástico com a realidade, pintando um quadro medieval de incomparável (ainda que por vezes assustadora) beleza. O Evangelho do Enforcado é, portanto, mais um importante passo para a cartografia do imaginário português, assim como um exemplar antídoto contra a inevitabilidade inerente à nossa vida.

“A criação – a arte – é o único antídoto contra a morte.
Aquilo que se cria na terra subsiste no Todo.
Por isso... Sê responsável como o que crias, pintor.
Não desperdices... nada.”
 


(1) Neste capítulo, estranha-se a ausência de tradução das frequentes passagens em Latim, especialmente tendo em conta todo o cuidado reflectido na elaboração das notas e bibliografia finais. Por outro lado, o mesmo não acontece com o francês, embora a presença de um intérprete nos diálogos efectuados nessa língua sirva de argumento justificativo, dado que seria redundante e repetitivo adoptar à letra as falas na língua original. No entanto, considero que esse espírito prático deveria englobar o Latim, seja através de notas de rodapé, ou notas no final dos capítulos em que as falas se inserem.

16 de maio de 2010

Debate sobre o futuro do livro na FLL



Os Livros do Futuro, o Futuro dos Livros



Convidados (da esquerda para a direita):
Mário de Carvalho (escritor)
Manuel Alberto Valente (Porto Editora)
Carlos Vaz Marques (moderador do debate)
José Afonso Furtado (director da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian)

Realizou-se hoje mais um interessante debate na feira do livro de Lisboa. Este iniciou-se com uma intervenção bem-humorada de Carlos Vaz Marques, que descreveu a sua perspectiva pessoal, assim como a sua experiência como editor. Fiquei especialmente agradado por saber que a Porto Editora adopta uma postura proactiva no que diz respeito a conteúdos digitais, ao contrário da posição de outras importantes editoras no panorama nacional.
Quanto a Mário de Carvalho, demonstrou, à semelhança do que acontece na recente entrevista para a revista LER n.º 92, estar familiarizado com o uso das novas plataformas de leitura, considerando que estas podem ter um papel importante para o seu enriquecimento.
Finalmente, através de intervenções mais extensas, José Afonso Furtado procurou desmistificar algumas das ideias pré-concebidas acerca da matéria, tais como a justificação das mudanças a nível de leitura puramente através do desenvolvimento tecnológico, a tendência para discutir a futuro do livro apenas na perspectiva do texto literário e a noção de que o suporte em papel continua a ser a plataforma de leitura mais importante para todos os segmentos (no contexto do discurso, descritos como uma conjugação entre géneros, tecnologias e mercados).
Lamento apenas que não se tenha desenvolvido mais acerca da preparação das editoras portuguesas para a possibilidade de fornecer conteúdos digitais em português.

À semelhança do debate sobre literatura fantástica, volto a disponibilizar uma gravação aúdio (ver links abaixo). Infelizmente, cerca de meia hora após o início da discussão, o CESP começou uma acção de protesto, com uma viatura provida de diversos megafones a escassos metros do espaço EDP onde nos encontrávamos...


Tendo isto em conta, deixo-vos alguns dos destaques publicados através do twitter da Feira do Livro (para aqueles que não apreciarem o gosto musical do Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal...):





