18 de agosto de 2010

Os Nomes, Don DeLillo


Os Nomes
2003 (Data original de publicação: 1982)


Título Original: The Names
Autor: Don DeLillo
Colecção: Mil Folhas – Jornal Público
Tradução: Maria Manuela Ribeiro
Páginas: 350
ISBN: 84-9789-216-X

Sinopse

“Situada na Grécia, onde o autor residiu temporariamente, no Médio Oriente e na Índia, Os Nomes é uma obra que nos apresenta um analista de risco norte-americano que se irá progressivamente tornando obcecado com o aparecimento de notícias de crimes ritualistas. Assim, entra em contacto com um estranho culto, responsável por uma série de assassinatos ocorridos na zona. O executivo, James Axton, é um profissional brilhante, pai de um filho e separado da mulher, mas não sabe realmente para quem trabalha e vive desligado do mundo, da sua família e amigos, e do seu país. A sua indolência terminará com graves consequências. Os diálogos engenhosos e profundos, são já característicos em DeLillo, ainda que desta vez a sua profusão seja maior. Consagrado como um dos mais lúcidos e incisivos autores contemporâneos e como um astuto comentarista social, este romance constituiu a antecâmara do êxito internacional que chegaria com os excelentes Ruído Branco e Libra. “

Sétimo romance de DeLillo, precedendo a publicação de Ruído Branco, que impulsionou a sua ascensão no panorama literário internacional, Os Nomes, apesar das críticas favoráveis, continua a ser um título imerecidamente menosprezado dada a sua qualidade, mas também por se desprender da crítica à sociedade americana pela qual o autor é reconhecido, para nos apresentar uma meditação política e espiritual do início da década de 80.
"When I work," he goes on, "I'm just translating the world around me in what seems to be straightforward terms. For my readers, this is sometimes a vision that's not familiar. But I'm not trying to manipulate reality. This is just what I see and hear."  
                                                 in Guardian.uk
Superficialidade é algo que não encontrarão neste romance. Embora apresente um estilo analítico, algo que se deve ao carácter do narrador, o executivo James Axton (simultaneamente o principal protagonista), as descrições de DeLillo são detalhadas, procurando sempre atingir um significado mais profundo, revelar uma ideia que não é aparente. Esse nível de detalhe é transportado para os inteligentes diálogos, cuidadosamente construídos e muitas das vezes entrecortados pelas divagações de James.
“Começava a considerar-me um eterno turista. Havia nisto qualquer coisa de agradável. Ser turista é fugir da responsabilidade. Os erros e os defeitos não se colam a nós como em casa. Somos capazes de vaguear por continentes e línguas, suspendendo a actividade do pensamento lógico. O turismo é a marcha da imbecilidade. Contam que sejamos imbecis. Todo o mecanismo do país hospedeiro está adaptado aos viajantes que se comportam de um modo imbecil. Andamos às voltas, aturdidos, olhando de esguelha para mapas desdobrados. Não sabemos falar com as pessoas, ir a lado nenhum, quanto vale o dinheiro, que horas são, o que comer ou como o comer. Ser-se imbecil é o padrão, o nível e a norma. Podemos continuar a viver nestas condições durante semanas e meses, sem censuras nem consequências terríveis. Tal como a outros milhares, são-nos concedidas imunidades e amplas liberdades. Somos um exército de loucos, usando roupas de poliéster de cores vivas, montando camelos, tirando fotografias uns aos outros, fatigados, disentéricos, sedentos. Não temos mais nada em que pensar senão no próximo acontecimento informe.”
Os Nomes foca-se, sobretudo, na importância da linguagem para a humanidade e no distanciamento da realidade, na ausência de paixão que afecta James. Separado da sua família, e sem um rumo definido para a sua vida, James acaba por se interessar pelo mistério que envolve os assassinatos ritualistas, sendo esse o principal motor da narrativa, que quebra a rotina do analista americano impelindo-o a compreender esse seu interesse e, através do conhecimento das razões por detrás dos seus intentos, perceber-se melhor a ele próprio.
“Sabemos que havemos de morrer. Isto é, em certo sentido, a nossa virtude redentora. Nenhum animal sabe isso excepto nós. É uma das coisas que nos distingue. É a nossa tristeza particular, este conhecimento, e, por conseguinte, uma riqueza, uma santificação.” 
Não deixa de ser impressionante verificar como, através da complexidade inerente às questões existenciais com que personagens se confrontam, entre as profundas reflexões políticas, sociais, religiosas e linguísticas, Don DeLillo consegue dar liberdade ao leitor no que a conclusões diz respeito, como que entreabrindo a porta que permite alcançar as respostas, enquanto diminui as distorções que afectam o nosso raciocínio, submergindo as vozes enganadoras que nos tentam desencaminhar constantemente.
“- Neste século, o escritor tem mantido uma conversa com a loucura. Podemos quase dizer que o escritor do século vinte aspira à loucura. Alguns conseguiram-no, evidentemente, e ocupam lugares especiais na sua consideração. Para um escritor, a loucura é uma destilação decisiva do eu, uma edição decisiva. É o submergir das vozes enganadoras.” 

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