18 de outubro de 2010

Livro, José Luís Peixoto


Livro
2010

Autor: José Luís Peixoto
Editora: Quetzal
Páginas: 264
ISBN: 978-972-564-899-5

“(...) sinto, à partida, que um romance, por natureza, não deve ambicionar ser o óbvio que se espera dele. Sinto que este romance é a muitos títulos bastante ambicioso, mas também os anteriores, à sua medida, o eram. Essa ambição é que faz mover o mundo, é que fez os portugueses fazerem aquela viagem, é que faz com que se vá para além do que é expectável.”

                        JLP em entrevista para a revista Ler
No seu mais recente romance, cujo título é simultaneamente o nome do narrador personagem, José Luís desprende-se do registo surreal de Nenhum Olhar e Uma Casa na Escuridão. O romance divide-se em duas partes, apresentando a primeira uma perspectiva realista, que se foca no tema da emigração portuguesa, enquanto que a segunda é de natureza experimental, bastante diferente em termos de tom e estrutura, transformando a percepção que o leitor tem do livro.
  “O Ilídio continuava a rir-se. Então, houve um momento em que ficaram parados. O sorriso de um crescia e puxava o sorriso do outro, que também crescia. Era como se fosse o sol, um sol, que crescesse e essa luz os iluminasse de novo com os seus próprios nomes, com Ilídio e com Josué, e assim voltassem a ser o melhor de tudo o que tinham sido quando estavam juntos, criança e homem, rapaz e homem, homem e homem. Apagava-se a despedida, a falta dissolvia-se.”
Livro evidencia uma maior destreza narrativa por parte do autor, que alterna entre a ruralidade portuguesa e o ambiente urbano de Paris, contraste estabelecido não só em termos da diferença de costumes, mas também a nível de linguagem, ora nos brindando com expressões populares, ora introduzindo alguns dos estrangeirismos originados pela mistura de culturas, aspecto que considera ser uma marca importante da história de um povo.
Apesar da referida predominância do realismo, Peixoto recorre pontualmente ao fantástico, como na inclusão de uma mulher-lobo na viagem dos emigrantes, uma simbólica representação do aproveitamento de que são alvo por parte dos passadores.
“Ao fixar o reflexo dos meus olhos no espelho, já me pareceu muitas vezes que está outra pessoa dentro deles. Observa-me, julga-me, mas não tem voz para se exprimir. Será talvez eu com outra idade, criança ou velho: inocente, magoado por me ver a destruir todos os seus sonhos; ou amargo, a culpar-me pela construção lenta dos seus ressentimentos. Seria melhor se tivesse palavras para dizer-me, mas não. Só aquele olhar lhe pertence. É lá que estou prisioneiro.”
A segunda parte marca uma mudança drástica relativamente à primeira, dado que José Luís procura fazer com que o romance fale de forma directa com o leitor, assim como atingir, dentro do possível, uma condensação de várias tradições literárias. Mas, se esses objectivos são atingidos, a extensão desta secção experimental acaba por desviar a atenção das principais ideias que povoam a parte que a antecede. Tal não é, no entanto, suficiente para manchar a excelência atingida nas primeiras 204 páginas.

Diz Miguel Real no Jornal de Letras que, “com Livro, se inicia a maturidade literária de um grande escritor”. Eu diria que se denota uma maior confiança e ponderação, mas também me parece que com este romance se desvanece, em grande parte, a magia que envolvia os seus primeiros trabalhos. Um José Luís Peixoto diferente é certo, mas que sem dúvida vale a pena conhecer.
  “Prefiro ignorar aquilo que toda a gente está a ler. Para o bem e para o mal, tenho tempo. Acalento a imagem de leitor solitário, único leitor de páginas que as multidões já esqueceram. Concedo-me o direito de fruir as minhas ilusões, se for por consciência, não é por ingenuidade.”

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