23 de setembro de 2010

Sinfonia em Branco, Adriana Lisboa

Sinfonia em Branco
2004 (Data original de publicação: 2001)

Autor: Adriana Lisboa
Editora: Círculo de Leitores
Páginas: 230
ISBN: 972-42-3128-3



   "Interessou-me retratar sentimentos que ultrapassam a questão do género, do sexo, da classe social, até talvez da nação, investigar emoções que são compreendidas pela humanidade."
     Adriana Lisboa em entrevista para a Os Meus Livros
Natural do Rio de Janeiro, Adriana Lisboa é, até à data, a única mulher que recebeu o Prémio Literário José Saramago. Estudou música e literatura, formação que se veio a reflectir num estilo poético, com claras influências impressionistas, em que as imagens descritas, mais do que as palavras, transmitem ao leitor a profundidade dos sentimentos que povoam Sinfonia em Branco.
   "Nove anos de idade é apenas outra maneira de dizer: promessas. A vida é uma ampla costura de momentos exatos e cada gesto, uma infinitude. As esperanças são como a luneta que se arma diante do céu noturno e pleno, ou como o microscópio que fita a gota de água."
A narrativa é apresentada de forma não linear, em que se revela gradualmente os pormenores da história de duas irmãs, alternando entre a inocência característica da infância, repleta de expectativas, e uma vida adulta em que a pureza e as ilusões se estilhaçaram à muito. Essa fragmentação permite reforçar a importância de alguns temas através da sua repetição em diferentes planos temporais que, à semelhança das memórias das personagens, ecoam ao longo de todo o romance.
   “Abdicara de alguns territórios. Desistira da fantasia de um império. Reinava apenas sobre si mesmo e sobre aquele casebre esquecido no meio de lavouras de importância nenhuma e estradas de terra que viravam poeira na seca e viravam lama na estação das chuvas e não tinham o hábito de conduzir ambições. Quando fora viver ali (mas não por causa disso), ele sabia: o fim dos sonhos.”
Os sonhos desfeitos são substituídos por uma ingénua esperança num novo começo (uma nova vida, uma página em branco), e esta, por sua vez, acaba por dar lugar à resignação, a uma dor contida mas sempre presente. A suavidade do discurso do narrador toca apenas levemente na superfície dessas emoções latentes, permitindo ao leitor, apesar disso, ultrapassar o silêncio e compreender os conflitos interiores de Maria Inês e Clarice.

   “O tempo é imóvel, mas as criaturas passam.”
À medida que os diferentes fios narrativos convergem para a conclusão do romance, os segredos deixam de ser meras insinuações, despindo-se da sua natureza enigmática, momento em que a intemporalidade dos sentimentos retratados se manifesta em todo o seu esplendor.
Um livro dotado de uma musicalidade rara, e que me leva a lamentar que a literatura brasileira contemporânea mereça tão pouca atenção no nosso país.

   “Nada é fácil. De forma alguma. Porém, se é verdade que o tempo é imóvel (e apenas as criaturas passam), tudo o que pode importar está germinando no momento presente. Não com o intuito de florescer ou frutificar, mas tão-somente para germinar. Para ser semente. Para dizer agora – o que, desse modo, vem ser apenas outra maneira de dizer: sempre.”

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