10 de maio de 2010

Entrevista com o Vampiro

Entrevista com o Vampiro
Edição/Reedição - 2010
Título Original: Interview with the Vampire (1976)
Autor: Anne Rice
Editora: Publicações Europa-América
Tradução: Teresa de Sousa Gomes
Páginas: 276
ISBN: 978-972-1-03750-2
Sinopse:
Entrevista com o Vampiro é muito mais do que um mero conto de terror. É o relato de um homem com o dom da imortalidade, que viveu durante duzentos anos como vampiro. Um homem que conta como se desligou da existência humana e se tornou um vampiro que, relutante em tirar a vida humana, sobreviveu à custa de sangue de animais.
Contudo, com o passar dos anos, acaba por adquirir todos os hábitos de um verdadeiro vampiro – a frieza, o desejo forte, o prazer sensual.
E empreende uma perigosa viagem pela Europa à procura de outros como ele, desesperado por descobrir formas de sobrevivência, mais desesperado ainda por descobrir a razão por que se tornou naquilo que é.
Fenómeno de popularidade, é estranho verificar que só agora a Europa-América decidiu reeditar o livro que foi decisivo para tornar Anne Rice numa das autoras de ficção mais lidas em todo o mundo (o valor máximo das estimativas actuais encontra-se nos 100 milhões de livros vendidos), especialmente tendo em conta toda a euforia gerada sobre qualquer publicação que envolva vampiros actualmente.(1)
A história é relatada pelo vampiro Louis, mas está longe de se limitar a uma simples exposição dos acontecimentos que constituíram a sua vida de mais de duzentos anos. Ao ler a descrição de Louis, acompanhamos os seus conflitos interiores de perto, sendo possível discernir claramente as mudanças que este sofre ao longo da narrativa. Mas o que torna tão agradável acompanhar o seu trajecto é, talvez, o facto de Louis ser extremamente humano apesar da sua qualidade de vampiro, questionando-se constantemente a nível moral. Podemos ver isso na sua incapacidade para matar seres humanos, na sua tentativa em compreender os sentimentos que floresceram após a sua transformação, na sua busca incessante por respostas.

“E, no entanto, nada me afastava da nossa busca, mas, cada vez mais comprometido como estava, pensei no risco das nossas perguntas, o risco de cada pergunta que é devidamente feita, pois a resposta poder ter um preço incalculável, um perigo trágico. Quem sabia isso melhor do que eu, que tinha assistido à morte do meu próprio corpo, vira fenecer e morrer tudo o que considerava humano, só para formar uma cadeia inquebrável, que me segurava fortemente a este mundo, tornando-me um exilado para sempre, em espectador com um coração que batia?”

Assim, um dos temas centrais, acaba por ser a gradual perda da inocência de Louis, que lentamente se vai libertando da sua melancolia e da sua sensibilidade humana, chegando, por várias vezes, a ponderar terminar com a sua vida, mas a auto-preservação acaba sempre por se sobrepor a todas as questões morais que o atormentam.
Rapidamente se denotam as visíveis diferenças entre Louis e o seu criador, Lestat. Um contraste bastante acentuado, dado que Lestat aceita plenamente a sua natureza de vampiro, deliciando-se com a morte que provoca todas as noites, e com o luxo que a riqueza adquirida através das suas capacidades sobrenaturais lhe proporciona. Grande parte da narrativa acaba por se basear no conflito provocado por tão diferentes personalidades, na sede por respostas de Louis, nos caprichos de Lestat e na sua mútua dependência.
Como seria de esperar, dada a imortalidade das personagens, estas acabam por passar por diferentes locais e épocas, sendo aqui que surge outro dos pontos fortes da autora, dado que Anne Rice nos apresenta o ambiente de uma forma capaz de nos transportar para os cenários do passado em que os vampiros se movimentam, tornando perceptíveis as mudanças inerentes à passagem do tempo. As suas descrições são ricas e envolventes, destacando-se principalmente a sua visão de Nova Orleães e de Paris.

“Tudo estava abraçado por ela, pela população volátil e encantada, que enchia as galerias, os teatros, os cafés, que fazia nascer permanentemente génios e santidade, filosofia e guerra, frivolidade e arte mais fina; portanto, parecia que se todo o mundo fora dela fosse cair na escuridão, o que era belo, o que era bonito, o que era essencial podia continuar a aparecer com as suas flores mais finas. Mesmo as árvores majestosas que embelezavam e abrigavam as ruas lhe pertenciam, e as águas do Sena, contidas e belas deslizavam através do seu coração; a terra neste local, formada por sangue e consciência, tinha deixado de ser terra e tinha-se tornado Paris.”

Ao longo do livro vamos também percebendo que, a imortalidade (talvez o maior desejo de qualquer ser humano), especialmente tendo em conta as necessidades de um vampiro para a manter, não traz apenas benefícios e que essa imortalidade acaba por não ser definitiva. Não falo aqui, das poucas formas capazes de aniquilar um vampiro, mas sim da lenta, mas inevitável auto-destruição que se opera nestes, ao longo dos séculos.

“Quantos vampiros pensa que têm a vitalidade da imortalidade? Para começar, têm as mais estranhas noções de imortalidade. Pois ao tornar-se imortais querem todas as formas da sua vida fixas como são e incorruptíveis: carruagens feitas pela última moda, roupas do último corte que lhes agradem à vaidade, homens vestidos e a falar do mesmo modo que sempre entenderam e apreciam. Quando, de facto, as coisas mudam, excepto o próprio vampiro; tudo excepto o vampiro é sujeito à corrupção constante e à distorção. Em breve, com um espírito inflexível, e muitas vezes mesmo com um espírito mais flexível, esta imortalidade torna-se uma sentença penitencial num manicómio de figuras e formas que são desesperadamente ininteligíveis e sem valor. Uma noite o vampiro levanta-se e entende que não quer mais nada da vida. Que o estilo de vida, ou a moda, ou a forma de existência que lhe tornavam a imortalidade interessante foi varrido da face da terra. E nada fica para oferecer a liberdade do desespero excepto o acto de matar. E esse vampiro sai para morrer. Ninguém encontra os seus restos. Ninguém sabe para onde ele foi. E frequentemente ninguém à usa volta, se ele ainda procurar a companhia de outros vampiros, saberá que ele está desesperado. Há muito que terá deixado de falar de si próprio ou de qualquer coisa. Desaparece.”

Apesar de todos os outros livros escritos posteriormente por Rice envolvendo estas criaturas sobrenaturais, “Entrevista com o Vampiro” continua a ser a sua obra de referência, destacando-se das influências de Bram Stoker, especialmente através do narcissismo com que dotou os seus vampiros.
(1) Permitam-me também tecer uma pequena crítica ainda relativa à Europa-América, dado que decidiu reeditar o primeiro volume de “O Vampiro Lestat” (em 2005 se não estou em erro) e, até à data, continuar sem proceder à reedição do segundo volume.

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