Carlos Vaz Marques: Há quem diga que uma biblioteca, dentro de alguns anos, será um museu.
Manuel Alberto Valente: Não tenho o optimismo do Manoel de Oliveira, que tem 102 anos e está preocupado com os subsídios ao cinema nos próximos dez anos.
Manuel Alberto Valente: Não nos podemos esquecer que aquilo a que chamamos livro não é o 1º suporte de leitura que a Humanidade conheceu.
Manuel Alberto Valente: Pela experiência que tenho com o Kindle, confesso que, para mim, o suporte digital não substitui o livro.
Manuel Alberto Valente: Mas, como editor, é um suporte muito útil profissionalmente.
Manuel Alberto Valente: Hoje, quando pedimos um livro para analisar, recebê-mo-lo 5 minutos depois em pdf.
Manuel Alberto Valente: Mas isto no ponto de vista profissional. Não me vejo a ler um romance, por prazer, num aparelho destes.
Manuel Alberto Valente: Estamos preparados para entrar com conteúdos portugueses neste tipo de suportes, mas estudos indicam que os e-books não chegarão em força a Portugal tão depressa.
Mário de Carvalho: Não estou nada preocupado com o futuro do livro. Recordo-me que o livro já foi muitas coisas.
Mário de Carvalho: O cinema é diferente, o livro vai ser diferente. A leitura, com o acesso a informação que a Internet nos dá, pode ser mais rica.
Mário de Carvalho: Os tempos mudaram, provavelmente vamos ter um livro desmaterializado.
José Afonso Furtado: Estamos numa época de mudança de paradigmas.
José Afonso Furtado: Um dos primeiros erros que se comete é pensar que a mudança só ocorre no livro.
José Afonso Furtado: Acontece no livro porque a sociedade está a mudar.
José Afonso Furtado: Os jovens de 13, 14 anos lêem de outra maneira, mas não significa que seja só por causa das tecnologias.
José Afonso Furtado: Ninguém tem avós em casa para ler histórias, não têm bibliotecas em casa,
José Afonso Furtado: A tendência para ler o fragmento e não o livro inteiro na faculdade, por exemplo, é igual, nada tem a ver com tecnologia.
José Afonso Furtado: Entraram novos agentes no mercado que têm agendas que não são próximas das agendas dos editores.
José Afonso Furtado: Os grupos que poderão condicionar o futuro editorial não são grupos editoriais. São a Amazon, a Apple e o Google.
José Afonso Furtado: A edição é um conjunto de segmentos que resultam da conjugação entre géneros, tecnologias e mercados.
José Afonso Furtado: O livro é uma leitura mainstream em determinados segmentos.
José Afonso Furtado: Se virmos a lista das maiores editoras a nível mundial, a Thomson Reuters factura principalmente em formatos digitais.
José Afonso Furtado: Para a leitura sequencial, em que não é necessário fazer anotações, estes aparelhos não trazem valor acrescentado.
José Afonso Furtado: É preciso saber distinguir as leituras.
Manuel Alberto Valente: Quando abordamos a questão do livro, nós que estamos mais ligados ao consumo da literatura temos a tendência para achar que o problema do livro é o problema do livro literário.
Manuel Alberto Valente: Houve uma altura em que a Enciclopédia era obrigatória nas casas mais ou menos cultas. Hoje em dia ninguém compra porque tem a internet como alternativa.
José Afonso Furtado: Temos muitas razões para estarmos preocupados no que diz respeito à mudança de paradigma.
José Afonso Furtado: Através do cloud computing, o que a Google e outros vão fazer é alugar o espaço às editoras. Quando compro um livro digital não estou a comprar o livro, estou a comprar o direito de acesso.
José Afonso Furtado: O que me preocupa é que estamos a entrar num modelo em que não vamos ter um livro, a não ser no servidor de terceiros que nos cedem, ao preço de um livro, o direito de acesso ao conteúdo.
José Afonso Furtado: A maior parte das publicações nos EUA pertecem a empresas europeias.
José Afonso Furtado: Os conteúdos em português vão aparecer, provavelmente, não em Portugal.
Manuel Alberto Valente: Não temos condições em Portugal para concorrer com estas empresas [Google, Amazon].







