10 de abril de 2010

Uma Casa na Escuridão



Uma Casa na Escuridão
2002


Título Original: Uma Casa na Escuridão
Autor: José Luís Peixoto
Editora: Temas e Debates
Páginas: 251
ISBN: 972-759-369-0



Sinopse:
“A casa vive um mês por ano na escuridão.
O escritor está fechado na casa, no seu mundo. A escrita e a mulher amada brotam de um único lugar onírico, luminoso. Na casa vivem também uma mãe embrutecida pela dor, uma escrava silenciosa, uma multidão de gatos que se apropriam do espaço e dos humanos que o habitam.
O mundo fora da casa é um país que vive na impassibilidade das regras estabelecidas, arrastado pela inércia, depurado pelas prisões, embalado pela literatura. Mas eis que chegam os invasores e, com eles, a escuridão absurda da barbárie que aquela civilização já não sabe como encarar nem combater. A casa transforma-se então num asilo de seres mutilados, violados, brutalizados quotidianamente. Mas é também, ainda, um jardim: o jardim de infância dos filhos dos invasores.
Amputado na sua capacidade de escrever, sonhar e amar, o escritor é salvo da morte em vida apenas pela força amorosa das crianças, transportado para o absoluto pelo manto unificador da podridão que se abate sobre todos os humanos, invasores e invadidos.




Podendo ser lido como uma magistral alegoria do fim de uma civilização que é, sem dúvida, a nossa ou como uma denúncia, violenta na sua doçura, da barbárie que nos submerge sem que nos demos verdadeiramente conta. Uma Casa na Escuridão é um romance onde José Luís Peixoto consegue um equilíbrio miraculoso entre o pensamento do negrume que nos ameaça enquanto espécie e o júbilo da ternura que nos resgata e que resgata, sempre, a escrita do autor para um espaço verdadeiramente intocado e novo.”



José Luís começou a escrever Uma Casa na Escuridão em 2001, denotando-se uma forte influência dos atentados terroristas de 11 de Setembro do mesmo ano, assim como do consequente clima de guerra no Iraque, algo que o monótono ambiente em que a narrativa se inicia não torna visível, pelo menos temporariamente. É nesta aparente calma que o escritor, personagem principal, vê nascer dentro de si uma mulher que para sempre irá amar. Uma mulher que não só preenche a sua vida como se torna o tema central da sua escrita. O único tema da sua escrita.

“A noite desceu na janela. A minha mão direita começou a tremer. Sentei-me à escrivaninha, segurei a esferográfica e escrevi o seu rosto, a beleza magnífica. E estávamos mais próximos do que se fôssemos duas pessoas ao lado uma da outra, porque ela estava dentro de mim e eu estava dentro dela dentro de mim.”

Assim, Uma Casa na Escuridão é, essencialmente um romance intermitente, ora nos brindando com breves mas sublimes momentos, ora apresentando um sofrimento, uma dor capaz de eclipsar qualquer instante de felicidade.
A passagem do tempo é peça chave na atmosfera criada, evidenciando a fugacidade dos já referidos momentos de felicidade e fortalecendo a dimensão do sofrimento que é descrito ao longo da obra.

“O tempo passa depressa quando queremos sentir cada instante. O tempo passa lentamente quando se espera. O tempo passa ainda mais lentamente quando já não se espera nada, quando já não há nada a esperar.”

Outra característica presente ao longo não só deste livro, mas também da obra de José Luís, é a ausência de nomes próprios, algo comum dentro do realismo mágico em que este romance se insere, permitindo uma abrangência, uma universalidade que de outra forma não poderia ser atingida.
Para além da noção do tempo e da ausência de nomes, Peixoto recorre por diversas vezes à repetição de palavras de modo a enfatizar as sensações ilustradas ao longo do romance. Tal ferramenta contribui, de facto, para nos fazer sentir com maior intensidade, apesar de o seu uso ser um pouco excessivo, o que por vezes acaba por afastar alguns leitores, especialmente aqueles que têm contacto com o estilo de José Luís pela primeira vez.

“O medo existe dentro do terror, muito perto do terror, como os homens existem muito perto de perder tudo. O medo, muito perto do terror, é um silêncio de homens e de mulheres que existe no momento em que todos, homens e mulheres, percebem que existem muito perto de perder tudo.”

Apesar do medo, do sofrimento, da mágoa, da infelicidade, tal como em Nenhum Olhar, este romance, no fundo, trata de esperança, demonstrando que mesmo na escuridão mais cerrada existe sempre uma luz capaz de a rasgar, e que mesmo que essa luz venha, inevitavelmente, a perecer para a escuridão, a memória da felicidade permanece para sempre gravada nos nossos corações, imune ao negrume que nos envolve.

“Não se deve ter vergonha de se ser feliz por momentos. Não se deve ter vergonha da memória de se ser feliz por momentos.”










“A casa vive um mês por ano na escuridão.

O escritor está fechado na casa, no seu mundo. A escrita e a mulher amada brotam de um único lugar onírico, luminoso. Na casa vivem também uma mãe embrutecida pela dor, uma escrava silenciosa, uma multidão de gatos que se apropriam do espaço e dos humanos que o habitam.
O mundo fora da casa é um país que vive na impassibilidade das regras estabelecidas, arrastado pela inércia, depurado pelas prisões, embalado pela literatura. Mas eis que chegam os invasores e, com eles, a escuridão absurda da barbárie que aquela civilização já não se sabe como encarar nem combater. A casa transforma-se então num asilo de seres mutilados, violados, brutalizados quotidianamente. Mas é também, ainda, um jardim: o jardim de infância dos filhos dos invasores.
Amputado na sua capacidade de escrever, sonhar e amar, o escritor é salvo da morte em vida apenas pela força amorosa das crianças, transportado para o absoluto pelo manto unificador da podridão que se abate sobre todos os humanos, invasores e invadidos.


Podendo ser lido como uma magistral alegoria do fim de uma civilização que é, sem dúvida, a nossa ou como uma denúncia, violenta na sua doçura, da barbárie que nos submerge sem que nos demos verdadeiramente conta. Uma Casa na Escuridão é um romance onde José Luís Peixoto consegue um equilíbrio miraculoso entre o pensamento do negrume que nos ameaça enquanto espécie e o júbilo da ternura que nos resgata e que resgata, sempre, a escrita do autor para um espaço verdadeiramente intocado e novo.”

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