24 de maio de 2010

A Quinta dos Animais





A Quinta dos Animais
2008

Título Original: Animal Farm (1945)
Autor: George Orwell
Editora: Antígona
Tradução: Paulo Faria
Páginas: 156
ISBN: 978-972-608-197-5




Contracapa:  
Esta nova tradução de Animal Farm recupera o título original contrariamente às edições anteriores que adoptaram os títulos panfletários O Porco Triunfante e – o mais conhecido –O Triunfo dos Porcos. À primeira vista este livro situa-se na linhagem dos contos de Esopo de La Fontaine e de outros que nos encantaram a infância. Tal como os seus predecessores Orwell escreveu uma fábula uma história personificada por animais. Mas há nesta fábula algo de inquietante. Classicamente atribuir aos animais os defeitos e os ridículos dos humanos se servia para censurar a sociedade servia igualmente para nos tranquilizar pois ficavam colocados à distância «no tempo em que os animais falavam» os vícios de todos nós e as suas funestas consequências. Em A Quinta dos Animais o enredo inverte-se. É a fábula merecida por uma época − a nossa época − em que são os homens e as mulheres a comportar-se como animais.


“(...) pensei em denunciar o mito soviético através de uma história que pudesse ser facilmente compreendida por quase toda a gente e de fácil tradução para outras línguas.”

De modo a atingir este objectivo, Orwell escreveu A Quinta dos Animais, uma alegoria da Revolução Russa e do totalitarismo de Estaline em termos específicos, mas que acaba por englobar temas mais abrangentes, como a luta de poder em sociedades que se baseiam na igualdade de direitos ou os perigos do idealismo utópico que pode ser manipulado e transformado numa ferramenta de opressão.
Como seria de esperar, tendo em conta o tema abordado, a leitura de A Quinta dos Animais torna-se bastante mais interessante para quem estiver minimamente familiarizado com a história da União Soviética da primeira metade do séc. XX, assim como o panorama político na Europa e nos Estados Unidos durante o mesmo período. Tal permite interpretar a simbologia presente na obra, dado que muitos dos animais (e os poucos seres humanos presentes) representam figuras históricas ou organizações, assim como os espaços descritos retratam países ou regiões.

A fábula descreve, essencialmente, a revolução dos animais de uma quinta, expulsando os seres humanos e, consequentemente, ganhando o controlo sobre a mesma. Finalmente livres, os animais organizam-se e estabelecem sete mandamentos, princípios essenciais baseados na igualdade, pelos quais se devem reger:

Os Sete Mandamentos

1.      Todas as criaturas que caminham sobre duas pernas são nossas inimigas.
2.      Todas as criaturas que caminham sobre quatro patas ou que têm asas são nossas aliadas.
3.      Nenhum animal usará roupas.
4.      Nenhum animal dormirá numa cama.
5.      Nenhum animal beberá álcool.
6.      Nenhum animal matará outro animal.
7.      Os animais são todos iguais.

Apesar da melhoria inicial, os porcos, de forma lenta mas gradual, começam a ganhar controlo, organizando as actividades da quinta, algo que não é alvo de contestação pelos outros animais dado que os consideravam superiores a nível intelectual.

“Os porcos não trabalhavam efectivamente, antes dirigiam e supervisionavam os outros. Tendo em conta os seus conhecimentos superiores, era natural que assumissem a liderança.”

Essa inteligência foi, durante algum tempo, utilizada como motor para o desenvolvimento da quinta, mas cedo se tornou num dissimulado método para ganhar autoridade e conquistar benefícios. De facto, graças à sua educação e capacidade persuasiva, os porcos conseguem fazer os restantes animais acreditar em praticamente tudo o que eles dizem, algo que se manifesta, pela primeira vez, quando se apropriam do leite e das maçãs.

“O leite e as maçãs (a Ciência demonstra-o, camaradas) contêm substâncias absolutamente indispensáveis ao bem-estar de um porco. O trabalho que nós, os porcos, levamos a cabo é intelectual. Toda a administração e organização desta quinta repousam sobre os nossos ombros. Dia e noite velamos pelo vosso bem-estar. É para vosso bem que bebemos aquele leite e comemos aquelas maçãs.”

Assim se manifesta o totalitarismo, embora mascarado de forma a iludir os animais que acreditam plenamente na boa vontade dos porcos. Cada suspeita é contrariada com  semelhantes deturpações e, caso não sejam suficientes, a ameaça do regresso dos humanos rapidamente convence qualquer um a aceitar os argumentos apresentados, quaisquer que sejam. Porque, apesar de tudo, a liberdade concedera uma forte motivação aos animais da quinta, que passaram olhar o trabalho como algo que beneficia toda a comunidade, ao invés de alimentar humanos insensíveis e exploradores, não se apercebendo que, na verdade, a única mudança que a sua revolução trouxe, foi a troca de exploradores.

“(...) os animais trabalharam que nem escravos, mas, apesar disso, sentiam-se felizes; não se poupavam a esforços nem sacrifícios, bem cientes de que tudo o que faziam era para benefício próprio e das futuras gerações de animais, e não para um bando de seres humanos preguiçosos e ladrões.”

Com o passar dos anos, o domínio dos porcos acentua-se, o que lhes permite modificar os mandamentos à medida dos seus interesses e submeter os animais através da violência, instalando um clima de terror constante.
Mas, o aspecto mais inquietante, é a total apatia por parte dos animais, que se deixam subjugar, mesmo quando defrontados com descaradas mentiras, com dados falseados relativamente às suas condições de vida após  a revolução.

“Não pensem, camaradas, que a liderança é um prazer! Pelo contrário, é uma enorme responsabilidade, bem pesada. Ninguém acredita mais convictamente do que o Camarada Napoleão na igualdade entre todos os animais. Ele teria todo o gosto em deixar-vos tomar as vossas decisões sozinhos. Mas correríamos o risco de vocês tomarem as decisões erradas, camaradas, e depois, o que seria de nós?”

Tal inércia contribui para o inevitável desfecho, em que a tirania dos porcos em nada se diferencia daquela praticada pelo homem, resultando na corrupção total dos mandamentos inicialmente acordados, substituídos por  um único preceito que reflecte perfeitamente a total degeneração dos valores em que a revolução dos animais assentou:

“Todos os animais são iguais
Mas alguns são mais iguais
Do que outros”

Através desta circularidade, Orwell não só conseguiu atingir o objectivo a que se tinha proposto, como criou uma intemporal fábula que luta contra a crónica tendência que o ser humano tem para esquecer o seu passado, cometendo recorrentemente os mesmos erros.


Esta edição da Antígona inclui também, em apêndice, o prefácio que não chegou a ser publicado na primeira edição de Animal Farm, denominado A Liberdade de Imprensa (descrevendo as dificuldades de publicação de um texto anti-estalinista na época) assim como o prefácio escrito exclusivamente para a edição ucraniana do livro (em que George Orwell apresenta sucintamente o percurso da sua vida e a sua perspectiva política).

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