Carlos Vaz Marques: Há quem diga que uma biblioteca, dentro de alguns anos, será um museu.
Manuel Alberto Valente: Não tenho o optimismo do Manoel de Oliveira, que tem 102 anos e está preocupado com os subsídios ao cinema nos próximos dez anos.
Manuel Alberto Valente: Não nos podemos esquecer que aquilo a que chamamos livro não é o 1º suporte de leitura que a Humanidade conheceu.
Manuel Alberto Valente: Pela experiência que tenho com o Kindle, confesso que, para mim, o suporte digital não substitui o livro.
Manuel Alberto Valente: Mas, como editor, é um suporte muito útil profissionalmente.
Manuel Alberto Valente: Hoje, quando pedimos um livro para analisar, recebê-mo-lo 5 minutos depois em pdf.
Manuel Alberto Valente: Mas isto no ponto de vista profissional. Não me vejo a ler um romance, por prazer, num aparelho destes.
Manuel Alberto Valente: Estamos preparados para entrar com conteúdos portugueses neste tipo de suportes, mas estudos indicam que os e-books não chegarão em força a Portugal tão depressa.
Mário de Carvalho: Não estou nada preocupado com o futuro do livro. Recordo-me que o livro já foi muitas coisas.
Mário de Carvalho: O cinema é diferente, o livro vai ser diferente. A leitura, com o acesso a informação que a Internet nos dá, pode ser mais rica.
Mário de Carvalho: Os tempos mudaram, provavelmente vamos ter um livro desmaterializado.
José Afonso Furtado: Estamos numa época de mudança de paradigmas.
José Afonso Furtado: Um dos primeiros erros que se comete é pensar que a mudança só ocorre no livro.
José Afonso Furtado: Acontece no livro porque a sociedade está a mudar.
José Afonso Furtado: Os jovens de 13, 14 anos lêem de outra maneira, mas não significa que seja só por causa das tecnologias.
José Afonso Furtado: Ninguém tem avós em casa para ler histórias, não têm bibliotecas em casa,
José Afonso Furtado: A tendência para ler o fragmento e não o livro inteiro na faculdade, por exemplo, é igual, nada tem a ver com tecnologia.
José Afonso Furtado: Entraram novos agentes no mercado que têm agendas que não são próximas das agendas dos editores.
José Afonso Furtado: Os grupos que poderão condicionar o futuro editorial não são grupos editoriais. São a Amazon, a Apple e o Google.
José Afonso Furtado: A edição é um conjunto de segmentos que resultam da conjugação entre géneros, tecnologias e mercados.
José Afonso Furtado: O livro é uma leitura mainstream em determinados segmentos.
José Afonso Furtado: Se virmos a lista das maiores editoras a nível mundial, a Thomson Reuters factura principalmente em formatos digitais.
José Afonso Furtado: Para a leitura sequencial, em que não é necessário fazer anotações, estes aparelhos não trazem valor acrescentado.
José Afonso Furtado: É preciso saber distinguir as leituras.
Manuel Alberto Valente: Quando abordamos a questão do livro, nós que estamos mais ligados ao consumo da literatura temos a tendência para achar que o problema do livro é o problema do livro literário.
Manuel Alberto Valente: Houve uma altura em que a Enciclopédia era obrigatória nas casas mais ou menos cultas. Hoje em dia ninguém compra porque tem a internet como alternativa.
José Afonso Furtado: Temos muitas razões para estarmos preocupados no que diz respeito à mudança de paradigma.
José Afonso Furtado: Através do cloud computing, o que a Google e outros vão fazer é alugar o espaço às editoras. Quando compro um livro digital não estou a comprar o livro, estou a comprar o direito de acesso.
José Afonso Furtado: O que me preocupa é que estamos a entrar num modelo em que não vamos ter um livro, a não ser no servidor de terceiros que nos cedem, ao preço de um livro, o direito de acesso ao conteúdo.
José Afonso Furtado: A maior parte das publicações nos EUA pertecem a empresas europeias.
José Afonso Furtado: Os conteúdos em português vão aparecer, provavelmente, não em Portugal.
Manuel Alberto Valente: Não temos condições em Portugal para concorrer com estas empresas [Google, Amazon].

15 de maio de 2010

Ler em Lisboa: Jardim das Oliveiras, CCB

Espaço de lazer único na cidade de Lisboa, situado na zona Sul do Centro Cultural de Belém, com vista sobre o Rio Tejo, o Padrão dos Descobrimentos e a Torre de Belém.
O seu nome deve-se à quantidade de oliveiras centenárias que tem plantadas entre os relvados e espelhos de água.
Local público, ideal para descontrair ao som dos espectáculos de música que aí são apresentados, os das actividades para os mais novos que animam este espaço. A Cafetaria Quadrante tem uma magnífica esplanada neste jardim.

