1 de maio de 2010

Revista Bang! n.º 7





Bang! n.º 7
Fevereiro de (2009) 2010






     Este mais recente número da revista Bang! vem marcar o seu regresso ao formato impresso. Apesar de tal mudança, a revista continuará também a ser disponibilizada em formato digital mas, desta feita, cerca de um mês após o lançamento da respectiva edição em papel, sendo a versão digital completamente gratuita à semelhança do que tem vindo a acontecer no passado.



No lado positivo, é de salientar o grafismo, bastante agradável e atraente. Já em termos de revisão denotam-se diversas falhas, aspecto que com certeza virá a ser rectificado nas futuras edições (ou pelo menos assim se espera). Algo que também causa alguma estranheza é a ausência de paginação, pormenor que não tinha sido descuidado nos números anteriores.
Em termos de conteúdo, salta à vista a pequena proporção de novos autores, ou de autores que não tenham estado envolvidos em edições da SdE, algo contraditório se tivermos em conta o editorial de Nuno Fonseca, aspecto já apontado por Rogério Ribeiro na sua resenha. Relativamente a este ponto, gostaria de salientar que não é a inclusão de autores conhecidos (pelo menos entre os apreciadores do género) que merece ser criticada, até porque são esses nomes que, em grande parte, tornam a sua compra apelativa para muitos leitores. O que de facto é digno de crítica, é a criação de expectativas às quais o conteúdo da revista não responde, tratando-se do ponto mais negativo deste número 7.

Muito se comentou acerca da baixa tiragem (150 exemplares), que não me parece de todo desapropriada tendo em conta o mercado de nicho para o qual se direcciona. O que me parece desapropriado é, essencialmente, o modelo de pagamento e de envio. É facto que, muitos portugueses ainda mantêm um elevado grau de desconfiança relativamente a problemas de segurança ao efectuar pagamentos pela Internet, mas não percebo a total ausência de opções que não o envio à cobrança. Mais incompreensível se torna, quando os custos dessa mesma opção estão a cargo da própria editora, modelo esse que também é utilizado na venda de livros através do seu website.(1) Assim, tendo em conta o preço da revista (5 euros), os custos de envio (superiores a 3 euros), e não esquecendo que toda a publicidade incluída diz respeito a publicações da SdE (sendo, portanto, publicidade que não é paga, e cujos benefícios são difíceis de mensurar), as vendas da revista muito provavelmente não chegarão para cobrir os custos da mesma, para além de criar um diferimento potencialmente perigoso entre o momento da compra e o recebimento do pagamento. Simplificando, o investimento inicial é feito totalmente pela empresa (revista + envio), enquanto que o pagamento é recebido muito depois (isto admitindo que nenhum encomenda é devolvida). Isso invalida não só maiores tiragens, como a distribuição da Bang! em pontos de venda como livrarias ou papelarias, algo que viria a acrescentar custos não compensados pelo acréscimo de vendas. Dito tudo isto, parecem-me ser necessárias algumas mudanças de modo a que a publicação regular da Bang! se torne sustentável, assim como a possibilidade de apresentar  novos autores, e de recorrer a colaboradores não relacionados com a SdE.
Espero sinceramente, que a publicação regular da revista se venha a tornar numa realidade e, apesar do que foi dito acima, não posso deixar de reconhecer o papel importante que a Bang! tem vindo a representar no panorama do fantástico e da ficção-científica.

Passando ao conteúdo em si (isto se se mantiveram acordados até este ponto, feito deveras impressionante):

A nível de ficção, estão disponíveis cinco contos sobre os quais tecerei os comentários que achar necessários. Não pretendo dissecar minuciosamente cada um deles, apenas apresentar algumas considerações que me ocorreram aquando da leitura dos mesmos.






