23 de abril de 2010

Da Destruição de Livros

Com certeza estão familiarizados com a recente polémica, inicialmente gerada pelas declarações da ministra da cultura Gabriella Canavilhas, acerca da destruição de milhares de livros por parte do grupo Leya, incluindo obras de autores como Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço e Vasco Graça Moura (ler aqui). A opinião da ministra, naturalmente amplificada pelos meios de comunicação, levou a um onda de indignação, e a reacções (no mínimo) pouco ponderadas, de entre as quais se destaca a de Miguel Esteves Cardoso (cujo texto se encontra reproduzido aqui).
Logo se levantaram as vozes a favor da doação dos livros, aparentemente a melhor medida a tomar que, na verdade, tendo em conta a conjuntura actual, está longe de o ser. Apregoar ao altruísmo alheio, quando não se suporta os custos e as consequências que daí advêm,  é algo  que muito boa gente tem feito, e que poderia ser evitado com um melhor entendimento da actual legislação, de modo compreender o que realmente leva a que, a grande maioria das editoras, acabe por recorrer à destruição de livros sem possibilidade de comercialização (algo que de resto foi muito bem esclarecido por Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes na revista Ler, na edição de Abril do presente ano). Senão vejamos:

A doação não está isenta de custos

Facto geralmente ignorado, é o de que a doação de livros não está, segundo a lei, isenta do pagamento de direitos de autor (10%), nem tão pouco do IVA (5%), duas das barreiras com que as editoras se confrontam inicialmente, isto ainda sem considerar os custos de transporte associados à doação, que vêm aumentar ainda mais os encargos que as editoras têm de suportar ao optar por esta via.

Nem todas as repercussões têm impacto financeiro a curto prazo

A doação tem consequências a nível da actividade da editora, dado que se trata de um desincentivo aos clientes (e potenciais clientes) a comprar os livros da empresa. Neste sentido, se o Estado decidisse intervir, implementando um regime que permitisse livre acesso a livros com mais de um determinado número de anos, tal medida iria levar a uma diminuição da procura, dado que seria possível esperar para obter os livros sem pagar por eles.

Reduzido período de exposição e custos de armazenagem

O elevado número de títulos editados nos dias de hoje leva a que, os livros tenham um período de destaque em termos de exposição aos clientes cada vez menor, pelo que a sua possibilidade de comercialização diminui com o tempo. Os exemplares devolvidos acabam inevitavelmente em armazém, algo que acarreta custos para a editora, sendo a destruição dos mesmos uma forma de reduzir esses custos.

Novas edições

Para ilustrar este aspecto vou citar Hugo Xavier (recomendando vivamente a leitura do seu post, que salienta outros aspectos que aqui não são tratados), quando se refere às edições destruídas pela Leya:
“(...) queria relembrar que muitos desses autores estão agora noutras editoras com edições novas e que por lei os exemplares remanescentes nas antigas editoras, dentro de semelhantes circunstâncias, devem precisamente ser destruídos! Caso contrário, prejudica-se seriamente as editoras que fizeram novos investimentos nesses autores: imagine-se que os fundos de livros de Jorge de Sena apareciam agora no mercado, isentos da lei do preço fixo, ao preço da chuva. O que sucederia aos novos livros publicados pela Babel de Teixeira Pinto?

Mais se poderia dizer sobre o assunto (muito embora a maioria dos aspectos importantes possam ser encontrados nos links disponibilizados), mas não queria terminar este post sem referir as notícias que nos chegam neste dia mundial do livro.
Assim, é com satisfação que, apesar da desproporcional polémica criada em torno deste assunto, verifico que esta funcionou como catalisador para mudanças importantes a nível de legislação, procurando viabilizar a doação de livros em detrimento da sua destruição:


Ler:
No âmbito das celebrações do Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, o Governo discutiu, hoje, em Conselho de Ministros um projecto de iniciativa legislativa que terá como objectivo criar condições para o mercado editorial alterar a prática de destruição de livros que são retirados do mercado, por terem esgotado o seu interesse comercial. Esta iniciativa reforçará o enquadramento legal de isenção de IVA para efeitos de doação de livros em excesso no mercado, permitindo uma utilização proveitosa desses livros, através do alargamento do universo de entidades que podem receber livros isentos de IVA, nomeadamente entidades culturais sem fins lucrativos, sem colocar em causa a dimensão económica de um sector em franco crescimento.

