3 de setembro de 2010

O Livro do Deslumbramento


O Livro do Deslumbramento
2007 (Data original de publicação: 1912)

Título Original: The Book of Wonder
Autor: Lord Dunsany
Editora: Saída de Emergência
Organização: José Manuel Lopes
Páginas: 192
ISBN: 978-989-637-002-2

O Livro do Deslumbramento é uma colectânea que reúne contos de dois diferentes livros de Lord Dunsany: The Book of Wonder (1912) e The Last Book of Wonder (1916). Trata-se de uma publicação traduzida pelo Clube de Tradução Literária da Universidade Lusófona, com organização de José Manuel Lopes, que mais uma vez contribui para fazer chegar ao público português, um autor cuja obra foi fulcral para o desenvolvimento da ficção especulativa.
“Nem todos nos pudemos sentar aos pés de historiadores, mas todos aprendemos fábulas e mitos nos joelhos de nossas mães.”
Remando contra a maré do realismo, tendência predominante no panorama literário do seu tempo, Lord Dunsany apresenta-nos um fascinante mundo alternativo através dos seus breves contos, onde predominam paisagens de beleza singular e extravagantes personagens. Ler Dunsany é relembrar o encanto das histórias que nos acompanharam durante a infância, revivendo a profunda curiosidade e admiração que estas despertavam na nossa inocente mente de criança.
De facto, a imaginação do autor conjuga-se perfeitamente com o seu estilo de modo a deslumbrar o leitor, muito embora tal implique um sacrifício ao nível da caracterização e do enredo.
“Por um lado, ela ainda vivia, por outro, estava unida a esses tempos recuados, como naqueles contos sagrados que as amas contam, quando as crianças se portam bem, a noite cai, a lareira arde constante e os flocos de neve batem levemente nas vidraças, como passos furtivos de coisas terríveis em bosques antigos e encantados. Se no início sentia saudades das inovações delicadas entre as quais fora criada, a música antiga do mar místico que evoca a sabedoria das fadas acalmou esse sentimento e acabou por consolá-la. Esqueceu, até mesmo, aqueles anúncios a pílulas e drageias, tão apreciados em Inglaterra.”
Apesar dessa simplicidade, a sua ficção não é desprovida de um teor alegórico, o qual é temperado pela ironia que é característica de Dunsany, assim como por um apurado sentido de humor. Por outro lado, também a fantasia é moderada pela observação atenta da natureza, como que procurando atingir um equilíbrio entre o real e o imaginário.
Pioneiro no género fantástico, e apesar da qualidade da sua obra, Dunsany permanece imerecidamente no esquecimento. No entanto, é certo que aquele que se aventurar no seu estilo gracioso, decerto encontrará maravilhas que superam o que o nosso mundo pode oferecer.
“Quantas vezes contemplámos nós essa Cidade do Nunca, essa maravilha das Nações! Não a vemos quando é noite no Mundo e não conseguimos distinguir para lá das estrelas, nem quando o Sol brilha no sítio onde moramos, ofuscando os nossos olhos. Contudo, quando em alguns dias de tempestade o Sol subitamente se põe, arrependido ao cair da noite, e certos esplêndidos penhascos se revelam, que nós quase tomamos por nuvens (pois é tanto crepúsculo para nós como é sempre para eles), então vemos, nos seus cintilantes cumes, aquelas cúpulas douradas que se elevam acima das orlas do Mundo e que parecem dançar digna e calmamente naquela suave luz do entardecer, que é o lugar de nascimento do Deslumbramento. Então a Cidade do Nunca, desconhecida e distante, olha longamente o seu irmão, o Mundo.”

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