6 de julho de 2010

Ficções, Jorge Luis Borges



Ficções
2009 (Edição original: 1944)

Título Original: Ficciones
Autor: Jorge Luis Borges
Editora: Teorema
Tradução: José Colaço Barreiros
Páginas: 171
ISBN: 978-972-695-861-1


Ficções é uma compilação de contos que engloba dois livros diferentes, tendo sido uma das publicações que mais contribuiu para o impacto a nível internacional de Jorge Luis Borges. Os temas centrais da sua obra, tais como a distinção da realidade da percepção da realidade, a infinidade, o tempo e a memória, são perfeitamente identificáveis nas peças aqui incluídas.

O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam

Tlön, Uqbar, Orbis Tertius

Este primeiro conto descreve o conteúdo de um livro imaginário, conteúdo esse fruto também da imaginação, em que uma sociedade secreta trabalhou ao longo de séculos, para criar uma enciclopédia que retrata um mundo único e verosímil. A teia aqui entretecida é uma das características comuns em diversos contos de Borges, mas neste caso, espelhando em demasia a sua erudição, acaba por tornar o seu conteúdo excessivamente confuso.

Pierre Menard, autor do Quixote

Uma inteligente paródia, em que são enumeradas as absurdas publicações de um autor (ficcional), entre as quais uma nova versão de Dom Quixote. Facto interessante é essa versão ser uma transcrição à letra, da obra original:

“O texto de Cervantes e o de Menard são verdadeiramente idênticos, mas o segundo é quase infinitamente mais rico.”

Tal pode ser lido como uma crítica à ambiguidade da análise literária, demonstrando que as especificidades de cada indivíduo têm impacto ao nível do significado atribuído a um texto ou, por outro lado, como uma ridicularização do acto de plágio, que progressivamente se veio a tornar mais comum.

As ruínas circulares

Aqui, Borges joga com a dualidade sonho-realidade (temas recorrentes na sua obra), algo que serve apenas de véu para a total irrealidade contida no conto. Um clássico que demonstra a capacidade do autor em condensar uma ideia em poucas páginas.

A lotaria em Babilónia

Ilustrando uma sociedade baseada na aleatoriedade, em que cada decisão é tomada recorrendo a uma lotaria, uma sociedade de inteira desresponsabilização. Carece, talvez, de uma simbologia tão profunda, mas demonstra os extremos que Borges consegue atingir com as suas ideias.

Análise da obra de Herbert Quain

À semelhança de Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, o conto trata de obras ficcionais, denotando-se influências de Freud. Infelizmente os excessos que apontei no primeiro conto, são também aqui visíveis, tornando o conteúdo mais denso do que seria necessário.

A biblioteca de Babel

“O universo (a que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poções de ventilação no meio, cercados por parapeitos baixíssimos.”

É com esta introdução que somos transportados para um labirinto temporal e espacial, em que testemunhamos a busca de conhecimento por parte dos bibliotecários, e o seu desespero, inerente ao facto de saberem que esse conhecimento é praticamente inalcançável. Mas mesmo essa esmagadora realidade demove o homem na sua vontade em atingir o conhecimento perfeito, no seu desejo de tocar Deus.

O jardim dos caminhos que se bifurcam

Este policial que dá o título ao primeiro livro, gira em torno da tentativa do seu protagonista em fazer chegar uma importante informação aos seus superiores. Indiferente ao país que serve (Alemanha), e às consequências da divulgação de tal informação, o espião de origem chinesa pretende apenas demonstrar que, apesar da sua origem, é capaz de influenciar o destino dos exércitos. A execução do seu plano sem escrúpulos dá-se em paralelo com a explicação da obra de um dos seus antepassados, conjugando os aspectos já referidos, com a temática do tempo (e da sua unicidade ou multiplicidade).

Artifícios

Funes ou a memória

Segundo o próprio autor, este conto funciona como uma metáfora da insónia. Nele se retrata a prodigiosa memória que Ireneo Funes adquire, após um acidente a cavalo que acaba por o deixar paralisado.

“Dormir é distrair-se do mundo.”

Invadido por uma imensidão de minuciosas recordações, a abstracção dessas recordações e do mundo é-lhe bastante difícil, pelo que o acto de dormir se torna uma árdua tarefa.

A forma da espada

Centra-se na história de uma cicatriz, passada em tempos de guerra, em que contrastam a coragem e a honra, com a cobardia da traição. O final não é de todo imprevisível, mas vem solidificar o tema desenvolvido ao longo do conto.

Tema do traidor e do herói

Apresenta-nos um paralelo entre a literatura e a realidade, relembrando-nos que a História é uma peça escrita pelos seus próprios actores, e em que a influência do seu desempenho se estende para o futuro. Um conceito que poderia ter sido mais desenvolvido, apresentando um fim demasiado abrupto, pelo que o resumo da ideia principal não está à altura do que acontece noutros dos contos presentes no livro.

A morte e a bússola

Um conto policial, relatando a investigação de um série de crimes aparentemente relacionados com uma seita, cujo propósito é a busca do verdadeiro Nome de Deus. Proporciona-nos um ponto de vista menos comum entre o género, em que o investigador desvenda o mistério que envolve as mortes, apenas para descobrir foi manipulado para o fazer.

O milagre secreto

Jaromir Hladik é preso pela Gestapo e posteriormente condenado à morte. Enquanto aguarda o cumprimento da sentença, na escuridão da noite que precede a sua execução, Hladik pede a Deus que lhe conceda um ano, de modo a poder concluir um drama em verso, com o qual se pretendia redimir da sua restante obra, da qual se arrependia. O seu desejo é concretizado, embora num momento e de uma forma inesperada e, de facto, secreta.

Três versões de Judas

Classificado por Borges como uma fantasia cristológica, este conto apresenta uma curiosa perspectiva de Judas, interpretando a sua traição de um forma que quebra os raciocínios geralmente aceites.

O fim

Um curto relato de uma luta com facas, cuja simplicidade, apesar de refrescante, não deixa de contrastar com o restante conteúdo de Ficções.

A seita de Fénix

Trata de um culto que se baseia num segredo (que não é esclarecido no conto), que se mantém vivo apesar do desgaste provocado pela passagem do tempo, uma sobrevivência baseada no instinto, quando as suas bases originais se apagaram da memória. Creio poder estabelecer uma relação com as religiões actuais, em que muitas pessoas sacrificam o seu espírito crítico, permitindo que a sua crença se transforme num mero hábito.

O Sul

Encerrando o livro, O Sul narra os vertiginosos pensamentos e os surreais sonhos de Juan Dahlmann, em parte amplificados por uma doença. Após ter recuperado, viaja para a sua quinta no sul, indo ao encontro de um destino fatal.


Apesar de existirem compilações mais abrangentes (como os volumes de Obras Completas de Jorge Luis Borges também editados pela Teorema, ou o Collected Fictions da Penguin), Ficções não deixa de incluir alguns dos melhores contos de Borges, funcionando como uma óptima introdução para quem nunca teve oportunidade de conhecer a obra de um dos autores mais influentes do século XX. 

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