De igual modo, o Ministério da Cultura e a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) acordaram a celebração de um protocolo, cujos termos estão a ser trabalhados entre as duas entidades, visando desonerar dos encargos inerentes aos direitos de autor as doações de livros em excesso que seriam destruídos.

Com estas iniciativas, o Ministério da Cultura reafirma a convicção de que o Livro se assume como um instrumento essencial de integração cultural e de reforço no imprescindível combate à iliteracia, devendo ser visto como um motor de desenvolvimento pessoal e de desenvolvimento económico no quadro estratégico nacional. No presente ano, instituído como Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social, dever-se-á ainda sublinhar o papel do Livro, enquanto elemento que contribui para a inclusão social.

in Blogtailors
Claro que estas medidas não vêm apresentar uma solução definitiva, mas demonstram empenho por parte do Ministério da Cultura, assim como uma posição mais prudente e informada acerca da realidade editorial como se pode verificar pelas mais recentes declarações da própria ministra.


20 de abril de 2010

O Grande Deus Pã



O Grande Deus Pã

(Contos publicados entre 1884 e 1904)

Título Original: The Great God Pan
Autor: Arthur Machen
Editora: Saída de Emergência
Tradução: José Manuel Lopes
Páginas: 175
ISBN: 978-989-637-008-4 





    Marco importante na literatura fantástica, inspirando e influenciando muitos autores que se inserem nesse género, não se justifica a imerecida falta de atenção dada à obra de Machen por parte das editoras portuguesas. Felizmente a Saída de Emergência, à semelhança do que tem vindo a fazer em relação a diversos escritores, acaba por preencher o relativo vazio no que a traduções em português diz respeito.
No entanto, é preciso ter em conta que, naturalmente, não podemos ler os seus contos da mesma forma que se fazia nos finais do séc. XIX, inícios do séc. XX. O horror transmitido não causa o mesmo impacto, algo que se deve em grande parte ao grande progresso tecnológico que caracterizou o século passado, e que continua a estar presente na actualidade (talvez um tema para um post posterior, este da desmistificação que a ciência veio trazer, e as suas consequências na literatura).

Nesta edição estão traduzidos os seguintes contos:


  • ·        O Grande Deus Pã (The Great God Pan, 1984)
Iniciando-se com uma sinistra experiência numa jovem rapariga, que acaba por destruir a mente desta, este conto apresenta uma sucessão de estranhos acontecimentos que, apesar de aparentemente serem independentes uns dos outros, acabam por revelar ligações que vêm desmistificar a identidade de uma mulher que se crê estar na origem de uma bizarra série de suicídios em Londres.


  • ·        Novela da Chancela Negra (The Novel of the Black Seal, 1895)
Uma leitura especialmente interessante para quem aprecia a obra de H.P. Lovecraft, dado que é visível a influência que este conto (e, no fundo, a obra de Machen) teve sobre o trabalho de Lovecraft, nomeadamente em “The Whisperer in Darkness” (que pode ser encontrado nas antologias publicadas também pela Saída de Emergência).


  • ·        A Luz Mais Interior (The Innmost Light, 1894)
Em que o casal Black se muda para os subúrbios de Londres, vivendo felizes, pelo menos temporariamente, dado que a senhora Black desaparece por completo durante o Inverno. Tal facto é encoberto pelo marido, mas esta acaba por ser avistada através de uma janela, sendo aparente uma horrível mudança que nela se operou.


  • ·        Povo Branco (The White People, 1904)
Talvez o conto que mais apreciei, aquele que nos impele fortemente a uma reflexão sobre a própria natureza do mal, fruto da discussão entre dois homens com que se inicia. De modo a ilustrar os seus argumentos, um dos intervenientes acaba por revelar um diário que tem na sua posse, relatando as impressões de uma jovem, que acabam por ser o ponto central deste Povo Branco.

Trata-se de um boa selecção mas, apesar do que foi dito até agora devo salientar que a escrita de Machen não está isente de falhas, longe disso. De facto, os seus contos apresentam diversos problemas a nível de narrativa, que se desenvolve em grande parte através do uso da coincidência. Muito embora tal abordagem permita criar uma progressão que se assemelha a um pesadelo, em que independentemente das opções tomadas pelas personagens estas caminham sempre de encontro ao mistério, o uso recorrente da coincidência acaba por empobrecer alguns dos contos.
Para além destes aspectos, Machen peca também pela caracterização das personagens que é bastante elementar, tornando-as bastante desinteressantes por vezes.
Mas, apesar destes pontos negativos, a obra de Arthur Machen não deixa de ser uma leitura recomendada, especialmente aos adeptos do fantástico e do horror. Não se vão arrepender ao entrar num ambiente único em que o mistério e o terror se entrelaçam...em que paisagens atractivas encobrem, com a sua beleza, forças que a compreensão humana não consegue atingir.

