29 de julho de 2010

Jerusalém, Gonçalo M. Tavares


Jerusalém
2005

Autor: Gonçalo M. Tavares
Editora: Caminho
Páginas: 256
ISBN: 972-21-1704-1

Parte integrante de uma tetralogia denominada O Reino, este Jerusalém é mais um passo essencial no objectivo de Gonçalo Tavares em “perceber o mal, como é que ele surge, em que situações se desenvolve e manifesta”. Assim, a sua capa preta não se trata de uma mera opção estética, mas sim de um primeiro sinal transmitido aos leitores sobre o seu conteúdo, antes mesmo de o desfolharem.

Jerusalém destaca-se pela ausência de linearidade narrativa, entrecortando os acontecimentos decorrentes na madrugada de 29 de Maio, com o passado e o futuro das personagens neles envolvidas. Neste aspecto Tavares é exemplar, unindo todos os fragmentos de forma coerente, o que simplifica a tarefa de acompanhar a complexidade cronológica, de modo a que o leitor dedique a sua atenção à análise subjacente à história, sem nunca perder o seu sentido de orientação.

“Apesar do medo da própria cabeça e do que ela poderia empurrar para dentro dos seus actos, Theodor era absolutamente saudável, em qualquer parâmetro que fosse considerado. Fisicamente, mentalmente e espiritualmente. Estas três categorias eram, aliás, para Theodor uma espécie de pontos cardeais indispensáveis à existência, e, em particular, à existência com saúde.”

Os limites da sanidade são explorados através das personagens que, com a possível excepção do médico Theodor, apresentam falhas a nível físico ou psicológico, algo que conjugado com um discurso despido de eufemismos, nos rodeia de uma perturbadora atmosfera que põe a nu características da natureza humana que nem sempre nos apraz verificar. O próprio Theodor orienta os seus esforços para estudar a História do horror da humanidade, procurando identificar uma tendência que lhe permita representar graficamente a sua evolução e, acima de tudo, prever o seu comportamento futuro.

“A História do horror é a substância determinante da História; e qualquer História tem uma normalidade, nada existe sem normalidade. E tal como se vê nas folhas quadriculadas de um electrocardiograma a saúde ou a doença de um homem, eu verei no gráfico, resultado dos meus estudos, a saúde e a doença, não de um único homem, não de um único indivíduo, mas dos homens no seu conjunto; do colectivo, da totalidade do mais relevante e abjecto comportamento humano.”

Com esta racionalidade científica contrasta a aleatoriedade presente ao longo do romance, a transcendência “como um imperativo de sanidade e de racionalidade absoluta” em oposição à ausência de transcendência na trágica representação da realidade. Poucos são os momentos que quebram o ambiente sombrio, esperanças que rapidamente se desvanecem, frágeis ilusões de felicidade que cedo se estilhaçam.

“O ovo, qualquer ovo, era para Mylia um material perturbante. O que mais rapidamente muda, o que é composto de maior desassossego, o que existe já para ser outra coisa. Havia em qualquer ovo uma espécie de altruísmo material, concreto, que ela não via em mais nenhuma coisa do mundo. Aparecer porque se quer fazer aparecer outra coisa. O altruísmo material era o altruísmo moral e não havia outro. O espírito não é generoso, o imaterial não é generoso: que pode perder o que não existe?”

Perturbante é muito provavelmente a melhor palavra para descrever Jerusalém. É certo que presentemente a violência começa a atingir o nível de banalidade, levando a uma onda de indiferença perante a reincidente crueldade que nos assola, mas Gonçalo Tavares consegue neste romance fazer-nos repensar não só a nossa ideia do mundo, mas também, e como qualquer bom livro, a nossa ideia sobre nós próprios.

“O sobrevivente de um campo de concentração disse:
«Os homens normais não sabem que tudo é possível.» Theodor sublinhou a frase.”

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