6 de dezembro de 2010

Eu sou a Lenda - Richard Matheson


Eu sou a Lenda
2007 (Data original de publicação: 1954)

Título Original: I am Legend
Autor: Richard Matheson
Editora: Saída de Emergência
Tradução: Fernando Ribeiro
Páginas: 160
ISBN: 9789896370152

Único sobrevivente de uma praga cujos efeitos se assemelham ao vampirismo, Robert Neville subsiste apesar das dificuldades, matando vampiros de dia e barricando-se em casa de noite, tentando não só proteger-se das insaciáveis criaturas, mas também manter a sua própria sanidade.

O livro diferencia-se pela sua abordagem científica em detrimento dos fundamentos mitológicos que normalmente suportam as histórias de vampiros, algo que, no entanto, levou a uma desactualização acentuada pelo avanço da ciência desde a sua publicação original em 1954. Apesar disso, as falhas na explicação do vírus não são facilmente identificáveis, sendo as alterações sociais o factor que revela de forma mais evidente a antiguidade da obra.
  “A força do vampiro vem do facto de ninguém acreditar nele.” Muito obrigado, Dr. Van Helsing, pensou enquanto pousava a sua cópia do “Drácula”. Estava sentado olhando melancolicamente para a estante dos livros, ouvindo o segundo concerto para piano de Brahms, um whisky sour na sua mão direita, um cigarro nos lábios.
Era verdade. O livro era uma mistela de superstições e clichés romanescos, mas aquela frase era verdadeira; ninguém tinha acreditado neles, e como poderia alguém lutar contra algo em que não acreditava?
A escrita simples (por várias vezes monótona) enfatiza a repetitiva rotina de Neville, uma existência entre a solidão e o horror que o arrasta para um estado de desespero, algo que procura contrariar através do álcool. Assolado pelo passado do qual não se consegue libertar e pela ausência de perspectivas futuras, é ao atingir o limiar da loucura que Neville decide enfrentar a situação, investigando a origem do vírus que destruiu o mundo que conhecia.
  Este pensamento recordou-lhe outra vez o enigma inexplicável de porque é que ele continuava. Tudo bem que havia agora algumas hipóteses que tinha de experimentar mas a sua vida ainda era uma provação estéril e sem alegrias. Apesar de tudo quanto possuía ou viria a possuir (à excepção, claro, de outro ser humano), a vida não lhe dava nenhumas garantias de que iria melhorar ou até mudar. Da maneira como corriam as coisas, viveria a sua vida com pouco mais do que aquilo que agora já tinha. E por quantos anos? Trinta, quarenta se não se matasse com a bebida entretanto.
A ideia de que ainda tinha mais quarenta anos para viver dava-lhe arrepios.
E, no entanto, não se matava.
É através deste cenário desolador em que o protagonista, qual Robinson Crusoe, se vê rodeado por um mar de vampiros, que Richard Matheson consegue abordar temas como o efeito psicológico da solidão, a tristeza resultante da perda de entes queridos, o choque entre a moral e o instinto de sobrevivência e, com especial importância na explicação de alguns efeitos do vírus, a influência das crenças e superstições na psique humana. O desenvolvimento destes temas apela fortemente às nossas emoções, cativando o leitor de forma inesperada tendo em conta o monótono início.
  Num mundo em que o terror era a regra, a redenção não viria por ele sonhar mais ferozmente. Ao terror, conseguia adaptar-se. Mas a monotonia, tomava agora, tardiamente, consciência, era o maior dos obstáculos. Tê-lo compreendido trouxera-lhe uma espécie de paz de espírito, uma noção de que tinha deposto todas as cartas sobre uma mesa mental, examinando-as, e escolhendo, em consciência, o naipe desejado.
De forma lenta mas gradual, a história ganha força (contrastando com o declínio de Neville, através da degradação das suas aptidões sociais), culminando numa inversão de papéis que estilhaça, de forma assustadora, a ilusão que temos da nossa importância, principal base da nossa arrogância.

Apesar do peso dos anos, Eu sou a Lenda continua (e arriscaria mesmo dizer que continuará) a ser uma obra memorável e perturbadora.

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