10 de abril de 2010

Uma Casa na Escuridão



Uma Casa na Escuridão
2002


Título Original: Uma Casa na Escuridão
Autor: José Luís Peixoto
Editora: Temas e Debates
Páginas: 251
ISBN: 972-759-369-0



Sinopse:
“A casa vive um mês por ano na escuridão.
O escritor está fechado na casa, no seu mundo. A escrita e a mulher amada brotam de um único lugar onírico, luminoso. Na casa vivem também uma mãe embrutecida pela dor, uma escrava silenciosa, uma multidão de gatos que se apropriam do espaço e dos humanos que o habitam.
O mundo fora da casa é um país que vive na impassibilidade das regras estabelecidas, arrastado pela inércia, depurado pelas prisões, embalado pela literatura. Mas eis que chegam os invasores e, com eles, a escuridão absurda da barbárie que aquela civilização já não sabe como encarar nem combater. A casa transforma-se então num asilo de seres mutilados, violados, brutalizados quotidianamente. Mas é também, ainda, um jardim: o jardim de infância dos filhos dos invasores.
Amputado na sua capacidade de escrever, sonhar e amar, o escritor é salvo da morte em vida apenas pela força amorosa das crianças, transportado para o absoluto pelo manto unificador da podridão que se abate sobre todos os humanos, invasores e invadidos.




Podendo ser lido como uma magistral alegoria do fim de uma civilização que é, sem dúvida, a nossa ou como uma denúncia, violenta na sua doçura, da barbárie que nos submerge sem que nos demos verdadeiramente conta. Uma Casa na Escuridão é um romance onde José Luís Peixoto consegue um equilíbrio miraculoso entre o pensamento do negrume que nos ameaça enquanto espécie e o júbilo da ternura que nos resgata e que resgata, sempre, a escrita do autor para um espaço verdadeiramente intocado e novo.”



José Luís começou a escrever Uma Casa na Escuridão em 2001, denotando-se uma forte influência dos atentados terroristas de 11 de Setembro do mesmo ano, assim como do consequente clima de guerra no Iraque, algo que o monótono ambiente em que a narrativa se inicia não torna visível, pelo menos temporariamente. É nesta aparente calma que o escritor, personagem principal, vê nascer dentro de si uma mulher que para sempre irá amar. Uma mulher que não só preenche a sua vida como se torna o tema central da sua escrita. O único tema da sua escrita.

“A noite desceu na janela. A minha mão direita começou a tremer. Sentei-me à escrivaninha, segurei a esferográfica e escrevi o seu rosto, a beleza magnífica. E estávamos mais próximos do que se fôssemos duas pessoas ao lado uma da outra, porque ela estava dentro de mim e eu estava dentro dela dentro de mim.”

Assim, Uma Casa na Escuridão é, essencialmente um romance intermitente, ora nos brindando com breves mas sublimes momentos, ora apresentando um sofrimento, uma dor capaz de eclipsar qualquer instante de felicidade.
A passagem do tempo é peça chave na atmosfera criada, evidenciando a fugacidade dos já referidos momentos de felicidade e fortalecendo a dimensão do sofrimento que é descrito ao longo da obra.

“O tempo passa depressa quando queremos sentir cada instante. O tempo passa lentamente quando se espera. O tempo passa ainda mais lentamente quando já não se espera nada, quando já não há nada a esperar.”

Outra característica presente ao longo não só deste livro, mas também da obra de José Luís, é a ausência de nomes próprios, algo comum dentro do realismo mágico em que este romance se insere, permitindo uma abrangência, uma universalidade que de outra forma não poderia ser atingida.
Para além da noção do tempo e da ausência de nomes, Peixoto recorre por diversas vezes à repetição de palavras de modo a enfatizar as sensações ilustradas ao longo do romance. Tal ferramenta contribui, de facto, para nos fazer sentir com maior intensidade, apesar de o seu uso ser um pouco excessivo, o que por vezes acaba por afastar alguns leitores, especialmente aqueles que têm contacto com o estilo de José Luís pela primeira vez.

