2 de outubro de 2010

Clube de Combate, Chuck Palahniuk


Clube de Combate
2008 (Data original de publicação: 1996)

Título Original: Fight Club
Autor: Chuck Palahniuk
Editora: Casa das Letras
Tradução: Maria Dulce Guimarães da Costa
Páginas: 2007
ISBN: 978-972-46-1821-0

  “We need to be more comfortable and more accepting of chaos, and things that we see as disastrous. Because it is only through those things we can be redeemed and change. We should welcome disaster, we should welcome things that we generally run away from. There is a redemption available in those things that is available nowhere else.”

     Chuck Palahniuk
Geralmente reconhecido pela sua adaptação cinematográfica, que se veio a tornar num filme de culto, Clube de Combate representa uma perspectiva masculina da vida em sociedade no final do séc. XX.
Se o filme nos apresenta um enredo racionalizado, um encadeamento de ideias mais ordenado, o livro impressiona através do seu estilo fora do comum, quase tão caótico como a mente do seu protagonista. Apesar das semelhanças, proporcionam experiências diferentes (assim como diferentes finais), pelo que a visualização do filme não é motivo para desencorajar a leitura do livro.
  “Não há nenhum sítio onde estejas tão vivo como no clube de combate. Quando és apenas tu e o outro tipo debaixo daquela única luz no meio de toda aquela gente a assistir. O clube de combate não tem nada a ver com ganhar ou perder combates. O clube de combate não tem nada a ver com palavras.”
A história é relatada na primeira pessoa, através da mente retorcida do protagonista que sofre de insónia e de crescentes sintomas de esquizofrenia, cujo nome nunca nos é revelado. A nível narrativo, Palahniuk opta por uma abordagem minimalista que se distingue pelo uso de frases curtas e de um vocabulário limitado que, apesar de aproximar o discurso da realidade, leva a que o conteúdo se torne bastante repetitivo. Se por um lado este aspecto combina com o carácter paranóico do narrador, por outro, acaba por diluir o impacto das ideias subjacentes ao livro.
  “Depois de uma noite no clube de combate, tudo no mundo real fica com o som desligado. Não há nada que te consiga chatear. A tua palavra é lei e se as outras pessoas desrespeitam essa lei ou te põem em causa, mesmo isso não te chateia.”
Apesar da multiplicidade de influências filosóficas que podem ser apontadas (das quais se destaca o existencialismo e o niilismo), é também possível encontrar algumas referências sociológicas, nomeadamente no que se refere ao conceito de alienação. Neste sentido, o autor vai ao encontro da visão de Marx Weber, para o qual o império da razão não é condição suficiente para uma maior autonomia e liberdade dos indivíduos, considerando que, antes pelo contrário, os meios racionais aos quais o homem recorre para atingir os seus objectivos acabam por se sobrepor a estes últimos. Sob estas circunstâncias, o homem torna-se estranho a si mesmo, quer porque não se identifica nas suas obras, quer porque perdeu o domínio que lhe permitia preservar a sua identidade. Um exemplo concreto disso mesmo pode ser encontrado no regime de obediência estrita em que vivem os trabalhadores retratados no livro, assim como na predominância da objectividade sobre valores subjectivos como os sentimentos pessoais.
Assim, os clubes de combate funcionam como uma escapatória a esse processo de alienação, permitindo que os seus participantes se possam libertar da postura submissa em que vivem, refluindo sobre a sua própria subjectividade de modo a encontrar um significado genuíno para a sua vida.
  “Tens uma turma de homens e mulheres, jovens e fortes, que querem dar as suas vidas por qualquer coisa. A publicidade faz com que esta gente ande atrás de carros e de roupas de que não precisa. Gerações inteiras têm estado a trabalhar em empregos que odeiam só para poderem comprar aquilo de que, na realidade, não precisam nada.
Não temos uma grande guerra na nossa geração, nem uma grande depressão, mas temos uma grande guerra do espírito. Temos uma grande revolução contra a cultura. A grande depressão é as nossas vidas. Temos uma depressão espiritual.”
É também evidente uma forte crítica ao consumismo, à tentativa vã de preencher o vazio das nossas vidas através de objectos materiais, como se estes nos definissem como seres humanos, quando tal não poderia estar mais longe da verdade.

Se a eficiência das ferramentas utilizadas por Palahniuk é questionável, não é menos verdade que este não se deixa prender pelo que é convencional, e que através da sua inteligente ironia oferece uma leitura refrescante e provocadora.

  “Um minuto era suficiente, disse o Tyler, uma pessoa tinha de trabalhar muito para o conseguir, mas um minuto de perfeição valia o esforço. Um instante era o máximo que alguma vez podíamos esperar da perfeição.”

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