                                                                                          Fonte

Um espaço calmo com uma agradável vista para o rio, espaços relvados e uma esplanada. Para além disso, têm ao vosso dispor na proximidade do jardim, uma livraria Bertrand, uma tabacaria e uma loja de doces. O CCB dispõe também de uma sala de leitura, local relativamente desconhecido dado que se localiza no centro de reuniões (Piso 1).


Mas, se preferirem algo ainda mais reservado, podem optar pelo jardim do Museu Colecção Berardo (no lado norte do CCB, lado exactamente oposto ao do anterior jardim), geralmente menos frequentado. Recomendo também uma visita ao próprio museu, cuja entrada é gratuita.

  
De notar que, as lojas e os espaços descritos constituem apenas uma parte do que podem encontrar no CCB. Para mais informações podem recorrer ao seu website, que é regularmente actualizado de modo a apresentar toda a oferta a nível de espectáculos e exposições.

11 de maio de 2010

Debate sobre Literatura Fantástica no YouTube

O debate efectuado na 80.ª feira do livro de Lisboa encontra-se agora disponível no YouTube. Quaisquer eventos relacionados com literatura que tenha oportunidade de assistir e gravar, serão disponibilizados no canal FIIBlog.
Deixo-vos com a primeira (num total de cinco) parte do debate:

10 de maio de 2010

Entrevista com o Vampiro

Entrevista com o Vampiro
Edição/Reedição - 2010
Título Original: Interview with the Vampire (1976)
Autor: Anne Rice
Editora: Publicações Europa-América
Tradução: Teresa de Sousa Gomes
Páginas: 276
ISBN: 978-972-1-03750-2
Sinopse:
Entrevista com o Vampiro é muito mais do que um mero conto de terror. É o relato de um homem com o dom da imortalidade, que viveu durante duzentos anos como vampiro. Um homem que conta como se desligou da existência humana e se tornou um vampiro que, relutante em tirar a vida humana, sobreviveu à custa de sangue de animais.
Contudo, com o passar dos anos, acaba por adquirir todos os hábitos de um verdadeiro vampiro – a frieza, o desejo forte, o prazer sensual.
E empreende uma perigosa viagem pela Europa à procura de outros como ele, desesperado por descobrir formas de sobrevivência, mais desesperado ainda por descobrir a razão por que se tornou naquilo que é.
Fenómeno de popularidade, é estranho verificar que só agora a Europa-América decidiu reeditar o livro que foi decisivo para tornar Anne Rice numa das autoras de ficção mais lidas em todo o mundo (o valor máximo das estimativas actuais encontra-se nos 100 milhões de livros vendidos), especialmente tendo em conta toda a euforia gerada sobre qualquer publicação que envolva vampiros actualmente.(1)
A história é relatada pelo vampiro Louis, mas está longe de se limitar a uma simples exposição dos acontecimentos que constituíram a sua vida de mais de duzentos anos. Ao ler a descrição de Louis, acompanhamos os seus conflitos interiores de perto, sendo possível discernir claramente as mudanças que este sofre ao longo da narrativa. Mas o que torna tão agradável acompanhar o seu trajecto é, talvez, o facto de Louis ser extremamente humano apesar da sua qualidade de vampiro, questionando-se constantemente a nível moral. Podemos ver isso na sua incapacidade para matar seres humanos, na sua tentativa em compreender os sentimentos que floresceram após a sua transformação, na sua busca incessante por respostas.

“E, no entanto, nada me afastava da nossa busca, mas, cada vez mais comprometido como estava, pensei no risco das nossas perguntas, o risco de cada pergunta que é devidamente feita, pois a resposta poder ter um preço incalculável, um perigo trágico. Quem sabia isso melhor do que eu, que tinha assistido à morte do meu próprio corpo, vira fenecer e morrer tudo o que considerava humano, só para formar uma cadeia inquebrável, que me segurava fortemente a este mundo, tornando-me um exilado para sempre, em espectador com um coração que batia?”