“O medo existe dentro do terror, muito perto do terror, como os homens existem muito perto de perder tudo. O medo, muito perto do terror, é um silêncio de homens e de mulheres que existe no momento em que todos, homens e mulheres, percebem que existem muito perto de perder tudo.”

Apesar do medo, do sofrimento, da mágoa, da infelicidade, tal como em Nenhum Olhar, este romance, no fundo, trata de esperança, demonstrando que mesmo na escuridão mais cerrada existe sempre uma luz capaz de a rasgar, e que mesmo que essa luz venha, inevitavelmente, a perecer para a escuridão, a memória da felicidade permanece para sempre gravada nos nossos corações, imune ao negrume que nos envolve.

“Não se deve ter vergonha de se ser feliz por momentos. Não se deve ter vergonha da memória de se ser feliz por momentos.”










“A casa vive um mês por ano na escuridão.

O escritor está fechado na casa, no seu mundo. A escrita e a mulher amada brotam de um único lugar onírico, luminoso. Na casa vivem também uma mãe embrutecida pela dor, uma escrava silenciosa, uma multidão de gatos que se apropriam do espaço e dos humanos que o habitam.
O mundo fora da casa é um país que vive na impassibilidade das regras estabelecidas, arrastado pela inércia, depurado pelas prisões, embalado pela literatura. Mas eis que chegam os invasores e, com eles, a escuridão absurda da barbárie que aquela civilização já não se sabe como encarar nem combater. A casa transforma-se então num asilo de seres mutilados, violados, brutalizados quotidianamente. Mas é também, ainda, um jardim: o jardim de infância dos filhos dos invasores.
Amputado na sua capacidade de escrever, sonhar e amar, o escritor é salvo da morte em vida apenas pela força amorosa das crianças, transportado para o absoluto pelo manto unificador da podridão que se abate sobre todos os humanos, invasores e invadidos.


Podendo ser lido como uma magistral alegoria do fim de uma civilização que é, sem dúvida, a nossa ou como uma denúncia, violenta na sua doçura, da barbárie que nos submerge sem que nos demos verdadeiramente conta. Uma Casa na Escuridão é um romance onde José Luís Peixoto consegue um equilíbrio miraculoso entre o pensamento do negrume que nos ameaça enquanto espécie e o júbilo da ternura que nos resgata e que resgata, sempre, a escrita do autor para um espaço verdadeiramente intocado e novo.”

1 de abril de 2010

Cadernos da Casa Morta


Cadernos da Casa Morta
1860-1862

Título Original: Zapísski iz Miórtvogo doma
Autor: Fiódor Dostoiévski
Editora: Editorial Presença
Tradução: Nina Guerra e Filipe Guerra
Páginas: 284
ISBN: 972-23-2997-9

Sinopse:
“Cadernos da Casa Morta reflectem uma realidade quase dantesca, onde presos políticos, prisioneiros de guerra e presos de delito comum, vivem lado-a-lado com homens que perpetraram crimes hediondos. É «um mundo absolutamente à parte», uma micro-sociedade com regras próprias onde o quotidiano se reparte entre os trabalhos forçados, os castigos sádicos, a miséria, o mercado negro, o álcool e os pequenos expedientes de que os prisioneiros se servem não só para sobreviverem, mas para usufruírem da ilusão de fugazes momentos de «liberdade»... Privado de livros e de papel, Dostoiévski redige as suas notas em materiais que consegue recolher e que lhe permitem registar apontamentos de um realismo impressionante e de uma poderosa vitalidade, a par das suas reflexões pessoais sobre a natureza humana. Escrito em tom confessional, sóbrio e directo, este relato fica, para quem o lê, como um grandioso hino à vida.”