·        Na Guerra com Bruxas, Richard Matheson

Um conto que se destaca principalmente pelo ambiente e pelo contraste entre a dureza da guerra e a tranquilidade e inocência da juventude (inocência essa, totalmente aparente neste caso). Serve adequadamente como introdução ao conteúdo da revista.

·        Horda Primitiva, Vasco Curado

Apesar de interessante, carece, na minha opinião, de um maior desenvolvimento relativamente à relação entre o padre e as crianças. Se tivesse sido levantado um pouco mais o véu sobre as razões que levaram ao desfecho do conto, assim como apresentadas algumas considerações mais elaboradas sobre o mesmo, Vasco Curado ter-nos-ia proporcionado um conto bem mais completo.

·        A Preocupação Fundamental, Valéria Rizzi

Inicialmente o seu estilo destaca-se do restante conteúdo apresentado nesta edição, mas rapidamente se torna caótico, demonstrando uma incoerência que facilmente confunde o leitor.

·        A Melhor Diversão da Cidade, Gerson Lodi-Ribeiro

Destaca-se em termos de temática, dado que se foca na sexualidade, envolvendo um ser humano com uma extra-terrestre. Trata-se de um autor reconhecido, e de um conto bem escrito, mas não estou certo de que tenha sido a escolha mais apropriada para incluir nesta edição.

·         O Indescritível Sr. Salcedo, Renato Carreira

Sem dúvida o conto que mais me agradou, não apenas por se centrar na sobrenaturalidade, vertente que sempre apreciei, mas também pela forma como esta se entrelaça realidade quotidiana, como choca com a natural racionalidade do inspector, tudo isto num estilo muito próprio.

·        O Druida de Somersby, Octávio Santos

Uma biografia de Alfred Tennyson, muito bem elaborada, dedicando especial atenção à passagem do autor pelo nosso país, servindo também para divulgar o livro de poemas publicado em 2009.

·        A Companhia dos Cegos, David Soares

Um ensaio que me interessou especialmente, e que gostei bastante apesar de dois pontos que me pareceram menos positivos. Um deles, é o facto da imparcialidade que o próprio autor pretende alcançar ser, por vezes, quebrada. Outro aspecto, é a extensão dedicada à comparação efectiva das duas obras ser menor do que se esperaria, terminando abruptamente (o que em parte talvez seja indicador da qualidade do ensaio, dado que, ao terminá-lo gostaria de ler mais sobre o assunto).
Pessoalmente, ensaios deste género são um dos principais incentivos que me levam a comprar a revista.

·        H.P. Lovecraft - Um Ícone da Cultura Ocidental Contemporânea 2.ª parte, José Carlos Gil

Um artigo extremamente competente, e que certamente me servirá de referência em futuras críticas à obra de Lovecraft. Espero que as futuras edições da Bang! nos proporcionem semelhantes artigos.

·        Livros Míticos ou a Biblioteca (Quase) Invisível, António de Macedo

Um artigo delicioso, muito por culpa do estilo descontraído com que António de Macedo nos guia. Talvez o assunto não seja totalmente novo, mas tendo sido esta viagem tão agradável, espero ansiosamente pela sua segunda parte.

Finalmente, a revista inclui uma secção dedicada ao cinema (por Nuno Fonseca) e outra à banda desenhada (por Ricardo Venâncio). Uma variedade positiva, que talvez pudesse vir a ser melhorada através da inclusão de um espaço dedicado à ilustração, vertente merecedora de mais atenção, especialmente tendo em conta os géneros que a revista publica.

(1) No fundo, o que me parece ser o objectivo é, eliminar o risco para o comprador, incitando à compra. Se as vendas que se obtêm através desta filosofia valem o esforço financeiro só a própria editora o poderá dizer, mas à falta de dados presumo que de facto seja benéfico, dado que não se compreenderia a manutenção deste modelo se assim não fosse. De resto é assunto que ultrapassa a crítica aqui apresentada, relevante apenas na parte em que diz respeito à publicação e distribuição da revista.

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