1 de abril de 2010

Cadernos da Casa Morta


Cadernos da Casa Morta
1860-1862

Título Original: Zapísski iz Miórtvogo doma
Autor: Fiódor Dostoiévski
Editora: Editorial Presença
Tradução: Nina Guerra e Filipe Guerra
Páginas: 284
ISBN: 972-23-2997-9

Sinopse:
“Cadernos da Casa Morta reflectem uma realidade quase dantesca, onde presos políticos, prisioneiros de guerra e presos de delito comum, vivem lado-a-lado com homens que perpetraram crimes hediondos. É «um mundo absolutamente à parte», uma micro-sociedade com regras próprias onde o quotidiano se reparte entre os trabalhos forçados, os castigos sádicos, a miséria, o mercado negro, o álcool e os pequenos expedientes de que os prisioneiros se servem não só para sobreviverem, mas para usufruírem da ilusão de fugazes momentos de «liberdade»... Privado de livros e de papel, Dostoiévski redige as suas notas em materiais que consegue recolher e que lhe permitem registar apontamentos de um realismo impressionante e de uma poderosa vitalidade, a par das suas reflexões pessoais sobre a natureza humana. Escrito em tom confessional, sóbrio e directo, este relato fica, para quem o lê, como um grandioso hino à vida.”

Cadernos da Casa Morta é, essencialmente, fruto da experiência pela qual Dostoiévski passou na Sibéria durante quatro anos, após ter sido exilado (1850-1954). Num período conturbado por agitações revolucionárias e fazendo Dostoiévski parte de um grupo intelectual liberal, uma denúncia por actividades políticas ilegais leva a que venha a ser condenado à morte. Tal sentença acaba por ser comutada em exílio e trabalhos forçados sendo, no entanto, tal mudança comunicada perante um pelotão de fuzilamento numa execução simulada. Como seria de esperar, tais acontecimentos vieram a marcar a personalidade do escritor, o que, inevitavelmente, teve consequências nos seus trabalhos posteriores.
Ao longo desses penosos anos, Dostoiévski pôde observar uma realidade bastante diferente, pelo que neste livro estão patentes as conclusões que retirou, não só relativamente ao sistema prisional, à dureza dos castigos, mas também, no que diz respeito à personalidade dos que o rodeavam. Analisando esse ambiente de mente aberta, livrando-se de juízos precipitados, o autor retrata de forma pormenorizada o novo mundo em que foi inserido forçosamente, demonstrando o quanto é possível aprender mesmo com o mais simples dos homens.

“Basta raspar a casca exterior, artificial e olhar o cerne de mais perto, com atenção e sem ideias preconcebidas e então poderemos ver no povo coisas que nem sequer imaginávamos. Os nossos sábios não têm muito para ensinar ao povo. Posso, mesmo, afirmar: eles próprios, pelo contrário, têm muito a aprender com ele.”

Obrigado a conviver com todo o tipo de criminosos, de diferentes nacionalidades, costumes e religiões, torna-se possível observar particularidades que não são visíveis em liberdade. Tamanha variedade entre os presidiários leva a uma procura por classificar em grupos os seus companheiros prisionais, tendo em conta as variáveis já referidas, assim como as especificidades dos indivíduos em questão, mas ele próprio acaba por duvidar que tal tarefa seja possível:

“Porém, será possível fazer-se o que estou a tentar fazer agora: dividir os habitantes de uma prisão em categorias? A realidade é infinitamente mais variada do que todas as conclusões do pensamento abstracto, por mais sofisticadas que sejam, e não suporta classificações forçadas e generalizadas. Também nós tínhamos a nossa vida individual, por mais humilde que fosse; não vivíamos só a vida oficial, mas também uma vida interior, só nossa.”

As histórias que nos vão sendo descritas ao longo do livro, apenas reforçam essa ideia. Embora seja fácil identificar vários traços comuns, alguns fruto da vivência em grupo, a realidade é que cada individuo possuí um carácter único, e ao generalizar corre-se o risco de julgar erradamente, chegar a conclusões que não correspondem de todo à verdade. De resto tais generalizações são criticadas pelo próprio autor, que procura desmistificar, sempre que possível, considerações do género.
Mas Cadernos da Casa Morta retrata não só a realidade que envolve o narrador, mas também os sentimentos interiores, as suas mágoas pessoais, as dificuldades que este teve de suportar.

“Lembro-me de que todos esses anos, tão semelhantes uns aos outros, passavam mole e tristemente. Lembro-me de que todos esses longos e enfadonhos dias eram tão monótonos como as gotas de água a pingarem do telhado depois da chuva. Lembro-me de que apenas o desejo de renovação, de renascimento para uma nova vida me dava forças para ter paciência e não perder as esperanças.”

Uma ânsia de liberdade que era partilhada por todos os presidiários, que independentemente do seu tempo de pena e da sua idade, sonhavam inocentemente com uma nova vida, mesmo que a realidade ditasse que tal seria impossível.
De notar que, ao contrário do que seria de esperar, a prisão teve também aspectos benéficos, possibilitando uma introspecção que provocou mudanças na forma de pensar, na forma de ser de Dostoiévski.

“Lembro-me de que, durante todo esse tempo, apesar de estar com centenas de companheiros, me sentia muito solitário e acabei por me afeiçoar a essa solidão. Espiritualmente solitário, revia toda a minha vida passada, recordava tudo até ao último pormenor, analisava o meu passado, julgava-me a mim mesmo, severa e implacavelmente, e às vezes até abençoava o destino por me ter mandado tal solidão, sem a qual não seria possível esse julgamento de mim próprio nem a revisitação severa da minha antiga vida.”

Apesar de tudo, se tivesse de reter uma ideia chave, de extrair uma conclusão principal deste livro, seria a de que o homem é um animal de hábitos, em que mesmo as mais duras privações e as mais sólidas esperanças, ainda que apoiadas por uma determinação aparentemente forte, nem sempre se tornam suficientes para mover as fundações da personalidade humana, para modificar a forma de ser de alguém. Como é fácil nos perdermos nas ilusões que nós próprios criamos.
Sem dúvida uma obra que deve estar na prateleira de qualquer apreciador de Dostoiévski.

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