20 de julho de 2010

Off-side, Gonzalo Torrente Ballester



Off-side
2001 (Edição original: 1969)

Autor: Gonzalo Torrente Ballester
Editora: Caminho
Tradução: António Gonçalves
Páginas: 601
ISBN: 972-21-1371-2


Sinopse:
Partindo do aparecimento de um suposto quadro de Goya — será autêntico? será falso? — num antiquário do Rastro, Torrente Ballester propõe-nos em Off-side um amplo fresco da sociedade madrilena dos anos 60, em cuja densa trama se vão cruzar e entrecruzar, em longas sequências construídas em contraponto, banqueiros cínicos, editores tecnocratas, curas ímpios, financeiros exímios, escritores malditos à beira da desintegração total, negros das letras e das artes com a polícia às canelas, negros americanos apaixonados por prostitutas lumpen, prostitutas de alto coturno formadas em Letras, maoístas de passos clandestinos com a vida por um fio, frágeis condessas polacas à beira do suicídio, férreas marquesas italianas peritas em bacanais, falsários geniais, efebos torturados, ninfetas expeditas, toureiros incrédulos, viúvas louçãs, secretárias pudibundas, núncios papais, marqueses pontifícios, académicos de esquerda, críticos de direita...
No seu habitual estilo vivíssimo e irrequieto, Torrente semeia esta narrativa realista — como se não bastassem as surpresas e as ironias do «real» — de interpolações oníricas ou fantásticas, compondo um quadro empolgante em que o peso do passado, a sombra da guerra civil, pairam impiedosamente sobre a vida dos personagens, condicionando-a e hipotecando-a.



Descrito pelo próprio autor como “(...) una série de problemas individuales sobre um fondo histórico determinado, en un momento concreto de la vida española”, Off-side é muitas vezes encarado como um passo na direcção da sua mais aclamada obra, La saga/fuga de J.B., algo que acabou por condenar este romance a uma relativa (e imerecida) falta de atenção ao nível da crítica literária.

Com base na sua experiência de vida em Madrid, especialmente nos anos 50, Ballester procura conjugar o realismo, a objectividade e o espírito crítico, pintando um cenário dramático e pessimista da sociedade madrilena.

“A mim parece-me um esforço para alcançar uma visão da realidade diferente da habitual, e para recriar literariamente com meios expressivos excepcionais.”

O primeiro aspecto a salientar na escrita de G.T.B. é, sem dúvida, a mestria com que cria as personagens, pertencentes a diferentes esferas sociais, com as suas ideologias próprias e apresentando diversas orientações sexuais, cada uma é minuciosamente analisada, processo que permite dotá-las de uma verosimilhança incrível. Assim, poder-se-ia dizer, que a alma deste romance se encontra nas suas personagens, sendo de salientar esta pluralidade, dada a ausência de um protagonista principal.

“(...) conseguiu apresentar ao mesmo tempo a multidão e os indivíduos que a constituem.”

Apesar do nível de detalhe acima referido, é interessante verificar como, independentemente da quantidade de personagens e de cenários em que estas se movem, o autor consegue conjugar harmoniosamente aspectos específicos, com pormenores gerais, dedicando a usa atenção não só à acção principal, mas também preocupando-se com o ambiente que a envolve.

“(...) passa com toda a naturalidade do realismo à mais desenfreada fantasia, volta à realidade, brinca com ela...”

Muito embora o realismo predomine ao longo de todo o livro, Ballester integra em Off-side elementos fantásticos, predominantemente surrealistas, que alguns críticos consideram como uma forma de caricaturar a sociedade madrilena, e que se veio a reflectir na sua obra posterior. Um exemplo dessa integração, é o contraste entre aspectos que pretendem meramente espelhar a realidade com outros puramente imaginários, como um cosmos electrónico presente na biblioteca de Fernando Anglada, algo que se veio também a repercutir na sua obra: a inclusão de um objecto imaginário e inútil nos seus romances.

“Acontece que o cosmos electrónico da biblioteca, além de tema de meditação abissal - «Perante tal imensidão não somos nada» -, é um candeeiro que difunde em redor e em forma aproximadamente esferoidal, gradualmente esbatida, uma luz opalescente suficientemente ténue para que Anglada, imerso nela, pareça um fantasma móvel, e Landrove uma sombra inquieta, vulto informe aninhado e trémulo na poltrona de couro. Aproximando-nos da esfera, parece dotada de luz própria, uma luz imanente (ou talvez emanante) em que flutuam e se movem, vertiginosos, milhares de mundos, nuvens de estrelas. A ordem pressentida dos astros está realizada, ali, a uma escala micrométrica. Mas o bonito é que nenhum é que nenhum daqueles corpos celestes tem suporte algum, seja arame ou titã, pois flutuam na luz e movem-se segundo a mecânica do Universo, embora em ponto pequeno, e nota-se com toda a clareza a sua fuga unânime para um lugar ignoto do nada. Anglada tem delimitado, para os seus passeios, o espaço compreendido entre o prolongamento ideal do eixo Norte-Sul do instrumento e as janelas. Landrove apenas se concede o que os seus braços e pernas, ao moverem-se, podem abarcar.”

Apesar de ser considerado inferior ao já referido La saga/fuga de J.B., é curioso constatar que, é em Off-side que podemos encontrar a personagem que, porventura, melhor representa os ideais do próprio autor. Trata-se do escritor Leopoldo Allones (cujo nome é, possivelmente, baseado no escritor argentino Leopoldo Lugones, que se suicidou em 1938), autor de um livro denominado Três, que é bastante elogiado e descrito, por diversas vezes, como uma obra-prima, sendo as citações que tenho vindo a apresentar ao longo desta crítica exemplos disso mesmo, incluídas aqui pela adequação dos comentários nelas contidos (maioritariamente efectuados pelo intelectual Leonardo Landrove) ao próprio Off-side.

Como síntese da vida espanhola dos anos 50, Off-side acaba por ficar aquém das expectativas, em parte devido à representação de aspectos demasiado díspares, carecendo o livro de algo que proporcione uma necessária coesão ao conjunto. É possível que o período em que foi escrito (numa altura em que Ballester esteve prestes a abandonar a literatura) tenha influenciado o resultado final, mas não deixa de ser um admirável retrato social, com uma qualidade que deveria garantir a sua saída da sombra de obras posteriores. E sendo as personagens que dão vida a Off-side, que melhor forma de terminar, do que com as palavras de uma dessas personagens, que transpostas para o contexto desta crítica, definem na perfeição o que podem encontrar neste romance:

“(...) é capaz de descobrir a contradição interna da linha recta e de a expressar numa frase que é a um tempo chiste, música, criação verbal e reprodução exacta da realidade. Quando aplica o seu método ao comportamento humano, os seus personagens mais vulgares convertem-se em entidades surpreendentes, mas lógicas. (...) conseguiu expressar como ninguém o paralelismo entre o pensamento e a conduta, as suas coincidências, as suas divergências, as suas contradições. O que há de específico em cada homem surge perfeitamente homogeneizado com o individual, e, no entanto, o leitor percebe quando é a espécie que actua, e quando a pessoa.”

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