Assim, um dos temas centrais, acaba por ser a gradual perda da inocência de Louis, que lentamente se vai libertando da sua melancolia e da sua sensibilidade humana, chegando, por várias vezes, a ponderar terminar com a sua vida, mas a auto-preservação acaba sempre por se sobrepor a todas as questões morais que o atormentam.
Rapidamente se denotam as visíveis diferenças entre Louis e o seu criador, Lestat. Um contraste bastante acentuado, dado que Lestat aceita plenamente a sua natureza de vampiro, deliciando-se com a morte que provoca todas as noites, e com o luxo que a riqueza adquirida através das suas capacidades sobrenaturais lhe proporciona. Grande parte da narrativa acaba por se basear no conflito provocado por tão diferentes personalidades, na sede por respostas de Louis, nos caprichos de Lestat e na sua mútua dependência.
Como seria de esperar, dada a imortalidade das personagens, estas acabam por passar por diferentes locais e épocas, sendo aqui que surge outro dos pontos fortes da autora, dado que Anne Rice nos apresenta o ambiente de uma forma capaz de nos transportar para os cenários do passado em que os vampiros se movimentam, tornando perceptíveis as mudanças inerentes à passagem do tempo. As suas descrições são ricas e envolventes, destacando-se principalmente a sua visão de Nova Orleães e de Paris.

“Tudo estava abraçado por ela, pela população volátil e encantada, que enchia as galerias, os teatros, os cafés, que fazia nascer permanentemente génios e santidade, filosofia e guerra, frivolidade e arte mais fina; portanto, parecia que se todo o mundo fora dela fosse cair na escuridão, o que era belo, o que era bonito, o que era essencial podia continuar a aparecer com as suas flores mais finas. Mesmo as árvores majestosas que embelezavam e abrigavam as ruas lhe pertenciam, e as águas do Sena, contidas e belas deslizavam através do seu coração; a terra neste local, formada por sangue e consciência, tinha deixado de ser terra e tinha-se tornado Paris.”

Ao longo do livro vamos também percebendo que, a imortalidade (talvez o maior desejo de qualquer ser humano), especialmente tendo em conta as necessidades de um vampiro para a manter, não traz apenas benefícios e que essa imortalidade acaba por não ser definitiva. Não falo aqui, das poucas formas capazes de aniquilar um vampiro, mas sim da lenta, mas inevitável auto-destruição que se opera nestes, ao longo dos séculos.

“Quantos vampiros pensa que têm a vitalidade da imortalidade? Para começar, têm as mais estranhas noções de imortalidade. Pois ao tornar-se imortais querem todas as formas da sua vida fixas como são e incorruptíveis: carruagens feitas pela última moda, roupas do último corte que lhes agradem à vaidade, homens vestidos e a falar do mesmo modo que sempre entenderam e apreciam. Quando, de facto, as coisas mudam, excepto o próprio vampiro; tudo excepto o vampiro é sujeito à corrupção constante e à distorção. Em breve, com um espírito inflexível, e muitas vezes mesmo com um espírito mais flexível, esta imortalidade torna-se uma sentença penitencial num manicómio de figuras e formas que são desesperadamente ininteligíveis e sem valor. Uma noite o vampiro levanta-se e entende que não quer mais nada da vida. Que o estilo de vida, ou a moda, ou a forma de existência que lhe tornavam a imortalidade interessante foi varrido da face da terra. E nada fica para oferecer a liberdade do desespero excepto o acto de matar. E esse vampiro sai para morrer. Ninguém encontra os seus restos. Ninguém sabe para onde ele foi. E frequentemente ninguém à usa volta, se ele ainda procurar a companhia de outros vampiros, saberá que ele está desesperado. Há muito que terá deixado de falar de si próprio ou de qualquer coisa. Desaparece.”

Apesar de todos os outros livros escritos posteriormente por Rice envolvendo estas criaturas sobrenaturais, “Entrevista com o Vampiro” continua a ser a sua obra de referência, destacando-se das influências de Bram Stoker, especialmente através do narcissismo com que dotou os seus vampiros.
(1) Permitam-me também tecer uma pequena crítica ainda relativa à Europa-América, dado que decidiu reeditar o primeiro volume de “O Vampiro Lestat” (em 2005 se não estou em erro) e, até à data, continuar sem proceder à reedição do segundo volume.
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