24 de julho de 2010

O Homem que Morreu, D.H. Lawrence


O Homem que Morreu
2004 (Edição Original: 1929)

Título Original: The Escaped Cock / The Man Who Died
Autor: D.H. Lawrence
Editora: Assírio e Alvim
Tradução: Aníbal Fernandes
Páginas: 96
ISBN: 972-37-0910-4



“Escrevi uma história da Ressurreição onde Jesus se levanta a braços com uma grande náusea perante tudo, deixa de suportar a velha multidão, e mais – corta com ela – e enquanto se vai restabelecendo começa a perceber quão espantoso e prodigioso o mundo é, bem mais maravilhoso do que qualquer salvação ou céu – e agradece às suas estrelas por não ter, nunca mais, necessidade de cumprir uma “missão”.”

                                                D.H. Lawrence, em carta a Achsah Brewster

Publicado no ano anterior à sua morte, em O Homem que Morreu, Lawrence apresenta-nos uma diferente perspectiva da Ressurreição, em que, contrariamente à ascensão aos céus apontada pela religião, Jesus abraça uma nova vida, após emergir dolorosamente da morte. Este esforço para ultrapassar a dor é, de resto, um tema recorrente na sua obra.

A novela divide-se em duas partes. A primeira descreve-nos o regresso de Jesus (embora nunca identificado como tal) à vida, e a extrema solidão que este sentiu ao acordar.

“Estava sozinho; e, por ter morrido, muito para lá da solidão.”

Claramente desorientado, sai do seu túmulo e, enquanto caminhava, encontra um galo em fuga. Acaba por o apanhar e devolvê-lo ao dono, que assente em permitir que ele fique em sua casa por uns tempos. É durante esse período que, progressivamente, começa a compreender a sua experiência passada, assim como a sua vida presente, demonstrando uma maior abertura ao mundo que o rodeia.

“Ressuscitado de entre os mortos, acabava de compreender que também havia no corpo a maior vida, para além da pequena vida. Era virgem para evitar a vida pequena. A vida cúpida do corpo. Mas ficava agora a saber que a virgindade é uma forma de cupidez; e quando o corpo volta a levantar-se, fá-lo para dar e obter, obter e dar sem cupidez.”

Esse caminho de ressurreição corporal, ao invés de espiritual, encontra-o quando repara na incessante luta do galo com a corda que o separa da liberdade – um símbolo de vitalidade, em oposição à inércia que o preenchia. As suas feridas começam a sarar, e este novo caminho, acaba por o levar a sair da casa dos camponeses que o acolheram.

“Tinha curado as feridas, e desfrutava da imortalidade de estar vivo sem impaciência.”

Na segunda parte, Jesus encontra um templo de uma religião pagã, ao cuidado de uma sacerdotisa virgem, figura que acaba por ter um papel preponderante na história, dado que será ela a acordar Jesus para a sexualidade. Lawrence considerava a civilização ocidental demasiado fechada, em que cada pessoa se isolava no seu próprio mundo, sendo bastante aversas ao risco de se revelarem aos outros. Assim, a sexualidade, como algo íntimo, é um dos caminhos para essa abertura, uma manifestação de que o medo da intimidade foi superado. No fundo, uma forma de afirmação do desejo de viver, aspecto da experiência humana que o Cristianismo procurara suprimir.
Esta experiência leva a uma total renúncia do papel de salvador por parte de Jesus, que aspira apenas a viver para si mesmo, evitando assim a traição de que tinha já sido vítima.

“De repente caiu em si. «A todos pedi que me servissem com o cadáver do meu amor. E acabei por oferecer-lhes só o cadáver do meu amor. Isso é o meu corpo... tomai e comei... o meu cadáver...»”

O Homem que Morreu trata-se, apesar de tudo, de um exemplo em que a escrita não está totalmente à altura das ideias que o texto comporta, mas que não deixa de suscitar uma reflexão sobre o Cristianismo.

 “Aquilo que o homem mais apaixonadamente quer é a sua totalidade viva e a sua harmonia viva, não a isolada salvação da “alma”. Acima de tudo, o homem quer a sua consumação física porque agora está, por uma vez, por uma única vez, em estado de carne e de força.”

                                                                                                         em Apocalipse

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