10 de novembro de 2010

Fahrenheit 451, Ray Bradbury


Fahrenheit 451
2003 (Data original de publicação: 1953)

Autor: Ray Bradbury
Editora: Público, Colecção Mil Folhas
Tradução: Mário Henrique Leiria
Páginas: 159
ISBN: 84-96200-92-2


  “Era um prazer muito especial ver as coisas arderem, vê-las calcinar-se e mudar.
Punho de cobre na mão, armado desse imenso piton que cuspia o veneno da sua gasolina sobre o mundo, sentia o sangue bater-lhe nas têmporas e as suas mãos tornavam-se as mãos de uma espécie de maestro prodigioso dirigindo todas as sinfonias do fogo e do incêndio, ao ritmo das quais se desmoronavam os farrapos e as ruínas carbonizadas da história.”
Assim começa Fahrenheit 451, através deste acto de destruição que dá sentido à existência do bombeiro Guy Montag, num futuro em que o objectivo da profissão degenerou para a queima de livros, cuja posse e leitura é totalmente proibida. Essa drástica mudança só pode ser compreendida tendo em conta a sociedade que Bradbury nos apresenta, uma sociedade industrializada em que a influência tecnológica se expandiu, simplificando ao extremo a vida das pessoas e corrompendo totalmente o seu espírito crítico. Neste mundo, o ser humano é encorajado à acção e, em contrapartida, levado a por de lado toda a complexidade inerente às emoções, a eliminar qualquer pensamento que possa causar ou ser associado a infelicidade.
  “As aulas tornam-se mais curtas, a disciplina é relaxada, a filosofia, a história, as línguas abandonadas, o inglês e a sua pronúncia abastardados pouco a pouco e, finalmente, quase ignorados. Vive-se no imediato. Apenas conta o trabalho e, após o trabalho, a dificuldade da escolha de uma distracção. Para quê aprender qualquer coisa, além de carregar botões, ligar comutadores, enroscar parafusos e porcas?”
E, ao contrário do que seria de esperar, tal corrupção do modo de pensar deu-se, não por imposição política, mas devido ao progresso tecnológico, à exploração do factor massa e à pressão exercida pelas diversas minorias num mundo sobrepovoado. Neste estado de felicidade artificial, os livros são substituídos por formas mais imediatas de entretenimento como a televisão e o desporto, e em que quaisquer diferenças capazes de suscitar conflitos são eliminadas, levando à homogeneização da sociedade, algo que permite manter esse ilusório estado de contentamento em que a humanidade se vê mergulhada.
  “Devemos ser todos parecidos uns com os outros. Ninguém nasce livre e igual aos outros, como diz a constituição, mas cada um é modelado conforme os outros; todo o homem é a imagem do seu semelhante e, assim, toda a gente fica satisfeita. Já não existem montanhas para esmagar os vizinhos e provocar comparações.”
É ao estabelecer contacto com uma jovem e estranha rapariga que Montag começa a questionar-se, a ponderar sobre o significado da sua vida e, eventualmente, apercebe-se do estado de completa alienação em que se encontrava. Tal revelação desperta emoções reprimidas, como o medo e a insegurança, mas ao mesmo tempo permite que a razão triunfe sobre o mero instinto, dotando-o de uma liberdade intelectual que nunca tinha sentido antes.

Mais de 50 anos após a sua primeira edição, Fahrenheit 451 permanece assustadoramente actual, colocando uma inquietante questão:
Precisamos de nos auto-destruir para mudar o nosso rumo? Será que possuímos a capacidade e inteligência necessárias para corrigir os nossos erros, ou teremos de perecer para que outros tomem as rédeas do futuro da humanidade?
Se por um lado Bradbury permite um lampejo de esperança nesta sua distopia (ao contrário do que acontece em 1984 de Orwell ou Admirável Mundo Novo de Huxley), o preço a pagar por essa ténue hipótese de renovação foi bastante alto.
  “Granger olhou fixamente as chamas.
- A Fénix – disse.
- O quê?
- Era um pássaro estúpido, muito anterior a Cristo; todos os cem anos fazia uma fogueira e carbonizava-se. Devia ser um dos próximos parentes do homem. Mas, cada vez que se consumia, ressurgia das chamas e de novo nascia. Tenho a impressão que fazemos o mesmo, mas com uma vantagem sobre a Fénix: sabemos perfeitamente o que fazemos. Sabemos perfeitamente o que fizemos durante séculos e, se não o esquecemos, se guardamos consciência disso, temos uma oportunidade de renunciar um dia a construir essas fogueiras para nos lançarmos nelas. A cada geração, reunimos novos homens que se recordam.”
Em poucas páginas, com um discurso fluído e simples, em que o autor peca apenas pelo uso abusivo da metáfora (algo que o próprio admite), Ray Bradbury criou um livro cuja mensagem ecoará através dos tempos, num eterno e poderoso aviso acerca do perigo da ignorância e, ao mesmo tempo, encorajando os seus leitores a trilhar o caminho do conhecimento.
“É isto que o homem tem de maravilhoso. Ele nunca perde a coragem, nunca se desilude ao ponto de tudo abandonar, pois conhece muito bem a importância e a grandeza da sua tarefa.”

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