16 de novembro de 2010

Os Nossos Antepassados, Italo Calvino


Os Nossos Antepassados
1997 (Data original de publicação: 1952-1959)

Título Original: I Nostri Antenati
Autor: Italo Calvino
Editora: Círculo de Leitores
Tradução: José Manuel Calafate e Fernanda Ribeiro
Páginas: 435
ISBN: 972-42-1533-4
 “Recolho neste volume três histórias que escrevi no decénio 1950-1960 e que têm em comum o facto de serem inverosímeis e de decorrerem em épocas distantes e em terras imaginárias.”
Na trilogia Os Nossos Antepassados, Italo Calvino procura, enveredando pelo género fantástico, analisar de uma posição privilegiada as relações sociais, políticas e morais que o ser humano estabelece e, sobretudo, observar as suas diferentes formas de auto-realização, tema transversal às três histórias.
 “Quando eu estava inteiro, todas as coisas me pareciam naturais e confusas, estúpidas como o ar; julgava ver tudo e afinal distinguia apenas a superfície. Se alguma vez tu vieres a ficar reduzido a metade de ti mesmo, e faço votos para que assim seja, meu rapaz, compreenderás então muitas coisas para além da vulgar inteligência dos cérebros inteiros. Terás então perdido metade do mundo e de ti mesmo, mas a metade que restará será mil vezes mais profunda e preciosa.”
Em O Visconde Cortado ao Meio, Medardo de Terralba em combate contra os turcos é mutilado por um tiro de canhão que o divide em duas metades, incidente cujas repercussões se manifestam não só a nível físico, mas também a nível moral, dado que uma metade demonstra uma invulgar crueldade, enquanto que a outra manifesta uma bondade extrema. Tal contraste realça a perda da harmonia inicial, perda essa que provoca uma ânsia por uma nova completação que serve como principal motor da narrativa. Essa clivagem, no entanto, não se restringe a Medardo, aplicando-se também a certas personagens e grupos sociais, reflectindo tanto o ambiente de tensão sentido no período em que o autor escrevia (em plena Guerra Fria), como temas caros à sociologia, como é o caso da alienação do homem na vida em sociedade.
Um conto em que de forma simples, que por vezes se confunde com ingenuidade, Calvino estilhaça as falsidades com que o homem se encobre, revelando-nos a sua verdadeira natureza.
 “Dir-se-ia que ele, quanto mais se decidia a viver completamente isolado nos seus ramos, maior necessidade sentia de criar novas relações entre si próprio e o género humano. Mas por mais que se dedicasse, de alma e coração, a organizar uma nova sociedade, estabelecendo-lhe meticulosamente os estatutos, a finalidade, e escolhendo com cuidado os homens mais dotados e capazes para desempenhar todos os cargos, nunca os seus companheiros sabiam, contudo, até que ponto podiam contar com ele, quando, como e onde poderiam encontrá-lo ou quando ele, imprevisivelmente, se sentiria preso pela sua natureza de pássaro livre e não se deixaria mais apanhar por ninguém.”
O Barão Trepador apresenta-nos o jovem Cósimo que decide voluntariamente viver sobre as árvores. Tal decisão não deve ser confundida com uma fuga da sociedade, como um mero isolamento da realidade, porque Cósimo, apesar da solidão inerente ao estilo de vida que escolheu, adopta uma postura mais activa, estabelecendo diversas relações com as pessoas da região. Esta auto-imposição define Cósimo, que pela sua singular determinação e disciplina se destaca dos demais, atingindo assim a plenitude que Medardo nunca veio a alcançar.
Ao contrário de O Visconde Cortado ao Meio, neste romance Calvino estabelece várias relações com personagens e acontecimentos históricos do séc. XVIII, tais como Napoleão e Voltaire, muito embora mantenha a natureza imaginária do relato.
Um triunfo da excentricidade sobre os valores pré-estabelecidos, preenchido pelos insólitos acontecimentos da vida do barão, mas que se alonga demasiado, fazendo lembrar o velho Bilbo Baggins ao descrever como se sentia antes de partir para sempre de Hobbiton (“sort of stretched ... like butter that has been scraped over too much bread”).
“Ele, Agilulfo, tinha sempre necessidade de sentir perante si as coisas como um espesso muro, ao qual contrapunha a força da sua vontade. Só assim conseguia manter uma segura consciência de si mesmo. Se, pelo contrário, o mundo que o envolvia se espumava, se tornava incerto, ambíguo, então também ele se sentia imergir na doce penumbra, e não conseguia mais fazer brotar, deste vazio, um pensamento distinto, um movimento voluntário, uma ideia fixa.”
Finalmente, em O Cavaleiro Inexistente, encontramos o guerreiro Agilulfo, personagem incorpórea representando a “inexistência dotada de vontade e consciência”, e o invulgar Gurdulù, que apesar da sua existência física, é privado da consciência da sua individualidade. Representando pólos extremos e opostos, servem de base para a busca das restantes personagens (e de todos nós?), a busca de uma identidade, “a conquista do ser”. Entre estas considerações, entrelaçam-se duas sequências temporais, assim como um subtil exame do processo de escrita e das suas contradições.
De entre as três narrativas é, porventura, a mais linear, mas também aquela que proporciona um leque mais variado de interpretações.

Tipicamente reconhecido pelo seu lado neo-realista, Italo Calvino consegue, através do fantástico, evidenciar traços que nos ligam aos nossos antepassados, características intemporais que nos definem e dão sentido à nossa existência.
 “A arte de escrever histórias está no saber tirar das pequenas coisas, que se apanham da vida todo o resto; mas acabada a página retorna-se à vida e apercebemo-nos de que o que sabíamos era o mesmo que nada.”

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