Cadernos da Casa Morta é, essencialmente, fruto da experiência pela qual Dostoiévski passou na Sibéria durante quatro anos, após ter sido exilado (1850-1954). Num período conturbado por agitações revolucionárias e fazendo Dostoiévski parte de um grupo intelectual liberal, uma denúncia por actividades políticas ilegais leva a que venha a ser condenado à morte. Tal sentença acaba por ser comutada em exílio e trabalhos forçados sendo, no entanto, tal mudança comunicada perante um pelotão de fuzilamento numa execução simulada. Como seria de esperar, tais acontecimentos vieram a marcar a personalidade do escritor, o que, inevitavelmente, teve consequências nos seus trabalhos posteriores.
Ao longo desses penosos anos, Dostoiévski pôde observar uma realidade bastante diferente, pelo que neste livro estão patentes as conclusões que retirou, não só relativamente ao sistema prisional, à dureza dos castigos, mas também, no que diz respeito à personalidade dos que o rodeavam. Analisando esse ambiente de mente aberta, livrando-se de juízos precipitados, o autor retrata de forma pormenorizada o novo mundo em que foi inserido forçosamente, demonstrando o quanto é possível aprender mesmo com o mais simples dos homens.

“Basta raspar a casca exterior, artificial e olhar o cerne de mais perto, com atenção e sem ideias preconcebidas e então poderemos ver no povo coisas que nem sequer imaginávamos. Os nossos sábios não têm muito para ensinar ao povo. Posso, mesmo, afirmar: eles próprios, pelo contrário, têm muito a aprender com ele.”

Obrigado a conviver com todo o tipo de criminosos, de diferentes nacionalidades, costumes e religiões, torna-se possível observar particularidades que não são visíveis em liberdade. Tamanha variedade entre os presidiários leva a uma procura por classificar em grupos os seus companheiros prisionais, tendo em conta as variáveis já referidas, assim como as especificidades dos indivíduos em questão, mas ele próprio acaba por duvidar que tal tarefa seja possível:

“Porém, será possível fazer-se o que estou a tentar fazer agora: dividir os habitantes de uma prisão em categorias? A realidade é infinitamente mais variada do que todas as conclusões do pensamento abstracto, por mais sofisticadas que sejam, e não suporta classificações forçadas e generalizadas. Também nós tínhamos a nossa vida individual, por mais humilde que fosse; não vivíamos só a vida oficial, mas também uma vida interior, só nossa.”

As histórias que nos vão sendo descritas ao longo do livro, apenas reforçam essa ideia. Embora seja fácil identificar vários traços comuns, alguns fruto da vivência em grupo, a realidade é que cada individuo possuí um carácter único, e ao generalizar corre-se o risco de julgar erradamente, chegar a conclusões que não correspondem de todo à verdade. De resto tais generalizações são criticadas pelo próprio autor, que procura desmistificar, sempre que possível, considerações do género.
Mas Cadernos da Casa Morta retrata não só a realidade que envolve o narrador, mas também os sentimentos interiores, as suas mágoas pessoais, as dificuldades que este teve de suportar.

“Lembro-me de que todos esses anos, tão semelhantes uns aos outros, passavam mole e tristemente. Lembro-me de que todos esses longos e enfadonhos dias eram tão monótonos como as gotas de água a pingarem do telhado depois da chuva. Lembro-me de que apenas o desejo de renovação, de renascimento para uma nova vida me dava forças para ter paciência e não perder as esperanças.”

Uma ânsia de liberdade que era partilhada por todos os presidiários, que independentemente do seu tempo de pena e da sua idade, sonhavam inocentemente com uma nova vida, mesmo que a realidade ditasse que tal seria impossível.
De notar que, ao contrário do que seria de esperar, a prisão teve também aspectos benéficos, possibilitando uma introspecção que provocou mudanças na forma de pensar, na forma de ser de Dostoiévski.

“Lembro-me de que, durante todo esse tempo, apesar de estar com centenas de companheiros, me sentia muito solitário e acabei por me afeiçoar a essa solidão. Espiritualmente solitário, revia toda a minha vida passada, recordava tudo até ao último pormenor, analisava o meu passado, julgava-me a mim mesmo, severa e implacavelmente, e às vezes até abençoava o destino por me ter mandado tal solidão, sem a qual não seria possível esse julgamento de mim próprio nem a revisitação severa da minha antiga vida.”

Apesar de tudo, se tivesse de reter uma ideia chave, de extrair uma conclusão principal deste livro, seria a de que o homem é um animal de hábitos, em que mesmo as mais duras privações e as mais sólidas esperanças, ainda que apoiadas por uma determinação aparentemente forte, nem sempre se tornam suficientes para mover as fundações da personalidade humana, para modificar a forma de ser de alguém. Como é fácil nos perdermos nas ilusões que nós próprios criamos.
Sem dúvida uma obra que deve estar na prateleira de qualquer apreciador de Dostoiévski.
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