6 de agosto de 2010

Os Melhores Contos de H.P. Lovecraft


Os Melhores Contos de Howard Phillips Lovecraft
2005

Autor: H.P. Lovecraft, introduções de Fernando Ribeiro
Editora: Saída de Emergência
Organização: José Manuel Lopes
Páginas: 320
ISBN: 972-8839-00-0


Tendo iniciado a sua colecção Bang! com Lovecraft (O Intruso), a Saída de Emergência confirma, com esta colectânea, a sua aposta na divulgação de um vulto incontornável do horror, que deve, apesar do título, ser encarada mais como o primeiro livro de uma antologia (que actualmente inclui já 5 volumes), do que uma selecção dos melhores contos do autor. É de salientar o trabalho a nível gráfico, extremamente apropriado, reminiscente das pulp magazines que foram a principal plataforma de publicação e divulgação do trabalho de Lovecraft em vida.
Este volume inclui:
  • O Despertar de Cthulhu – The Call of Cthulhu (1928)
  • A Criatura na Soleira da Porta – The Thing on the Doorstep (1937)
  • O Que Sussurra nas Trevas – The Whisperer in Darkness (1931)
  • A Aventesma do Escuro – The Haunter of the Dark (1936)
  • A Sombra Sobre Innsmouth – The Shadow Over Innsmouth (1936)
  • Com a Lua – What the Moon Brings (1923)
  • A Sombra Vinda do Tempo – The Shadow out of Time (1936)
  • A Celebração – The Festival (1925)

Cada conto é acompanhado por uma introdução de Fernando Ribeiro, que apesar do seu interessante estilo, e de subtilmente submeter para alguns aspectos importantes na obra de Lovecraft, acaba por contrastar em demasia com a escrita deste. A sua relação com os contos que antecedem é também, muitas das vezes, bastante ténue, facilmente confundindo o leitor, e desviando desnecessariamente a sua atenção.

 “The oldest and strongest emotion of mankind is fear, and the oldest and strongest kind of fear is fear of the unknown.”

                                                  H.P. Lovecraft, Supernatural Horror in Literature

Citação desgastada pelas inúmeras referências que lhe foram feitas, mas extremamente pertinente no contexto desta crítica, dado que a ficção de Lovecraft assenta, maioritariamente, nesse medo do desconhecido, enquanto que permite antever um terror incomparavelmente superior caso o nosso véu de ignorância venha, algum dia, a ser levantado.

“Penso que a coisa que mais alívio nos traz, neste mundo, seja a incapacidade da mente humana em correlacionar todos os seus conhecimentos. Vivemos numa plácida ilha de ignorância, no meio de mares negros de infinito, e não nos foram destinadas longínquas viagens. As ciências, cada uma tentando defender a sua posição, prejudicaram-nos pouco até agora; mas um dia, a união de conhecimentos dissociados irá revelar-nos perspectivas tão terríveis da realidade, e da nossa assustadora posição nela, que enlouqueceremos devido a essa revelação, ou fugiremos dessa luz fatal para a paz e segurança de uma nova idade das trevas.”

No entanto, ao contrário do que seria de esperar, as suas histórias não são assustadoras, especialmente considerando que o progresso da ciência veio desmistificar muitos dos mistérios que alimentavam a imaginação humana. A sensação que nunca nos abandona ao ler Lovecraft é sim, a de estranheza, a percepção de um universo inóspito em que se oculta algo inquietante que (apesar do referido progresso científico) ultrapassa o nosso conhecimento. Um universo que a humanidade é frágil, rodeada de malévolos seres que precedem a nossa existência, algo que nos transmite uma diferente perspectiva da nossa importância na infinidade do tempo e do espaço.

 “Pude apenas distinguir alguns dos hieróglifos que se encontravam inscritos na sua superfície, mas aqueles que consegui ver foram suficientes para me deixar em estado de choque. Claro que podiam ser falsos, pois eu não teria, com certeza, sido o único que lera o atroz e monstruoso Necronomicon do árabe louco Abdul Alhazred. Mesmo assim provocou-me arrepios reconhecer certos ideogramas que, sabia-o através dos meus estudos, se encontravam relacionados com os mais lúgubres e blasfemos mistérios de seres, que tinham tido uma espécie de louca semi-existência antes do planeta Terra e dos outros planetas do sistema solar terem sido criados.”

Apesar de os oito contos presentes no livro representarem apenas uma amostra da obra de Lovecraft, denota-se um escolha ponderada, dado que neles podemos identificar os seus temas centrais, assim como as suas criações mais conhecidas, tais como a cidade de Arkham, a universidade de Miskatonic e o proibido Necronomicon, livro ficcional escrito pelo louco Abdul Alhazred. Por outro lado, são também suficientes para chegar a uma conclusão simples: a de que Lovecraft era um escritor mediano. A sua mais evidente falha é, porventura, o excesso descritivo, que acaba por tornar penosa uma leitura contínua. Destaca-se também a repetição quase obsessiva de certas palavras, assim com uma previsibilidade associada ao uso recorrente do discurso na primeira pessoa, em que o protagonista relata por escrito os acontecimentos (numa visível influência de Dracula), que culminam na aproximação de um dos inúmeros horrores criados pelo autor.

Tendo tudo isto conta, o mais natural é nos questionarmos sobre o que levou H.P. Lovecraft a ser considerado uma figura importante dentro do género, qual a razão para o seu (embora póstumo) sucesso? A resposta reside essencialmente nas suas ideias, na originalidade que a sua imaginação lhe permitiu atingir, legando-nos uma mitologia que ainda hoje inspira não só a ficção moderna, mas também diferentes artes como o cinema e a música. Em Lovecraft o apelo do desconhecido é arrebatador, testando a nossa sanidade a cada momento, em que a única coisa que podemos fazer, é viver na esperança de que as estrelas nunca se venham a alinhar, porque...

“”Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn..

Jazendo na sua casa em R’lyeh, Cthulhu aguarda e sonha.”

2 comentários:

  1. Eu gostei da arte da capa, o estilo pulp está bem representado. Quanto ao contéudo, sendo de Lovecraft, para quem gosta do gênero, nada melhor com certeza.

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  2. A nível gráfico a edição é muito boa, e se não estou em erro, o estilo tem sido mantido nos restantes volumes.

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